20ª Semana depois de Pentecostes – Quinta-feira: Jesus no Santíssimo Sacramento, modelo de virtude

20ª Semana depois de Pentecostes – Quinta-feira: Jesus no Santíssimo Sacramento, modelo de virtude
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Extraído do livro Meditações para todos os dias e festas do ano tiradas das obras ascéticas de Santo Afonso Maria de Ligório, Bispo e Doutor da Igreja, pelo Padre Thiago Maria Cristini, edição de 1921, tomo III: Desde a 12ª Semana depois de Pentecostes até ao fim do ano eclesiástico1

Qui appropinquant pedibus eius, accipient de doctrina illius — “Os que chegam a seus pés, receberão da sua doutrina” (Dt. 33, 3)

Sumário. Para a nossa salvação, é mister que no dia do juízo a nossa vida se ache conforme à de Jesus Cristo. Esforcemo-nos, pois, por imitar os exemplos luminosos de virtude que Ele nos dá continuamente no Santíssimo Sacramento da Eucaristia: a sua humildade profunda, a sua mansidão inalterável, aceitando de boa vontade o que Deus manda. Para suprirmos ao que nos falta, ofereçamos a Deus muitas vezes, e particularmente na missa, os merecimentos do divino Redentor.

I. Consideremos os belos exemplos de virtude que nos dá Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia. Inefável é a sua paciência. Ele vê que a maior parte dos homens não O adora neste sacramento, nem O quer reconhecer pelo que é. Já antes da instituição sabia que muitas vezes os homens chegariam a calcar aos pés as hóstias consagradas e a atirá-las sobre a terra, à água e ao fogo.

Mas o que mais Lhe amargura o coração tão sensível, é o ver que também a maior parte dos que n’Ele creem, em vez de repararem tantos ultrajes pelos seus obséquios, ou vão à Igreja para o ofenderem pela sua irreverência, ou o deixam abandonado sobre os altares, desprovidos às vezes de lâmpada e dos ornamentos necessários. Tudo isso Jesus, escondido sob as espécies eucarísticas, o vê e sabe, e todavia sofre-o com paciência e fica calado. Oh, que exprobração de nossa loquacidade nos momentos de ira!

É igual à humildade de Jesus, pois que em nenhuma obra de seu divino amor se ocultou tanto como no mistério do Santíssimo Sacramento. Para nos inspirar confiança, e ao mesmo tempo, para nos dar um remédio de nosso orgulho, chegou a ocultar a sua Majestade, a esconder as suas grandezas, a consumir e aniquilar a sua vida divina. Pode, portanto, com razão dizer-nos de dentro do tabernáculo: Discite a me, quia mitis sum et humilis corde2 — “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração.”

Mas sobretudo o Senhor nos dá na Eucaristia exemplos de obediência. Enquanto vivia na terra, diz São Lucas que Ele obedecia a Maria Santíssima e a São José 3. São Paulo acrescenta que Jesus se fez obediente a seu Pai Eterno até a morte na cruz 4. Mas neste sacramento Jesus vai mais longe ainda, pois aí quer obedecer não somente ao Eterno Pai, não somente a seus pais, mas a tantas criaturas quantos sacerdotes há, e não somente até à morte, mas enquanto durar o mundo. – Coisa assombrosa! O Rei do céu desce à terra por obediência ao homem; e sobre os altares parece que não faz outra coisa senão obedecer aos homens, deixando-se tratar por todos conforme entenderem, sem replicar uma palavra, sem se subtrair à obediência. Ego autem non contradico, retrorsum non abii 5— “Eu não contradigo; não me retirei para trás.”

II. Diz São Paulo que para nossa salvação é mister que no dia do juízo a nossa vida se ache conforme a de Jesus Cristo: Quos praescivit et praedestinavit conformes fieri imaginis Filii sui6— “Os que Ele conheceu na sua presciência, também os predestinou para se fazerem conformes à imagem de seu Filho”. Esforça-te, portanto, por imitares as virtudes exímias de que o divino Redentor nos dá na Santíssima Eucaristia; exemplos tão luminosos.

Por isso sê sempre e em tudo obediente às leis de Deus e aos preceitos da Santa Madre Igreja. Se tiveres a ventura de viver numa comunidade religiosa, considera todas as prescrições da Regra como ordens vindas do céu e a pessoa do superior como pessoa do próprio Deus.

Sê também humilde e prova sê-lo não somente com palavras, senão com obras, aceitando tranquilamente as humilhações, os desprezos e levando enquanto o permitir o teu estado, uma vida retirada e oculta. — Mas, sobretudo, sê sempre paciente, suportando os defeitos do próximo, assim como este deve suportar os teus. Aceita também de boa vontade as cruzes que Deus te envia para teu bem. — Para suprir as tuas faltas, oferece ao Senhor muitas vezes, e especialmente nas visitas a Jesus sacramentado ou na assistência à santa missa, os merecimentos de teu divino Redentor.

Padre Eterno, ofereço-Vos hoje todas as virtudes, todos os atos e todos os afetos do coração do vosso querido Jesus. Aceitai-os em meu nome, e pelos seus merecimentos (que aliás são todos meus, porque Jesus m´os cedeu), dai-me aquelas graças que Jesus os pede por mim. Com esses merecimentos agradeço-Vos toda a misericórdia que tivestes para comigo. Com eles satisfaço o que Vos devo em expiação de meus pecados. Por meio deles espero de Vós todas as graças: o perdão, a perseverança, o paraíso e, sobretudo, o dom supremo do vosso amor.

Vejo que sou eu quem opõe impedimentos a tudo; remediai também a esta minha miséria. Eu Vô-lo peço em nome de Jesus Cristo, que prometeu: Si quid petieritis Patrem in nomine meo, dabit vobis7 – “Se pedirdes alguma coisa ao Pai em meu nome, Ele vô-lo dará”. Não m’o podeis portanto recusar. Senhor, o que quero é amar-Vos, dar-me inteiramente a Vós e nunca mais ser-Vos ingrato, assim como hei sido até agora. Olhai para mim e atendei-me; fazei que o dia de hoje seja o de minha conversão, para nunca mais deixar de Vos amar. Amo-Vos, meu Deus; amo-Vos, bondade infinita; amo-Vos, meu amor, meu paraíso, meu tesouro, meu tudo. — Amo-vos também a vós Mãe de Deus e minha Mãe, Maria.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/meditacoes-santo-affonso-maria-de-ligorio-tomo-iii
  2. Mt. 11, 29
  3. Lc. 2, 51
  4. Fl. 2, 8
  5. Is. 50, 5
  6. Rm. 8, 29
  7. Jo. 16, 23