19 de abril — São Leão IX, Papa
19 de abril — São Leão IX, PapaExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Descendente da nobre família dos Dagsburgo, ou Asburgo, era Leão parente do duque Adalrico da Alsácia. Sua santa Mãe, Heilwiges, era devotíssima à Sagrada Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo, sobre cujo mistério meditava quotidianamente. A este fato atribuiu-se o fenômeno, observado na criança recém-nascida, cujo corpo estava coberto de manchas vermelhas, apresentando cada uma delas uma cruz. Bruno — foi este nome que o menino recebeu no Santo Batismo —, ficou na casa paterna até a idade de cinco anos, quando sua mãe o confiou aos cuidados do célebre Bispo de Toul, Bertoldo. Dotado de belo talento, Bruno fez rápidos progressos nos estudos e se distinguiu com grande vantagem entre seus condiscípulos. Era principalmente o Direito canônico, cujo estudo mais o ocupou. Destinado ao estado sacerdotal, recebeu a ordem do diaconato, e nesta qualidade de ministro do altar, entrou a serviço do seu primo imperial Conrado, distinguindo-se sempre pela sua habilidade em negócios de administração, como na piedade.
Em 1026 foi eleito Bispo de Treves. Nesta posição, desenvolveu um zelo extraordinário na reforma dos conventos e na obra da salvação das almas. Profundo conhecedor da arte musical, compôs grande número de cânticos religiosos e envidou todos os seus esforços pela digna celebração do culto divino. Compenetrado de que humildade é verdade, lavava diariamente os pés de alguns pobres e servia-lhes na mesa. Vivia em contínuos exercícios de penitência exterior e interior. Não se alterou, quando soube, que vis caluniadores tinham procurado denegrir sua reputação junto ao Imperador. Anualmente visitava os túmulos de São Pedro e São Paulo em Roma.
A morte do Papa Dâmaso II (1048) causou sérios embaraços no governo da Igreja. Havendo três pretendentes à tiara, o Imperador da Alemanha, Henrique III, convocou um congresso em Worms, ao qual compareceram grande número de Bispos, Prelados, Príncipes e embaixadores, com o fim de dar um novo Papa à Cristandade, afastando assim o perigo de um cisma.
Os votos dos congressistas se uniram, sobre o nome de Bruno, o qual, vendo-se elevado à dignidade de Sumo Pontífice, fez uma acusação dos seus pecados, para assim convencer os eleitores de sua indignidade e incompetência de exercer tão elevado cargo. O efeito deste ato de humildade foi: A assembleia confirmou a eleição, declarando que mais digno à dignidade pontifícia não era possível achar. Ainda assim, Bruno pediu um prazo de três dias, decorridos os quais, deu seu consentimento e adotou o nome de Leão IX. Descalço e vestido de peregrino, fez sua entrada na cidade eterna.
Seu primeiro cuidado como Papa foi reprimir e combater os abusos da simonia e dos casamentos incestuosos na alta sociedade. À sua intervenção, o rei André da Hungria fez as pazes com o imperador Henrique III.
Em 1050 condenou os erros de Berengário. O ano de 1053 trouxe a separação da Igreja Grega da Latina, devido às maquinações do Patriarca de Constantinopla, Miguel Cerulário, o qual impugnava o uso de pães ázimos na celebração da Santa Missa, a omissão do canto de Aleluia durante a quaresma e outros usos de menor importância da Igreja latina. Leão defendeu as tradições latinas num memorando que chegou às mãos do Patriarca por intermédio do cardeal Umberto. Miguel Cerulário, mostrando-se inacessível às argumentações do Papa, separou-se da Igreja latina e seu exemplo foi seguido pela maior parte da Igreja Oriental. Os Normandos, sequiosos de conquistas, e no afã de estender o poderio sobre a Europa toda, invadiram também a Itália. As províncias da Apulia e Calábria tinham já caído em seu poder e seus acampamentos se estendiam até às portas de Benevento, cujos habitantes invocaram o auxílio do Papa. Leão, tendo recebido valiosos reforços do imperador, pegou em armas contra os Normandos. Estes venceram, e se apoderaram da pessoa do Papa. Embora vencedores, trataram o ilustre prisioneiro com todo o respeito, dispensando-lhe todas as honras, a que sua alta posição lhe dava jus.
Leão adoeceu gravemente e voltou para Roma, onde morreu santamente em 19 de abril de 1054. Seu túmulo foi glorioso e muitos milagres testemunharam seu grande poder junto ao trono de Deus.
Reflexões
Berengário foi o primeiro que ousou negar a real presença de Cristo no Santíssimo Sacramento. Contra ele e sua doutrina levantou-se a Igreja num protesto vibrante, defendendo o dogma da Santíssima Eucaristia. O Santíssimo Sacramento é o mistério da fé, que a débil razão humana nunca poderá compreender. Nós o acreditamos, porque a Igreja o ensina. Jesus Cristo não fundou sua Igreja sobre areia, mas sobre rocha firme, contra a qual as portas do inferno em vão lançarão seus furores. A Igreja é a coluna da verdade e sua doutrina é verdadeira. Se ela é de Deus, se sua doutrina é divina, não pode ela nunca ensinar inverdade, nunca poderá ser a escola do erro. Sejamos, portanto, humildes, e aceitemos a doutrina da Igreja, que é a doutrina de Cristo, dos Apóstolos e dos homens mais santos e sábios, durante 20 séculos. Não é possível que todos eles tenham errado.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩