21 de dezembro: Festa do Apóstolo São Tomé
21 de dezembro: Festa do Apóstolo São ToméExtraído do livro Meditações para todos os dias e festas do ano tiradas das obras ascéticas de Santo Afonso Maria de Ligório, Bispo e Doutor da Igreja, pelo Padre Thiago Maria Cristini, edição de 1921, tomo I: desde o I Domingo do Advento até a Semana Santa inclusive 1
Quia vidisti me, Thoma, credidisti: beati qui non viderunt et crediderunt — “Tu creste. Tomé, porque viste; bem-aventurados os que não viram e creram” (Jo. 20, 29)
Sumário. Consideremos a imensa bondade de Jesus Cristo em eleger um simples pescador para o sublime ministério apostólico, apesar de prever sua queda. Consideremos também o modo admirável como Tomé respondeu àquela graça divina, trabalhando toda a sua vida e terminando-a com um martírio generoso. Lançando em seguida um olhar sobre nós mesmos, vejamos, se, à imitação do Santo, temos correspondido aos benefícios divinos, e proponhamo-nos ser para o futuro mais diligentes.
I. Considera o modo de agir de Jesus Cristo para com São Tomé. Primeiro deu-lhe uma prova da sua infinita bondade, chamando-o da humilde condição de pescador, ao sublime ministério do apostolado, e concedendo-lhe todas as graças e dons proporcionados a um ofício tão alto. Não havia em Tomé algum mérito precedente; foi uma eleição toda gratuita da parte do divino Redentor, que não hesitou em conceder-lhe tal graça, apesar de prever o pecado em que um dia havia de cair.
Depois da queda, o Senhor usou para com Tomé de toda a paciência, aturando a obstinação do Apóstolo. Não quis este render-se aos muitos testemunhos de ressureição de Jesus e protestou que não havia de crer, em quanto não tivesse visto e apalpado as chagas, como se quisesse obrigar Jesus a prestar-lhe tamanho favor para o levar a crer. O Senhor suportou a infidelidade do seu discípulo, e só por ele tornou a aparecer, como se mostrara oito dias antes aos demais discípulos, acomodou-se às condições postas e permitiu que lhe apalpasse as chagas sagradas, dizendo: “Mete aqui o teu dedo, e vê as minhas mãos; chega também a tua mão, e mete-a no meu lado, e não sejas incrédulo, mas fiel” – Noli esse incredulus, sed fidelis2.
Depois de teres admirado as riquezas da bondade, da paciência e da longanimidade3 de Deus, alegra-te com o Santo pelas muitas e grandes graças recebidas. Lançando em seguida um olhar sobre ti mesmo, dá graças a Jesus Cristo pelos muitos favores que concedeu a tua alma, especialmente por te haver chamado ao seu conhecimento, ao seu serviço, apesar da previsão de tantos deméritos e ingratidões da tua parte.
II. Considera como Tomé se houve para com Jesus Cristo. Primeiro, obedeceu logo ao convite divino, seguiu a Jesus e se lhe afeiçoou de tal forma, que depois animou os demais apóstolos, a acompanharem o divino Mestre para a Judeia, onde lhe insidiavam a vida, e a exporem-se a morrer com Ele e por Ele: Eamus et nos, et moriamur cum eo4 – “Vamos nós também, para morrer com Ele”. Se depois da ressurreição teve a infelicidade de cair, levantou-se e satisfez amplamente pela sua falta com esta nobre confissão: Dominus meus, et Deus meus!5 – “Meu Senhor e meu Deus!” Dizem os intérpretes que então São Tomé creu prontamente e sem hesitação alguma, e creu em todos os mistérios relativos à pessoa de Jesus Cristo, não só reconhecendo-o ressuscitado, mas confessando-o Deus e Homem, seu Redentor e seu Senhor.
Não se contentou com haver confessado Jesus diante dos apóstolos, mas logo depois da vinda do Espírito Santo, começou a pregar em Jerusalém e na Judeia. Animado do desejo de que todas as nações do mundo conhecessem Jesus Cristo, o honrassem e o amassem, foi evangelizar aos Partos, Medos e Persas; penetrou na Etiópia; avançou até as Índias Orientais. Em toda a parte derrubou ídolos, converteu nações, fundou igrejas e não deixou de pregar a fé, senão depois de ter derramado todo o seu sangue e exalado o espírito no martírio sofrido por Jesus Cristo.
Ah, se uma centelha do fervor do Santo estivesse acesa em tua alma, se tu também, à imitação de São Tomé, trabalhasses no futuro tanto para glória de Jesus Cristo, quanto em tempos passados o ofendeste, como serias feliz! Roga, portanto, a Deus que te comunique esse fervor pelos merecimentos do seu glorioso Apóstolo. – “Concedei-me, ó Senhor, celebrar com fruto a festa do vosso Apóstolo Tomé, a fim de que, favorecido sempre com o seu patrocínio, possa imitar-lhe a fé com devida devoção.”6 Fazei-o pelo amor de Jesus Cristo, vosso divino Filho, e de Maria Santíssima, minha amada Mãe.