22 de abril — Santos Epipódio e Alexandre, Mártires
22 de abril — Santos Epipódio e Alexandre, MártiresExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Quando Antônio Vero era imperador romano, a perseguição religiosa fez muitas vítimas entre os cristãos da cidade de Lyon. A fúria dos pagãos celebrava orgias de crueldade. Os nomes de bem poucos mártires passaram à posteridade, tendo a maior parte morrido, cujos nomes se acham registrados no livro da vida. Depois da grande e pavorosa carnificina, a que centenas de cristãos foram sacrificados, apareceram ainda Epipódio e Alexandre, cujos nomes foram indicados ao juiz, como de indivíduos que clandestinamente aderiram à religião cristã. Ambos eram de ilustre descendência. Epipódio era lionês, e Alexandre era filho da Grécia. Jovens ainda, tinham feito seus estudos nas mesmas escolas e, filhos da mesma religião, viviam na mais santa amizade. Durante a perseguição, se animaram mutuamente a perseverar na prática de sua fé. Fazendo obras de misericórdia e pelo exercício das virtudes da castidade, temperança e caridade, prepararam-se para o martírio. Para poder servir a Deus com mais liberdade, resolveram a não se ligar pelos laços do matrimônio.
Quando, pelo ano de 178, o fogo da perseguição começou a se alastrar, seguindo o conselho do Evangelho, Epipódio e Alexandre procuraram um abrigo seguro. Saíram de Lyon e aceitaram a hospedagem que uma piedosa viúva cristã lhes tinha oferecido, numa aldeia perto da cidade. Lá ficaram por algum tempo, sem que a fúria dos perseguidores os tivesse incomodado. Um dia, porém, foi descoberto o seu esconderijo e, contra toda a praxe, sem que fossem ouvidos em tribunal, foram metidos na prisão. Só três dias depois, com as mãos atadas nas costas, foram apresentados ao governador.
Apenas tinham feito a declaração de serem cristãos, quando o povo, com grande fúria e ímpeto, os increpou: "Ainda tendes a ousadia de vos opor a sacrificar aos deuses? Ainda vos atreveis a calcar aos pés as leis dos imperadores e cometer o crime de lesa-majestade, ofendendo o imperador e os deuses ao mesmo tempo? Onde estão os ecúleos, onde estão os patíbulos, as cruzes e as feras, onde estão as tenazes em brasa? Não temos mais torturas que os acompanhem até às fronteiras da morte? Não mais existem aqueles homens, nem seus túmulos, mas ainda vive a memória de Cristo! Que atrevimento é esse, de permanecerdes nessa religião proibida? Haveis de pagar bem caro vossa temeridade!"
Para que os dois não se pudessem comunicar e se animar mutuamente, o juiz mandou que fossem separados, e começou o julgamento de Epipódio, o mais moço. Antes de mais nada, procurou ganhá-lo por meio de elogios e promessas. O Santo, porém, respondeu-lhe: "A caridade de Cristo e a fé católica muniram-me bastante, para que o fingimento de tua compaixão não possa conseguir a mudança do meu pensar. Essa compaixão é crueldade, viver convosco é morte, sofrer a morte das vossas mãos é honra. Tu não sabes, que Nosso Senhor eterno, Jesus Cristo, de quem dizes ter sido crucificado, ressuscitou dos mortos e, sendo Deus e homem verdadeiro, preparou aos seus servos o caminho da imortalidade e os conduz à glória do céu? Para falar-te em linguagem mais compreensível, teu espírito de certo não está tão entenebrado, que não saibas que o homem é composto de corpo e alma. As monstruosidades, com que homenageais vossos ídolos, satisfazem o corpo, mas matam a alma. Nós guerreamos o corpo, para salvar a alma; pugnamos em prol da alma, contra os vícios. Se nós, por vós perseguidos, morremos, deixamos apenas a vida temporal, para entrar na eterna".
O juiz, irritado com esta declaração franca de Epipódio, mandou que lhe batessem na boca. O mártir, porém, continuando, disse: "Confesso que Jesus Cristo é um com o Pai e o Espírito Santo, e é justo que eu lhe entregue a minha alma, por Ele criada e remida. Assim minha vida não me é tirada, mas transformada em outra melhor".
A esta confissão seguiu um tratamento bárbaro, a que o juiz mandou que Epipódio fosse sujeito. Esticado sobre o ecúleo, foram-lhe os lados dilacerados com arpões de ferro. O Santo não deu o menor sinal de impaciência, suportando tudo com a maior calma. Enfureceu-se com isto o povo, o qual quis se atirar sobre o santo Mártir, para matá-lo. O juiz ordenou então que Epipódio fosse decapitado, e esta ordem foi prontamente executada.
Dois dias depois entrou em julgamento o companheiro de Epipódio.
Longe da narração do martírio horrível de Epipódio e de outros cristãos intimidar a Alexandre, seu ânimo ficou ainda mais elevado e como eles, fez solene profissão de sua fé. O juiz condenou-o à flagelação, que foi cruelmente executada. Alexandre suportou-a com a maior coragem. Sendo perguntado depois, se persistia nos seus erros, respondeu: "Como não hei de persistir? Os ídolos dos pagãos são demônios, mas o Deus a que eu rendo homenagem, e que é santo e eterno, me dará força para confessá-lo até o fim. Ele proteger-me-á na minha fé e bom propósito".
O juiz, vendo que era inútil qualquer outra insistência, mandou que Alexandre fosse crucificado. O Mártir, todo ensanguentado e horrivelmente maltratado, com voz agonizante, invocou ainda o nome de Jesus Cristo.
Os cristãos procuraram os corpos dos mártires e enterraram-nos clandestinamente.
A vitória do paganismo foi de curta duração. Os túmulos de Epipódio e Alexandre foram glorificados por numerosos e estupendos milagres, e o povo cristão, de perto e longe, veio para venerar as santas relíquias dos Mártires e invocar sua intercessão.
Reflexões
Os Santos Epipódio e Alexandre confessaram o nome de Jesus Cristo, e selaram sua fé com seu próprio sangue. Também nós devemos confessar a nossa religião, sempre que as circunstâncias o exigirem. Pode a prudência nos aconselhar certa reserva, principalmente quando se trata de provocações da parte de inimigos da religião que, outra coisa, não pretendem, senão a sensação ou talvez o escândalo. Pelo seu próprio exemplo (Lucas 20, 2-8) Nosso Senhor nos ensinou, como nos havemos de haver em semelhantes circunstâncias. Quando, porém, a justiça, a honra de Deus e da religião, o bem do próximo o exigirem, seria faltar ao nosso dever, se por fraqueza, por respeito humano ou outros interesses materiais, quiséssemos conservar-nos naquela reserva ou até disfarçar a nossa convicção religiosa. O amor de Deus, a gratidão que devemos a Nosso Senhor, o verdadeiro patriotismo cristão, podem exigir de nós sacrifícios supremos. No reino de Jesus Cristo cedem todas as outras considerações quando estão em jogo os interesses sobrenaturais. Há circunstâncias, em que se aplica ao pé da letra a palavra de Nosso Senhor, que diz: "Quem ama pai ou mãe, filho ou filha mais que a mim, não é digno de mim". "Quem quer conservar a sua vida, virá a perdê-la; e quem perder a sua vida por amor de mim, salvá-la-á" (Lucas 9, 24).
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩