20 de agosto — São Bernardo, Abade e Doutor da Igreja
20 de agosto — São Bernardo, Abade e Doutor da IgrejaExtraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
São Bernardo, tão célebre na Igreja pela santidade e ciência, como pelas obras grandiosas por ele efetuadas, nasceu em Fontaine-lès-Dijon, na Borgonha. Filho de pais excelentes, tinha Bernardo seis irmãos e uma irmã. A mãe empenhou o maior cuidado na educação deste filho. Bem cedo teve a satisfação de descobrir em Bernardo um grande amor a Deus e à Santíssima Virgem, horror ao pecado, veneração pela pureza e inocência, desprezo ao mundo e zelo por tudo que se referia a Deus e sua santa causa. Certa vez, sofrendo dores de cabeça atrocíssimas, foi Bernardo procurado por uma mulher, que com benzeduras pretendia livrá-lo daquele mal. Bernardo, que era menino ainda, ouvindo as propostas da feiticeira, pulou da cama, enxotou-a do quarto, e disse que preferia morrer de dor, a ser socorrido por praxes supersticiosas. Deus recompensou imediatamente este ato de fé viva, livrando o santo menino das dores, que o cruciavam. Bernardo teve a graça extraordinária de uma visão de Jesus Cristo, que lhe apareceu em forma de menino, como os pastores o encontraram em Bethlehem. Esta grande distinção extraordinariamente contribuiu para solidificar-lhe cada vez mais o amor a Nosso Senhor.
Bernardo perdeu bem cedo a mãe. A bela estatura e formosura extraordinária fizeram com que, da parte de pessoas frívolas, lhe surgissem grandes lutas e perseguições, as quais, porém, resolutamente rebateu. Certa vez, estando Bernardo em viagem, recebeu agasalho na casa de uma mulher, cuja vida lhe era desconhecida. Alta noite a hospedeira entrou no quarto, onde o jovem peregrino dormia e solicitou-o a cometer um pecado vergonhoso. Bernardo, vendo o perigo, pôs-se a gritar altamente: “Socorro, ladrões, ladrões! Foi bastante para a tentadora se retirar imediatamente. Teve a mesma a ousadia de repetir três vezes a mesma tentação e todas as vezes encontrou a mesma resistência. Bernardo foi bastante delicado para não denunciar a filha de Satanás, embora o censurassem e o chamasse de maluco que, estando em casa alheia, desnecessariamente alarmava a todos. No dia da partida, outra vez interpelado pelo que acontecera, disse Bernardo: “De fato houve assalto, porque a própria dona da casa quis roubar-me o que tenho de mais precioso: — a minha inocência”. Para guardar este tesouro, o casto jovem empregava os meios mais eficazes, que são: a oração, a mortificação dos sentidos, principalmente dos olhos e uma devoção terníssima à Santíssima Virgem. Para penitenciar uma falta, aliás pequena, que involuntariamente cometera, meteu-se em tempo de inverno num tanque, e ficou aturando a água gelada, até quase desfalecer. Esta penitência cruel teve por resultado ficar Bernardo, desde aquela hora, livre de qualquer sensibilidade quanto a tentações impuras. Tendo feito estas experiências, Bernardo outro desejo não mais nutria, senão retrair-se do mundo, no que encontrou forte resistência e contradição da família. Não só conseguiu desarmar-lhe as argumentações, mas seu exemplo foi imitado por um tio paterno e quatro irmãos, que, como ele, entraram, para a Ordem dos Cistercienses, fundação de São Norberto. A caminho do convento, encontraram o irmão mais moço, Nivaldo, criança ainda, brincando na rua. Guido, o mais velho, disse ao menino: “Nivaldo, nós vamos para o convento e te deixamos toda a herança, sendo tu doravante senhor de todos os nossos bens”. Nivaldo, iluminado por Deus, respondeu: “Então, escolhendo para vós o céu, quereis que eu me satisfaça com a terra? Não! É uma divisão muito desigual e injusta que fizestes!”
Sem hesitar um momento, associou-se aos irmãos, e com eles tomou o hábito de São Norberto. Em pouco tempo Bernardo se tornou modelo na prática das virtudes monásticas, tanto que o abade Estêvão lhe confiou a direção do mosteiro, em Clairvaux. Embora Bernardo fizesse ver sua mocidade e inexperiência e além disto, o estado precário de saúde, a obediência exigiu-lhe o sacrifício de aceitar a cruz. Bernardo encontrou em Clairvaux um mosteiro, cuja riqueza era a extrema pobreza. Deus, porém, em muitas ocasiões, deu a prova cabal de que não abandona àqueles que põem toda confiança em sua bondade infinita. Fatos maravilhosos, que se deram sob o governo de Bernardo, não deixavam a menor dúvida sobre a alta cotação, de que gozava o superior junto de Deus. Muitas pessoas, atraídas pela santidade de Bernardo, e, convencidas pela sua palavra ardente, abandonaram o mundo e procuraram, como ele, a solidão do mosteiro; assim Henrique, irmão do monarca reinante na França e a própria irmã.
O regime do novo Abade era rigorosíssimo; elucidado, porém, por uma luz superior, abandonou em seguida esse rigor, substituindo-o pela brandura. Contra si próprio usava de máxima severidade, enquanto que sua caridade e amabilidade para com o próximo eram irresistíveis. A vida particular de Bernardo era uma prática constante das mais ásperas e inclementes penitências. Surpreendendo-se uma ou outra vez em concessões à comodidade, aliás natural, dizia de si para si: “Bernarde, ad quid venisti?” (“Bernardo, qual foi o fim para que vieste ao mundo?”)
A fama de sua virtude e grande sabedoria passou além dos estreitos limites do mosteiro. Mais de uma vez recebeu convites honrosos para aceitar a mitra, que lhe era oferecida. Bernardo, achando-se indigno de tão alta patente, recusou-se constantemente a aceitar a dignidade episcopal. Na grande dissenção que houve, na eleição de dois Papas, a palavra de Bernardo foi decisiva. Havendo dois candidatos, Bernardo, depois de muito rezar, se pronunciou a favor de Inocêncio II, contra Pedro Leonis, que tinha adotado o nome de Anacleto II. Muitos outros negócios importantíssimos no regimento da Igreja foram apresentados ao alto critério de Bernardo, e por ele resolvidos.
A incumbência mais onerosa que lhe veio da suprema autoridade, foi de convidar os Príncipes cristãos para uma cruzada contra os turcos, que se tinham apoderado dos Santos Lugares. Bernardo, obedecendo à ordem recebida, pôs mãos à obra. Milagres extraordinários que lhe acompanhavam a espinhosa missão, pareciam não deixar dúvida alguma de que se tratasse de um empreendimento sumamente agradável a Deus.
O resultado, porém, foi terminar a cruzada por uma grande derrota dos cristãos. Longe de atribuir o fiasco à inépcia e a pecados cometidos pelos combatentes e chefes, a opinião pública acusou a Bernardo como o único responsável do desastre e foram as críticas, censuras, chalaças e insultos, que por este motivo sofreu, o maior martírio para o Santo. Bernardo, em vez de se defender e retribuir o mal com o mal, dizia: “Antes murmurem e se levantem contra mim, do que contra Deus. Pouco se me dá, que minha reputação seja passada pela lama, contanto que a honra de Deus nada sofra”.
Não havendo quem o defendesse, Deus a si tomou este encargo, e tão numerosos e extraordinários foram os milagres que se dignou de operar por seu servo, que fizeram emudecer as calúnias e maledicências, contra ele levantadas.
O fim da vida de São Bernardo foi a época, para a qual Deus lhe reservou outros padecimentos. Enfraquecido como estava seu organismo, foram quase insuportáveis os sofrimentos, que lhe causavam as constantes dores de estômago, sem haver uma possibilidade de mitigá-las. Bernardo, na doença, deu a todos o exemplo da mais perfeita paciência e de completa conformidade com a vontade de Deus. Bem a tempo recebeu os santos Sacramentos dos moribundos. Muitas e distintíssimas eram as visitas que recebia. Aos visitantes dizia: “Sou um servo inútil. É hora que uma árvore tão ruim, velha e imprestável seja cortada e inutilizada. Os elogios que me tecem, não passam de louvaminhas; não sou vaidoso assim, de tomá-las por dinheiro à vista. Sou uma criatura inútil, cuja vida não tem a dignidade nem do sacerdócio, nem do eremita”.
Com o olhar elevado ao céu, na presença dos confrades, que lhe lastimavam a morte, e entre lágrimas e soluços, davam demonstração de dor profunda, Bernardo entregou a alma ao Criador, em 1153, contando 64 anos de idade. Dezesseis mosteiros foram por ele fundados. Inestimáveis foram os serviços que o santo religioso prestou à causa de Deus, em prol da Igreja e pela salvação das almas.
Passaram-se apenas 12 anos depois de sua morte, e o Papa Alexandre III proclamou-lhe a canonização. Pio VIII, em 1830, lhe concedeu o título de Doutor da Igreja.
Reflexões
Muitas coisas da vida de São Bernardo se nos apresentam como imitáveis e úteis.
1. Bernardo prefere sofrer e até morrer, a recorrer a remédios de feiticeiros e benzedores. Que é o espiritismo? Não é uma superstição das mais grosseiras que existem? Pode ser lícito ao católico recorrer às praxes de uma seita diabólica, como é o espiritismo, para achar alívio nos sofrimentos? Não deve ser nosso lema: “antes sofrer e até morrer”, do que aceitar as drogas de bruxaria, que é o espiritismo?
2. Bernardo chama de ladrões àqueles que lhe querem roubar a inocência e afugenta-os com seus gritos. Quem te tentar para um pecado, é ladrão de tua alma, é assassino de tua inocência. Com o ladrão, com o assassino não se brinca; conhecendo-os como tais, em vez de se entreter com eles, é preciso gritar por socorro e defender-se até o sangue.
3. Bernardo condena-se a penitências crudelíssimas e implacáveis, por causa de uma pequena falta que cometera, por fixar o olhar em um objeto indecente. A medida por ele tomada, não nos deixa em dúvida sobre o perigo, que via, na liberdade que se dá à vista. Que diremos de tantos olhares frívolos, levianos, que pessoas de ambos os sexos se permitem, sem o menor escrúpulo, sem medir as consequências funestas, que geralmente tais liberdades trazem?
4. Bernardo procura vocações religiosas e sacerdotais. Um fervoroso servidor de Deus não se contenta com sua vocação; tudo faz para ganhar novos candidatos ao sacerdócio e à vida religiosa.
5. Ad quid venisti, Bernarde? Para que vieste, Bernardo — era a pergunta que o nosso Santo muitas vezes a si dirigia. Igual pergunta, se a fizéssemos a nós, muito contribuiria para nos animar e afervorar no serviço de Deus, na resistência às tentações e na prática das virtudes.
6. Como São Bernardo, não nos devemos deixar desencorajar nas adversidades e nos sofrimentos. Deixemos os outros falar e divertir-se à nossa custa e soframos resignados, lembrando-nos dos nossos pecados.
7. A exemplo de São Bernardo, devemos formar a nosso respeito uma opinião bem modesta e não permitir ao nosso orgulho, à nossa vaidade, que formemos de nós um conceito que esteja em contradição com a verdade.
8. Ilimitada era a confiança de São Bernardo na intercessão de Nossa Senhora. O “Memorare” (Lembrai-vos) é a expressão exata desta devoção, desta confiança. À Maria Santíssima recorramos sempre, em todas as necessidades de corpo e alma, certos de que a Mãe de Jesus será também a nossa.
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Na Judeia o profeta Samuel, o ultimo dos Juízes. Por ordem de Deus ungiu a Saul, o primeiro rei dos judeus. Como profeta, porém, ficou sempre ao lado de seu povo como medianeiro entre Deus e sua nação. Depois da unção de David, e do sucessor deste, Saul, se limitou à direção da escola dos profetas em Ramá. Sua morte foi profundamente lamentada pelo povo.
Em Córdova, os monges e mártires Leovigildo e Cristóvão. Os mouros decapitaram-nos e queimaram seus corpos.
Na ilha de Noirmoutier, o abade São Filiberto.
Em Roma, no sec. 3, São Porfírio.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩