21 de abril — Santo Anselmo, Bispo, Confessor e Doutor da Igreja
21 de abril — Santo Anselmo, Bispo, Confessor e Doutor da IgrejaExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Anselmo, filho de Gondulfo e Ermengardes, ambos de nobre estirpe, o grande arcebispo de Candelburgo ou Canterbury nasceu em Aosta no Piemonte, em 1033. A piedosa mãe soube implantar no coração do filhinho um amor profundo à virtude e Anselmo jamais esqueceu de sábios conselhos. Privilegiado de talento primoroso, fez Anselmo belos progressos nos estudos. Não tendo ainda 15 anos de idade, manifestou desejos de se dedicar à carreira eclesiástica e neste intuito procurou um abade, o qual, porém, prevendo o protesto de seu pai, lhe negou a admissão. Anselmo entristeceu-se muito devido a este insucesso e adoeceu gravemente. Na sua doença renovou seu propósito de se filiar a uma Ordem religiosa. Restabelecido da moléstia, Anselmo não mais se lembrou do que se propusera; pelo contrário, mudou suas ideias de tal maneira, que, em vez de servir a Deus, procurou seu bem-estar nos divertimentos e prazeres mundanos. Por infelicidade sua perdeu o amor do seu pai, que começou a tratá-lo com aspereza. Anselmo, não querendo sujeitar-se às arbitrariedades e injustiças de seu progenitor, ausentou-se do país e passou três anos na Borgonha, julgando que, com sua ausência, as coisas melhorassem.
De fato melhoraram, voltando no jovem o antigo amor ao estudo. Tendo chegado ao seu conhecimento que o célebre mestre, seu compatrício Lanfranc, se dedicava ao magistério num convento, a ele se dirigiu pedindo admissão entre seus discípulos. Sob a direção de Lanfranc, fez progressos tais, que em poucos meses se distinguiu entre todos os condiscípulos.
Voltou também ao coração de Anselmo o amor à virtude e à oração. Tomou novo vulto sua antiga resolução de ser sacerdote. Desta vez a pôs em execução. Na idade de 27 anos, tomou o hábito de São Bento. A mudança de sua vida foi tal, que, passado o tempo de noviciado e mais três anos de professo, foi eleito sucessor de seu mestre Lanfranc, no cargo de Prior. Houve quem, com inveja e malquerença, observasse o progresso do jovem religioso, mas Anselmo, com paciência, delicadeza, amor e justiça, soube desarmar todos os seus desafetos.
Ele passava o dia instruindo seus discípulos nas ciências profanas e divinas, para dedicar à oração as horas silenciosas da noite. Aos doentes dispensava um cuidado particular. Não só os visitava frequentes vezes, mas com suas próprias mãos prestava-lhes os serviços, que o seu estado exigia.
Profundo e constante era seu amor à Sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo. Copiosas e amargas lágrimas derramou, chorando os desvarios de sua mocidade. Deus deu-lhe um horror tal ao pecado, que preferia precipitar-se no inferno, a ofender a Deus. Do pecado, por menor que fosse, fugia com todo o escrúpulo, porque, vendo nele uma ofensa a Deus, considerava-o um grande mal de que podiam depender grandes interesses da alma.
Grande era sua devoção à Santíssima Virgem Maria. Entre os grandes escritores da Igreja, figura Anselmo entre os primeiros que ensinaram e defenderam a Imaculada Conceição. Muitas obras ele escreveu em honra da excelsa Rainha do Céu, da Bem-aventurada Mãe de Deus.
Quando morreu o abade Herluino, em 1073, a comunidade elegeu a Anselmo seu sucessor. Nesta sua nova dignidade, não modificou o seu modo de vida, a não ser que se dedicasse mais ainda aos exercícios da vida interior.
Negócios do seu Convento reclamavam muitas vezes sua presença na Inglaterra. Serviu-lhe esta circunstância para estreitar cada vez mais os laços de amizade, que o ligavam a Lanfranc, que tinha sido eleito Arcebispo de Canterbury. A fama da santidade e ciência de Anselmo tinha já passado as fronteiras da França. O abade de Bec gozava de geral simpatia, entre os príncipes seculares e eclesiásticos. O próprio Papa Gregório VII, por diversas vezes, se recomendou às orações de Anselmo. Guilherme, o Conquistador, temido e odiado pelos ingleses, homem que a poucos dignava uma palavra, achava o maior agrado em poder conversar com o santo Abade, em cuja presença parecia completamente outro. Da grande influência, que possuía, Anselmo só se serviu para o bem do reino de Deus e a salvação das almas. Sua prudência e sua extraordinária amabilidade fizeram com que os mais rebeldes lhe abrissem o coração.
Tinha morrido o grande amigo de Anselmo, o Arcebispo de Canterbury. Para poder se apoderar dos riquíssimos rendimentos do arcebispado, o rei se opôs à eleição de um sucessor de Lanfranc. Deus mandou-lhe uma doença gravíssima, que modificou o pensar do monarca. Roído de remorsos, nomeou a Anselmo arcebispo, no que achou a maior resistência deste mesmo. "Queres desgraçar-me na eternidade?" Perguntou-lhe o rei. "A salvação de minha alma está em tuas mãos. Não dando eu um bispo a Canterbury, receio não merecer a graça de Deus". Os bispos e grandes do reino apoiaram a opinião do rei e insistiram com Anselmo, para que não opusesse resistência: "Tua oposição — disseram-lhe eles, — serve-nos de escândalo, e se persistires na tua resolução, responderás diante de Deus por todos os males que sobrevierem". Anselmo, porém, persistiu na sua recusa. Só depois da formal declaração do rei, dele reconhecer a legitimidade de Gregório VII, como Papa, e da promessa de fazer restituição dos bens, ilegalmente tirados à arquidiocese de Canterbury, aceitou a dignidade, que lhe fora oferecida.
Mal tinha o rei recuperado a saúde, se esqueceu dos seus bons propósitos. No intuito de conquistar a Normandia, exigiu dos seus súditos novos impostos. Anselmo deu-lhe duzentas libras de prata, soma avultadíssima naqueles tempos. Quando, porém, o rei exigiu a contribuição de outras duzentas libras, respondeu-lhe Anselmo, que não lhe era lícito dispor dos bens da Igreja, por serem bens dos pobres.
Outros abusos e irregularidades que existiam, e que clamavam por uma reforma, Anselmo recomendou-as ao rei, com a maior insistência. Em vão. Diversas abadias continuavam sem abade, aos bispos era negado o direito de se reunirem em conferências, para tratarem dos interesses das suas dioceses. O rei começou a enxergar em Anselmo, um conselheiro importuno, um empecilho incômodo na execução dos seus planos. O mesmo, que tanto se empenhara em elevá-lo à dignidade de arcebispo, pôs agora em ação todos os recursos para fazê-lo renunciar. Para este fim, organizou uma propaganda tenaz entre o clero superior e os Grandes do Reino, contra Anselmo, e não trepidou em ganhar o Sumo Pontífice para sua causa. Nada, porém, conseguiu, tendo ele o desgosto de ver seus planos fracassarem um por um. Restou-lhe só recorrer à força e de fato se apoderou dos bens da arquidiocese de Canterbury. Deixando seu protesto nas mãos do rei, Anselmo se apresentou ao Papa, o qual tomou sua defesa contra o procedimento ilegal e arbitrário de Guilherme, sem, porém, conseguir que este abandonasse sua política. Gregório VII, vendo a contumácia do monarca, teria lançado a excomunhão contra ele se Anselmo não tivesse insistido, com empenhadas súplicas, que tal pena não fosse aplicada. Pouco tempo depois, recebeu a notícia da morte desastrosa do rei numa caça.
Durante sua estadia na Itália e na França foi Anselmo tratado e festejado de uma maneira que não deixava dúvida sobre a alta estima de que gozava por toda a parte.
O sucessor de Guilherme, Henrique I, parecia ser animado por ideias mais conciliadoras. Um dos seus primeiros atos foi convidar Anselmo para que voltasse para a Inglaterra. A entrada do Santo na sua diocese revestiu-se de maior brilho, e a audiência que teve com o monarca, teve caráter de muita cordialidade. Era opinião geral, que a paz estava restabelecida. Os fatos, porém, não justificaram esta doce esperança. Henrique consentiu que Anselmo retomasse o governo da arquidiocese de Canterbury, com a condição, porém, do arcebispo aceitar seu poder das mãos do monarca e a este prestar o juramento de vassalagem. Anselmo, baseando-se na decisão do último concílio, celebrado em Roma, que condenou o abuso da investidura, protestou contra esta atitude do rei. Henrique negou-se a reconhecer a autoridade do concílio em questão, e apelou para o Papa.
Estavam as coisas neste pé, quando no horizonte político surgiu ameaçadora uma nova tempestade. Roberto, duque da Normandia, irmão de Henrique, achando-se de volta de uma campanha na Palestina, queixou-se amargamente da injustiça que lhe fora feita, de terem-no pretendido, na sucessão do trono da Inglaterra. Não satisfeito com as razões justificativas, resolveu a fazer valer seus direitos à coroa e declarou guerra a seu irmão. A situação tornou-se assaz crítica para Henrique, visto que grande número dos Grandes tomou o partido de Roberto. Neste grande embaraço, pediu a intervenção de Anselmo, prometendo-lhe nunca mais se imiscuir em negócios eclesiásticos. Devido à grande autoridade e ao extraordinário prestígio do arcebispo, os Grandes desistiram da sua política e resolveram a guardar fidelidade a Henrique. Bem depressa esqueceu-se este das suas promessas e a luta pela investidura recomeçou. Anselmo dirigiu-se novamente a Roma, onde encontrou todo o apoio. Proibido de voltar para a Inglaterra, ficou Anselmo na França, onde achou cordial acolhimento da parte do arcebispo de Lyon.
A luta da investidura terminou em 1106. Achou-se uma fórmula, que satisfez ambas as partes. Anselmo pôde voltar para sua arquidiocese, onde foi recebido com grandes manifestações de alegria geral. Poucos anos pôde Anselmo gozar da paz. O peso dos anos já se fez sentir, e em 21 de abril de 1109, na idade de 76 anos, entregou sua alma ao descanso eterno. Numerosos e grandes milagres foram observados no seu túmulo. Um fidalgo, sofrendo de lepra, recuperou a saúde, tendo bebido da água em que o Santo tinha lavado suas mãos, depois da celebração da Santa Missa. O Papa Clemente XI deu a Anselmo o título honroso de Doutor da Igreja.
Reflexões
Santo Anselmo tinha pavor do pecado. "Se de um lado visse o pecado — dizia ele — e do outro as portas do Inferno abertas, e devendo escolher entre um e outro, eu preferia lançar-me no inferno, sem cometer um pecado". Como Santo Anselmo pensam todos aqueles, que têm compreensão do pecado e de sua grande maldade. Qual é teu conceito em relação ao pecado? Tens dele pavor e aborrecimento? Melhor que a boca, teu modo de viver te responderá. Se é que com toda facilidade cometes pecados, onde está então o medo, o pavor de ofender a Deus? E medo, pavor do pecado não tens, porque te falta a compreensão da maldade dele. Que deves tu fazer para alcançar este pavor? Pedir a Deus, como o cego do Evangelho: "Senhor, fazei que veja!" Dai-me a graça de conhecer a maldade do pecado. "Conhecer e chorar seus pecados é o início da salvação" (São Jerônimo).
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩