20 de março — Santo Abraão, Eremita
20 de março — Santo Abraão, EremitaExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Embora dos tempos antigos, é a vida de Santo Abraão uma das mais edificantes e comoventes da Igreja. Mesopotâmia é a terra onde nasceu Abraão. Pais nobres e religiosos deram ao menino uma educação ótima. Tendo ele chegado à idade própria, o pai lhe fez a proposta de um casamento com uma donzela distintíssima por ele mesmo escolhida. Apesar de ter tomado a resolução de permanecer celibatário, os pais se opuseram a este seu voto, e assim, para não os contrariar, Abraão contraiu matrimônio, abraçando um estado que não correspondia com a sua índole.
No dia do casamento, declarou à jovem esposa ser sua vontade permanecer no estado de perfeita castidade. Levado por este desejo, abandonou a mulher e retirou-se da sociedade. Este seu passo causou grande dor e indignação no seio de sua família, que tudo fez para descobrir o paradeiro do Santo. Depois de uma busca de dezessete dias, foi encontrado numa cela de eremita perto de Edessa. Em vão, tentaram persuadi-lo de que deveria ficar com a esposa; Abraão permaneceu inacessível a todas as argumentações, pois era sua vontade não ter comunicação nenhuma com o mundo. Doze anos viveu na sua cela, dedicando-se unicamente a obras de piedade e penitência, quando recebeu notícias da morte de seus pais. Grande era a herança que lhe cabia. Para fugir do menor apego às coisas do mundo, pediu a um fiel amigo que fizesse a distribuição de todos os seus bens entre os pobres e necessitados.
Entretanto, sua santidade começava a tornar-se conhecida. Perto de Edessa havia uma vila, cujos habitantes estavam entregues a mais grossa idolatria. Todos os esforços do Bispo de Edessa para converter aquela gente eram baldados. Dirigindo-se ele, afinal, a Abraão, o santo eremita, com suas orações, prédicas e penitências de três anos, conseguiu que os idólatras largassem seu culto e se convertessem ao cristianismo.
Abraão tinha um irmão no século, que, morrendo, deixou uma filha muito jovem, de nome Maria. Abraão no intuito de dar-lhe uma ótima educação, chamou-a ao lugar onde ele morava e instruiu-a nas ciências que lhe eram úteis e principalmente na ciência de Deus. Rápidos eram os progressos que a donzela fazia e, em pouco tempo, tornou-se modelo perfeito de virtude e penitência. Satanás, porém, espreitando ocasião propícia para preparar a queda da jovem, achou meio de a perder. Para este fim, serviu-se de um eremita perverso e ímpio, que costumava visitar Abraão com o pretexto de o consultar. Este infeliz, tomado de paixão pela jovem, armou laços contra a virtude da mesma e fê-la cair. Maria, refletindo no que fizera, encheu-se de horror, mas em vez de, confiadamente, se dirigir a Deus e implorar seu perdão, entregou-se a demasiada tristeza, que a levou ao desespero. Saiu da companhia do tio para a cidade próxima, onde se desmandou completamente. Abraão ignorando o que havia acontecido a sua sobrinha, chorava amargamente a desaparição da mesma, pediu a Deus que se compadecesse dela.
Quando dois anos depois chegou a saber que vida Maria levava, dirigiu-se à casa da mesma e pediu-lhe hospedagem. Como se disfarçara em viajante, Maria não o reconheceu. Quando, porém, estavam à mesa, Abraão deu-se a conhecer e, com a voz entrecortada de soluços, disse a sobrinha: “Maria, minha filha, ainda me conheces? Onde está o vestido angélico de tua virtude? Onde estão as lágrimas que derramaste na presença de Deus? Onde estão as penitências que eram tuas delícias? Como, filhinha minha, chegaste a cair no abismo? Por que motivo ocultaste-me a tua queda? Se soubesse o que te acontecera, ter-te-ia reconduzido ao caminho de Deus”.
As palavras, as lágrimas de Abraão impressionaram vivamente a Maria. Coberta de vergonha, cheia de arrependimento, permaneceu imóvel, tal como uma estátua. Vendo isto, Abraão com as expressões mais ternas, procurou erguer o espírito da moça. “Não te deixes levar pelo desespero, minha querida filha! Todos os teus pecados, eu os tomo sobre mim, tem confiança e volta comigo. Meu fiel amigo Efrém está inconsolável por tua causa e incessantemente reza por ti. Afasta de ti a desconfiança e o desânimo; todos nós somos pecadores, todos nós podemos cair, pois grande é a nossa fraqueza. Pede a Deus perdão, Deus não quer a morte do pecador, mas que se converta”. — Maria, animada por estas palavras, prometeu ao tio obedecer-lhe em tudo e voltou com ele. Quinze anos viveu ainda na solidão, entregue a obras de penitência. Dia e noite chorava sua infidelidade. Deus lhe perdoou e glorificou-a com o dom de milagres. Sua morte foi edificadíssima. Santo Efrém, que a viu morta, afirma que seu rosto tinha esplendores sobrenaturais e que não havia dúvida de que um coro de Anjos levara ao Céu aquela alma bendita.
Cinco anos depois morreu também Abraão. Sabendo da sua doença, de todos os lados confluíam as multidões para receber a bênção do santo servo de Deus. Seu túmulo foi glorioso. Só pelo contato com as roupas de Abraão muitos doentes readquiriram a saúde. Assim escreve Santo Efrém, que foi testemunha ocular de todas essas coisas.
Reflexões
1. Tolo aquele que se mete no ermo, tolo quem foge da sociedade; tolo quem outra coisa não quer fazer senão rezar e penitenciar-se. Assim, o mundo chama aqueles que se separam dele, aqueles que não o acompanham nas suas vaidades, loucuras e empreendimentos. Jesus Cristo, na face, na apreciação do mundo, sempre será um louco; loucos, porém, são os que querem ser seus discípulos, seguindo o mundo. Louco não é Cristo, não são loucos seus amigos e discípulos, pois que, sendo a felicidade a aspiração suprema do homem, são eles que estão no caminho certo de a encontrar. Só quem não conhece, quem ainda não experimentou a doçura que há no convívio com Cristo, longe do mundo, só quem não experimentou ainda o consolo que sente a alma depois de ter-se entregue a obras de penitência e mortificação; se quem não saboreou a delícia que há na meditação da Vida, Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo e nos íntimos colóquios do divino Esposo com a alma que o procura, pode chamar de loucura o serviço de Deus na solidão, no claustro, longe do mundo. Verdadeiros sábios eram os eremitas, porque compreendiam onde se encontrava a felicidade e, emancipando-se do espírito do mundo, disseram-lhe adeus e, como Santo Abraão, armaram sua tenda no deserto. Felicidade maior não pode haver neste mundo do que aquela que sente o pecador, depois de uma confissão bem-feita, depois de ter decidido abandonar as sendas do mundo que são as do pecado, do desassossego, da infelicidade. “Como me senti feliz, quando pude atirar para longe as delícias enganadoras e prazeres vãos do mundo, entretanto, a separação destas coisas me parecia antes impossível” (Santo Agostinho).
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩