20 de outubro — São Filipe, Bispo e Mártir († 304)
20 de outubro — São Filipe, Bispo e Mártir († 304)Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Grandes e relevantes serviços tinha Filipe prestado à Igreja de Heracleia. Por este motivo e mais ainda por causa de suas altas virtudes, foi eleito Bispo da mesma cidade. Admirabilíssima foi a prudência com que governou a Diocese, nos dias de maior aflição, como os trouxe a perseguição diocleciana.
Para melhor divulgar a religião e conformar os fiéis na fé, escolheu entre os jovens da Igreja os melhores, aos quais deu instruções particulares sobre a doutrina e a prática das virtudes. Dois deles tiveram a honra de acompanhá-lo no martírio: o sacerdote Severo e o diácono Hermes. Ambos, altamente colocados, gozavam de estima geral.
Quando chegaram as primeiras notícias sobre a pretendida perseguição, muitos aconselharam ao Bispo que se retirasse da cidade. Filipe, porém, não quis abandonar o rebanho; pelo contrário, exortou os fiéis para que se munissem de coragem e paciência, pois que a tempestade estava a chegar.
Filipe pregava a palavra de Deus, quando se apresentou Aristômaco, comandante da guarnição, para fechar a porta da igreja, em nome do governador.
— “Pensas — disse-lhe Filipe — que o nosso Deus seja um ser que se fecha entre paredes? Não sabes que Ele estabelece morada nos corações dos fiéis?”
No dia seguinte vieram os oficiais do exército, para sequestrar os santos livros e os vasos litúrgicos. Os fiéis muito se entristeceram com esses fatos, mas Filipe consolou-os.
O governador Basso ordenou a prisão de Filipe e de alguns cristãos e citou-os perante o tribunal. Estando em sua presença, perguntou-lhes:
— Quem de vós é mestre dos cristãos?
Filipe respondeu:
— Sou eu.
De novo inquiriu Basso:
— Ignoras que o Imperador proibiu as vossas reuniões? Entrega-nos os vasos de ouro e prata, de que vos servis, bem como os livros em que fazeis vossa leitura.
Resolutamente respondeu Filipe:
— Os vasos e o tesouro da igreja ser-te-ão entregues, pois não é com metais preciosos, mas pela caridade que se honra a Deus. Nenhum direito, porém, te assiste de exigir os santos livros, como a mim não me é lícito entregá-los.
O governador, tomando essas palavras no sentido de desobediência, deu ordem aos algozes para que pusessem Filipe no ecúleo.
Entretanto, Hermes fez ver a Basso que de nenhum efeito seria a destruição dos santos livros, pois a palavra de Deus é indestrutível. Esta declaração importou-lhe cruel espancamento. Hermes então se dirigiu com o empregado Públio ao lugar onde se achavam os vasos sagrados e os livros. Vendo que o infiel servo punha de lado alguns vasos, repreendeu-o. Este, porém, investiu contra o senhor e bateu-lhe no rosto com tanta força, que ficou ensanguentado. Em seguida, Basso apoderou-se de tudo e distribuiu livros e vasos entre os empregados. Para amedrontar os cristãos, mandou derrubar o telhado da Igreja e ao mesmo tempo os soldados queimaram os santos livros.
Vendo o fogo, Filipe aproveitou o ensejo e falou nas penas com que Deus ameaçou os pecadores. Enquanto falava, compareceu o sacerdote pagão Califrônio, com ministros e muita gente. Na presença dos sacerdotes e do povo, Basso intimou a Filipe que sem demora oferecesse no altar sacrifícios aos deuses, aos imperadores e à fortuna da cidade. Apresentando-lhe depois uma estátua de Hércules, muito bem talhada, perguntou se não achava aquela divindade digna de toda veneração. O santo Bispo respondeu-lhe que não se rebaixaria a ponto de adorar uma obra de arte.
Dirigindo-se a Hermes, Basso disse:
— Certo estou de que não te negarás a sacrificar.
Este lhe respondeu:
— Sou cristão e não sacrificarei.
Vendo baldados todos os esforços, Basso ordenou que os dois prisioneiros fossem reconduzidos ao cárcere.
Filipe e Hermes, no meio dos maus-tratos, apupos e vaias do populacho, entoaram salmos e hinos, cantando louvores a Deus.
Poucos dias depois receberam licença para retirar-se para casa de um cidadão de nome Pancrácio. Esta se tornou então alvo de numerosas visitas dos cristãos, que desejavam ver os mestres e deles ouvir algumas palavras de conforto.
Esse estado de coisas durou pouco e os dois perseguidos voltaram à prisão. Como o cárcere tivesse uma entrada secreta, por ali saíam quantas vezes quisessem e recebiam visitas dos cristãos.
Entretanto, findou o governo de Basso, que foi substituído por Justino, inimigo figadal do nome cristão e além disto homem cruel, de que deu prova logo nos primeiros dias de gestão. Vieram dias de novos tormentos para os pobres encarcerados.
Perguntado por Justino se prestava ou não homenagem aos deuses, Filipe respondeu:
— Não devo obedecer, porque sou cristão. Além disso, tens poder só de me castigar; nenhum, porém, sobre a minha vontade.
Justino advertiu-lhe:
— Ignoras, talvez, que castigos te aguardam?
Respondeu Filipe, com desassombro:
— Maltrata-me como quiseres; nada conseguirás, porque não sacrificarei.
Justino, então, deu ordem aos soldados para que lhe atassem os pés e o arrastassem pelas ruas da cidade. Após essa tortura, o corpo do Bispo apresentava uma só chaga. Os cristãos, compadecidos, levaram-no outra vez à prisão. Hermes sofreu o mesmo castigo e Severo caiu nas mãos dos perseguidores.
Sete meses passaram esses três homens na masmorra. Findo este prazo, Filipe compareceu novamente perante Justino. Só o aspecto do santo Bispo provocou no tirano uma fúria tal que, nem mais nem menos, ordenou que fosse batido com varas. Foi tão bárbara e desumanamente executada a sentença, que as carnes foram caindo aos pedaços, até ficarem expostas as entranhas. Muitas pessoas pediram a Justino que tivesse pena de um homem que só tinha feito bem, que foi o primeiro magistrado de Heracleia e benfeitor de muitas famílias.
Três dias depois teve início o processo de Hermes. O resultado foi o mesmo: Hermes ficou firme na fé. Tendo auscultado a opinião dos conselheiros, Justino finalmente pronunciou a seguinte sentença:
“Ordenamos que Filipe e Hermes sejam queimados vivos. Pela desobediência às disposições imperiais, tornaram-se indignos do nome de cidadão romano; sirva este exemplo de aviso para os outros”.
Os dois mártires de Cristo receberam a condenação com muita satisfação. Não tendo mais forças para andar, devido aos horríveis sofrimentos por que tinham passado, foram carregados para o lugar do suplício. Os algozes — como era costume em execuções dessa natureza — enterraram-nos até os joelhos, ataram-lhes as mãos às costas e acenderam a fogueira, armada por cima das vítimas. Filipe e Hermes louvaram a Deus em altas vozes, até que as chamas e a fumaça lhes cortaram a respiração. Os corpos foram encontrados intactos e, por ordem de Justino, atirados ao rio. Os cristãos, porém, os tiraram e guardaram em lugar seguro. O sacerdote Severo encheu-se de alegria, ao receber a notícia da morte dos companheiros. Três dias depois recebeu também a palma do martírio. Estes fatos aconteceram no ano de 304.
REFLEXÕES
Como se explica o entusiasmo dos mártires pelo sacrifício que se lhes exige? Pelo amor que têm a Cristo, que morreu mártir por amor dos homens. Amor pede amor. Benefícios reclamam gratidão. Se Jesus nos amou a ponto de dar a vida para nos salvar, não o devemos também amar? Se temos amor a parentes e amigos, se gratos nos mostramos aos nossos benfeitores, por que com Jesus fazemos exceção? Há um parente ou amigo que mereça o nosso amor como Jesus o merece? Há um benfeitor a quem tanto devemos, como a Jesus? Por que lhe negamos o nosso amor, por que lhe somos ingratos e por que lhe mostramos tanta indiferença? Que figuras mesquinhas e tristes representamos nós, ao lado dos mártires, comparando-nos a eles!
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Em Portugal, o martírio de Santa Iria em defesa de sua virgindade. 653.
Em Antioquia, no tempo de Juliano Apóstata, o martírio de Santo Artêmio, oficial do exército. Causadora da sua morte foi a franqueza com que se externara contra a perseguição dos cristãos. 363.
Em Colônia, o martírio das santas virgens Marta e Saula, com um grande número de companheiras.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩