19 de fevereiro — São Martiniano, Confessor
19 de fevereiro — São Martiniano, ConfessorExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Como bem poucas, a vida de São Martiniano é um exemplo da fraqueza humana, bem como de sincera penitência. Martiniano, natural de Cesareia, na Palestina, nasceu no tempo do imperador Constantino. Bem jovem ainda escolheu para si a vida de eremita e retirou-se para uma montanha, nas proximidades de sua cidade natal. Durante vinte e cinco anos viveu em completa separação do mundo, entregue às práticas de uma vida religiosa austera. De todos os pontos da Palestina ia o povo procurar o santo eremita, ou fosse para se recomendar às suas orações, ou para obter a cura de doentes, ou ainda a expulsão de maus espíritos. Sua fama era geral e todos o tinham no conceito de grande Santo. Uma mulher de maus costumes, chamada Zoé, propôs-se a perder o santo homem e combinou com outros indivíduos de sua laia o plano diabólico. Disfarçando-se em pobre abandonada, chegou pela tardinha à casa de Martiniano e pediu agasalho: “Tende compaixão de mim, homem de Deus! Não permitais que eu seja a presa das feras. Perdi-me na floresta e, sem orientação, não sei para onde me dirigir”. O bom eremita levantou suas mãos ao céu, chamou a Deus em auxílio e, só depois de muitos rogos da parte da mulher, consentiu que ela entrasse na sua gruta. Ele mesmo procurou outro abrigo e passou a noite toda em oração.
Zoé, porém, trocou os andrajos enganosos por um vestido sedutor. Quando, na manhã seguinte, Martiniano chegou à gruta, Zoé se apresentou em todo o esplendor e grande foi a surpresa do santo homem, pois não a conhecia. Zoé deu-se a conhecer, manifestou ao eremita sua verdadeira intenção e com maneiras blandiciosas e afáveis, tentou-o ao pecado. “A proposta, disse-lhe, que te faço não te deve ser estranha e é bem compatível com teu modo de vida. Sabes que os Santos do Antigo Testamento eram favorecidos pela fortuna e casados. Eis-me aqui para oferecer-te, junto com minha pessoa, os meus grandes bens”.
Martiniano, em vez de enxotar a sedutora, mostrou-lhe simpatia e fraqueou. Deus permitiu esta fraqueza, talvez para castigar seu orgulho, que não o deixou enxergar o perigo e fê-lo confiar em si. À hora em que, por costume, pessoas vinham para ouvir seus conselhos e receber sua bênção, Martiniano saiu da gruta. Mal ficou sozinho, caiu em si e a consciência começou a atormentá-lo com suas acusações. O arrependimento que experimentou, foi tão grande, que mal podia suster-se. Depois juntou alguma lenha, acendeu-a e, quando tinha boa brasa, meteu os pés dentro e disse: “Martiniano, se aguentares este fogo, continua a pecar. Do contrário, como poderás sofrer o fogo eterno, que mereceste pelo pecado?”
Chamando a mulher, disse-lhe: “Vem, põe aqui teus pés, se queres pecar”. Zoé, vendo o espetáculo que se desenrolava diante dos seus olhos, impressionou-se grandemente e seu coração foi tomado de profunda contrição. Imediatamente tirou sua roupa escandalosa, meteu-a no fogo, pediu perdão ao eremita e conselho sobre o que havia de fazer, para obter remissão dos seus pecados. Martiniano ordenou-lhe que fosse para o convento de Santa Paula, em Belém, e lá passasse o resto de sua vida em penitência. Zoé obedeceu, pediu e obteve a admissão no convento indicado, e tão radical foi sua conversão que de pecadora tornou-se grande penitente e Santa.
Martiniano julgou ser vontade de Deus abandonar o lugar de sua infelicidade e procurou uma ermida, situada numa ilha. Lá ficou durante seis anos, constando sua alimentação de pão, água e palmitos, que pescadores de vez em quando lhe traziam. Pelo fim do sexto ano do seu desterro, naufragou naquela ilha um navio. Dos náufragos só sobreviveu uma jovem de 25 anos, que pediu auxílio a Martiniano; este fez-lhe a caridade, que as circunstâncias exigiam. Para não se expor novamente ao perigo, resolveu fugir. Confiado no auxílio divino, atirou-se na água para, a nado, ganhar o continente. Deus o protegeu visivelmente, mandando dois delfins que o levaram à terra. A donzela ficou na ilha, levando vida santa. Martiniano, porém, tomou a resolução de não ter mais domicílio fixo. Fiel a este seu propósito, andava de um lugar a outro, implorando a caridade dos cristãos. Nas suas viagens chegou a Atenas, onde entrou numa Igreja, quando sentiu suas forças o abandonarem. Com muita devoção recebeu os Santos Sacramentos. Poucos dias depois, entregou sua alma ao Criador. As suas últimas palavras foram: “Senhor, em vossas mãos recomendo o meu espírito”. Martiniano morreu no ano de 400. A Igreja Oriental presta-lhe grandes homenagens. Seus restos mortais acham-se depositados numa Igreja de Constantinopla, situada perto da mesquita de Santa Sofia.
Reflexões
1. A triste queda de Martiniano ensina-te quanto cuidado é preciso no tratamento com pessoas de outro sexo. Conversas a sós, se não são de necessidade, o namoro e o flerte, passeios sem a companhia de terceira pessoa, implicam sempre algum perigo. Podem ser ocasião de muitos pecados e para muita gente foram o começo da perdição. Nas tentações contra o sexto mandamento só há salvação na fuga e na firme resistência. Se Martiniano tivesse fugido da companhia da tentadora, ou se lhe tivesse vedado entrar em sua casa, não teria caído em pecado. Remédio salutar contra tentações impuras, é a lembrança do fogo do inferno.
2. Martiniano e Zoé deram admirável exemplo de penitência de um pecado que só em pensamentos cometeram. Se cometeste pecados graves, onde está a tua penitência? Em vez de castigar teu corpo, que te arrastou ao mal, ainda o cumulas de atenções e carinhos e nada lhe sabes negar, quando ele, estimulado pela perversa inclinação, pede novas concessões. Para o pecador não há outra salvação, senão a penitência. “Irmãos — diz São Tomás de Vilanova — se pecamos, ou fazemos penitência, ou a nossa sorte é o inferno. Mais fácil é penitenciar-se por algum tempo, do que arder no inferno eternamente”.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩