20 de julho — Santa Margarida de Antioquia, Virgem e Mártir

20 de julho — Santa Margarida de Antioquia, Virgem e Mártir
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Festejada e venerada na Igreja Oriental, a pérola de Antioquia adorna também os altares da Igreja Ocidental. Filha única dum nobre sacerdote idólatra de Antioquia, na Pisídia, Margarida perdeu bem cedo a mãe, sendo confiada aos cuidados de uma aia, e por esta, longe da casa paterna, foi educada na religião cristã. Dotada das mais belas qualidades de espírito e de coração, sob a influência da piedosa mestra, a menina, qual flor viçosa, era o encanto de todos, pela inocência e pureza angelical. O pai reclamou-lhe a presença em casa e tinha orgulho de possuir uma filha tão prendada e virtuosa. Apesar de pagão, admirava em Margarida o espírito de abnegação altíssima e a propensão para as coisas do céu. Estranhou, porém, que nunca fosse aos templos assistir aos sacrifícios e nunca, por palavra sequer, tocasse no culto dos deuses. Não lhe podia ficar oculto, por muito tempo, que Margarida frequentava reuniões noturnas dos cristãos.

Com voz alterada de dor e ira, perguntou-lhe um dia: "É verdade que aderes à doutrina do Crucificado?" Sem constrangimento algum, e com incomparável mansidão, Margarida confessou: "Sim, conheço Jesus Cristo e amo-o de todo o coração". O pai pediu-lhe pelo amor aos deuses, pela honra do seu sacerdócio, que abandonasse essa abjeta religião. Margarida, porém, com grande afabilidade, lhe respondeu: "Meu querido pai, oxalá tenhais também a felicidade de conhecer e adorar o Deus verdadeiro". Vendo que com boas palavras e promessas nada conseguiria, o sacerdote mandou a filha para o campo, condenando-a a trabalhos rudes, ao lado das escravas. Margarida, longe de por isto se entristecer, louvou a Deus, que a julgava digna de sofrer pelo nome de Cristo.

Passado algum tempo, o pai chamou-a de novo, na esperança de, desta vez, conseguir ser obedecido. Aos rogos, às promessas e às imprecações, a donzela só uma resposta teve: "Jamais renunciarei à minha fé, e pronta estou para derramar o meu sangue por Jesus Cristo, que derramou o seu por meu amor".

Fora de si, obcecado pela paixão e pelo ódio, o pai denunciou então a filha ao Prefeito Olíbrio, para que, por ser cristã, fosse julgada pelas leis em vigor. Olíbrio, encantado pela formosura de Margarida, empregou todos os meios de amabilidade, blandícia e promessa, para conseguir que abandonasse a religião cristã. "Lastimo assaz teu erro, — disse ele — e uma vez que os deuses te deram beleza tão singular, fazes mal em ser-lhes ingrata. Reflete bem! Estão em tuas mãos: alta distinção ou morte ignominiosa". Margarida respondeu: "Desposada que estou com Jesus, nunca renunciarei ao céu, para receber o pó da terra".

Enfurecido com essa resposta, reputada insolência, Olíbrio deu ordem para que Margarida fosse açoitada com varas, estendida sobre o cavalete e o corpo rasgado com ganchos de ferro. Tão cruel foi esse processo, que o povo e os próprios carrascos reprovaram uma sentença tão desumana.

Margarida de novo foi levada ao cárcere e aí, do fundo da alma, agradeceu a Deus a honra do martírio, com que a distinguira, e a graça que lhe concedera, da perseverança.

No dia seguinte, Margarida foi intimada a comparecer novamente diante do Prefeito. Este não pôde disfarçar a admiração, quando a viu completamente restabelecida, trazendo no semblante a expressão de grande alegria. "Não há como negar, disse Olíbrio, és a privilegiada dos deuses. Foram eles que te curaram e não querem que morra a filha do seu sacerdote. Rende-lhes graças e não lhes negues culto, a que têm direito!" Margarida corrigiu-o, dizendo: — "Assim não é. Teus ídolos inânimes não têm o poder que lhes atribuis. Só Jesus Cristo dá a saúde ao corpo e à alma, só Ele é que consola e conforta. A Ele seja dada glória eternamente".

O efeito destas palavras foram novos tormentos. Olíbrio ordenou que Margarida fosse assada viva, sobre chapas de ferro em brasa e, dirigindo-se à donzela, com escárnio, lhe disse: "Bendize agora a teu Jesus Cristo, de quem te dizes esposa; dize-lhe que te ajude, que te livre do fogo, se estiver em seu poder. Quem sabe se ainda preferes receber de mim este favor". — Margarida respondeu-lhe, com admirável calma: "Tens razão, mas farias muito bem, se não te quisesses esquecer do fogo eterno. Este fogo aqui não chega até a minha alma, queima apenas o meu corpo; o fogo do inferno, porém, queimará não só teu corpo, mas também tua alma e queimá-los-á eternamente". Olíbrio deu então ordem de metê-la em água fria, para assim aumentar-lhe ainda mais o martírio. No mesmo momento se sentiu um forte tremor de terra, as cadeias caíram das mãos e dos pés da mártir, e esta saiu da água mais bela ainda, não lhe apresentando o corpo nem o mais leve sinal de queimadura. Ouviu-se uma voz, como que vinda do céu: "Vinde, esposa de Cristo, e recebei a coroa que o Senhor vos preparou para sempre". Muitos daqueles que presenciaram aquela cena, profundamente comovidos, se converteram ao Cristianismo e declararam-se prontos a morrer com Margarida.

O Prefeito, completamente desorientado pelo que sucedera, recorreu à força bruta e ordenou a decapitação de Margarida. Ouvindo esta sentença, Margarida prostrou-se de joelhos, agradeceu a Deus a graça do martírio, rezou pela Santa Igreja, pela sua terra, pelo juiz e curvou a cabeça para receber o golpe da morte. Morreu em 275, sendo-lhe os restos mortais sepultados pelos cristãos, que sobre a sepultura erigiram uma Igreja belíssima.

Reflexões

Santa Margarida deveu a fé à educação que recebera da piedosa aia. Que teria sido dela, se Deus não lhe tivesse dado esta benfeitora? Este pensamento deve incitar-vos, pais cristãos, a dar uma boa e sólida educação a vossos filhos. "Os filhos são um dom de Deus e o fruto das entranhas é sua dádiva" (Salmos 126: 3). Deus vos responsabilizará pela educação que destes a vossos filhos, e ai de vós, se estes se perderem por vossa culpa! É tarefa dificílima educar cristãmente os filhos, mas convém lembrar-vos da grande recompensa, que vos espera na outra vida, se tiverdes cumprido rigorosamente o vosso dever. "Maior alegria não conheço — diz o Apóstolo São João, — senão quando ouço, que meus filhos andam na verdade" (II João 1, 4). Que maior consolo pode haver para pais e educadores do que saber que os filhos, os alunos, progridem em idade e desenvolvimento físico, como também em virtude e santidade! Filhos bem educados são a alegria, a esperança, o consolo dos pais. Na eternidade ser-lhes-ão a coroa, a glória. Com a maior satisfação, estes poderão apresentá-los ao divino Juiz e dizer-lhe: "Eis-me aqui, com os filhos que me deste" (Isaías 8, 18). "Conservei os que me confiastes" (João 17, 12). — Que infelicidade, porém, para filhos e pais, se estes, não cumprindo o dever, pela palavra e pelo exemplo, lhes prepararem a eterna perdição! Que maldição pesara sobre eles, a maldição dos próprios filhos, a maldição da Igreja de Cristo, a maldição do próprio Deus e de seu divino Filho, que tudo sacrificou, até a vida, para a salvação de todos!

Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:

Em Antioquia, a virgem e mártir Santa Margarida, que é do número dos Catorze Santos Auxiliadores; na Igreja Oriental, é conhecida com o nome de Marina. Segundo a lenda, é ela a princesa libertada e defendida por São Jorge. Com São Jorge partilha a honra de na Igreja Oriental ter o título de Megalomártir, isto é, a grande mártir. 304. Na Arte Cristã, é representada tendo aos pés um dragão vencido pela cruz. Devido a sua vida um tanto lendária, as suas apresentações são variadíssimas. Parece que a Igreja Oriental reconhece em Santa Margarida o símbolo da vitória do cristianismo sobre o paganismo. É padroeira das parteiras, dos camponeses e das virgens consagradas a Deus.

No monte Carmelo, o profeta Elias, no tempo dos reis Acabe e Ocozias. Durante o tempo da sua fuga, do rei Acabe e de sua mulher Jezabel, um corvo trazia-lhe sua ra­ção diária de carne e pão. Sua indumentária eram peles de camelo e um cinto de couro. Quando houve grande seca no país, foi a Sarepta, multiplicou milagrosamente a farinha e o azeite na casa de uma viúva, cujo filho morto ressuscitou. No monte Carmelo confundiu os sacerdotes de Baal, chamando fogo do céu sobre o altar do Altíssimo… Perseguido pelas iras de Jezabel, se retirou para o monte Horeb e ungiu seu sucessor Eliseu. Conseguiu a conversão de Acabe e predisse a Ocozias a próxima morte… Eliseu viu-o subir ao céu num carro de fogo, daí a tradição, confirmada por Nosso Senhor (Mateus 17, 11), que, como Henoc, não morreu, e que há de voltar para a terra. Na transfiguração de Nosso Senhor no monte Tabor, apareceu junto com Moisés, como conta o Evangelista. É igualmente venerado pelos judeus e maometanos. O ano do seu nascimento foi em 912 a.C. e é o Padroeiro da Ordem Carmelitana (Vide a festa de Nossa Senhora do Carmo, 16 de julho). 

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii