19 de janeiro — São Canuto IV da Dinamarca, Rei e Mártir
19 de janeiro — São Canuto IV da Dinamarca, Rei e MártirExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
São Canuto, o quarto deste nome entre os Reis da Dinamarca, nasceu em meados do século XI. Menino ainda, revelou uma índole bem diferente da dos seus companheiros; tudo que era trivial e baixo lhe era contrário. Tanto mais era amigo da oração e em tudo deixava-se guiar pelo temor de Deus. Quando a Divina Providência depositou em suas mãos os destinos da nação, seu primeiro cuidado foi trabalhar pela cristianização do seu povo, como daqueles outros povos, que em guerras justas foram sujeitos ao seu cetro.
Casado com Elta, nobre princesa de Flandres, teve um filho, Carlos, que mereceu da Igreja a honra dos altares. Aos seus súditos, foi Canuto um verdadeiro pai, cujo regime era é a caridade e a justiça. As suas leis eram severas, mas obedeciam aos ditames da justiça; era necessário um certo rigor, para exterminar rudes vícios e implantar sentimentos cristãos nos corações dos semibárbaros. Caridoso em extremo para com os órfãos, viúvas e necessitados, era inquebrantável quando malvados provocavam sua sentença de juiz. Sabendo que o melhor educador de uma nação é o bom exemplo que vem de cima, considerou como seu primeiro dever, servir de modelo aos seus súditos. Em sua casa reinava o Espírito de Deus, e lá nada se percebia que não se coadunasse com os bons costumes e as regras da vida cristã. Para consigo era de grande rigor. Por baixo das vestes régias trazia sempre o cilício. Horas inteiras eram dedicadas à oração. Em compensação, não ia atrás dos divertimentos, como a caça, o jogo e outros. Terníssima foi sua devoção à Mãe de Nosso Senhor. Em toda a parte do reino ergueram-se igrejas, conventos, escolas e hospitais, todos subvencionados pelo santo Rei. “A Deus o melhor”, costumava ele dizer. “O mais precioso convém ser aplicado ao adorno dos templos, e não deve servir à vaidade ou à ambição dos poderosos do mundo”.
Infeliz nos seus empreendimentos bélicos contra a Inglaterra, Canuto introduziu o dízimo eclesiástico, medida que não teve o apoio da nação. O rigor com que foi extorquido o imposto, causou grande descontentamento, e em muitos lugares, franca oposição. Houve casos em que o povo, exasperado, linchou os fiscais. O descontentamento degenerou em rebelião, que obrigou ao rei, a procurar abrigo em Odense. Os inimigos, porém, perseguiram-no até à igreja, onde o assassinaram ao pé do altar. Canuto IV foi canonizado por Pascoal I.
Reflexões
1. A vida deste santo Soberano acusa um profundo respeito dele aos sacerdotes e, o empenho de incutir o mesmo respeito aos seus súditos. Os sacerdotes não são Anjos. Como os demais, são homens fracos. Cristo entregou o governo da Igreja não a Anjos, mas a sacerdotes — a homens. Nada mais natural, coisa que não pode surpreender, que sacerdotes erram e pecam. A história da Igreja de todos os países tem exemplos de grandes faltas e escândalos de sacerdotes, que na sua queda arrastaram muitos outros à perdição.
Entre os próprios Apóstolos, havia um infiel e ladrão. Ario, Nestório, Pelágio, Lutero, Calvino, eram sacerdotes. É fato que se observa: um sacerdote, que declina do caminho do dever e da virtude, costuma ser pior que outros pecadores que ofendem gravemente a Deus. Se um dia teus olhos ficarem ofendidos pela falta cometida que um sacerdote cometeu; se acontecer que o mau procedimento de um levita do Senhor te causar grave escândalo, não te deixes perturbar em tua fé e nas tuas convicções religiosas. O pecado individual de um sacerdote não afeta o estado sacerdotal, e não degrada a dignidade do mesmo. O caráter sacerdotal não pode ser a causa do pecado; a queda é sempre devida à fraqueza ou à corrupção interior. O pecado, portanto, envergonha e desonra o indivíduo, não porém, o estado de que é representante. O Apostolado nada perdeu em sua dignidade e grandeza pela traição de Judas. O próprio Salvador disse: “É preciso que haja escândalos; ai do homem, porém, que der escândalo”. Longe, portanto, de vacilar na tua fé, quando souberes de semelhantes coisas, pede a Deus, para que dê à Igreja dignos e santos sacerdotes, e conserve na sua graça os bons. Bons sacerdotes são a bênção do povo; maus sacerdotes são sua desgraça. Não há dúvida alguma que Deus atende as orações feitas no intuito de obter bons sacerdotes.
Estado nenhum há tão odiado e desprezado como o sacerdotal. Há pessoas, se bem que católicas, que não perdem uma ocasião de dar demonstração de sua antipatia, do seu desprezo que votam ao sacerdotal e a seus representantes. Em muitos é um profundo preconceito que os fez proceder desta maneira. A falta que observam em um ou outro sacerdote, eles a generalizam, estendendo-a à classe toda. Não se convencem de uma injustiça que cometem e da falta de lógica em que incorrem.
Há maus médicos, maus advogados, maus engenheiros; no entanto, ninguém inculpa a coletividade das respectivas classes por causa de faltas de indivíduos indignos. Seria uma injustiça.
Não se deve aplicar a mesma medida ao estado mais venerável? — Outros há, que odeiam o sacerdote por causa do seu caráter sagrado. O seu ódio não se dirige contra a pessoa do sacerdote, mas contra o estado que representa. É um ódio satânico, de que Nosso Senhor falou: “Se me odiaram a mim, que sou vosso Mestre, a vós odiarão”. É o ódio a Cristo, à Igreja.
O bom católico respeita os sacerdotes, reconhecendo neles os ministros de Jesus Cristo. Santo Antônio pedia a bênção dos sacerdotes ajoelhando-se diante deles. Santa Catarina de Sena não beijava a mão do sacerdote, mas o lugar onde pisara o seu pé.
Santa Tereza dizia: “Encontrando-me com um Anjo e um sacerdote, a minha primeira saudação é feita ao sacerdote, a segunda ao Anjo”.
2. São Canuto não consentiu que seus assassinos fossem perseguidos. A prática mais difícil da caridade é perdoar aos inimigos. Perdoar a quem nos ofendeu, é cumprir o mandamento de Cristo, que nos ordena não só amar os amigos, como também rezar pelos que nos perseguem e abençoar aqueles que nos caluniam. Jesus Cristo deu o exemplo mais belo de amor aos inimigos quando ao subir no altar da Cruz, dirigiu a seu Pai esta súplica comovedora: “Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem”.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩