18 de setembro — São Tomás de Vilanova, Bispo e Confessor
18 de setembro — São Tomás de Vilanova, Bispo e ConfessorExtraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Um dos maiores Santos que Deus deu à Igreja, numa época em que as heresias mais temíveis levantaram a cabeça, foi, sem dúvida, São Tomás de Vilanova. Castilha é sua terra, onde nasceu em 1488. O sangue nobre dos virtuosos pais não foi desmentido pelo filho. Modelos das virtudes cristãs, bem cedo implantaram no coração de Tomás o amor de Deus e do próximo, e com grande satisfação puderam constatar o desenvolvimento da boa índole do filho, no qual viam desabrochar as mais belas esperanças.
Muito criança ainda, tinha o maior prazer em repartir o pão com os pobres, que vinham pedir esmolas. Certa vez, tirou o paletó para dá-lo a um menino pobre. À repreensão que lhe foi dada, respondeu: “Coitado, ele precisa do paletó mais que eu!” O amor aos pobres era a nota que mais caracterizava o jovem Tomás.
Terníssima devoção dedicava à Santa Mãe de Deus. “Nada vale o saber, se não se lhe une a retidão de caráter, a religião e a justiça”. Esta máxima já a conheciam os pais de Tomás e, cristãos convictos que eram, com empenho traçaram os planos de bem lhe formar o coração, na educação religiosa.
Os raros talentos de Tomás facultaram-lhe fazer progressos admiráveis nos estudos. A passos de gigante, palmilhou as luminosas sendas do saber e, contando apenas vinte e seis anos, foi-lhe conferido o grau de doutor em filosofia e teologia. Em todo este tempo de estudante, rodeado de perigos iminentes, conservou intacta a pureza do coração, não desprezando, para alcançar tão augusto fim, os meios que a religião e o exemplo dos Santos lhe indicavam. Pela morte do pai tornou-se proprietário de uma grande casa, que recebeu destino de hospital, dotado de rico patrimônio.
Corria o ano de 1516 e, abandonando tudo que possuía, Tomás afilhou-se à Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho, a mesma à qual pertencia Martinho Lutero, o infeliz apóstata e heresiarca. Quis a Divina Providência que a entrada do santo homem coincidisse com a época da saída de Lutero. Acostumado, havia mais tempo, às asperezas de uma vida de penitência, facilmente se conformou com as práticas da vida monástica, tanto que os companheiros de Ordem nele viam o modelo mais perfeito dum religioso. Com grande proveito para a Ordem ocupou diversos lugares elevados na administração da mesma.
Orador de facúndia e de unção, de verbo fácil e fluente, era Tomás muito festejado. O Imperador Carlos V foi um dos seus admiradores e nomeou-o pregador da corte real. Perguntando-se-lhe um dia qual a fonte de onde tirava tão sublimes conceitos, e quem lhe dava tanta força à palavra, Tomás apontou para o crucifixo, afirmando que a escola do pregador era a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Vagou a sede arquiepiscopal de Valência. Mais que clara se manifestou a vontade de Deus na vocação de Tomás: Superiores, Imperador, clero e povo, todos foram unânimes em indicar o nome do humilde frade para sucessor do Pastor falecido. Se bem que com muita relutância, Tomás aceitou o espinhoso cargo, reconhecendo na decisão dos Superiores a vontade de Deus. Seria querer encher livros, se se tencionasse relatar o que Tomás fez em prol da diocese e dos súditos. Todas as virtudes de que com razão se supõe possuidor um Bispo da Igreja, Tomás as possuía. Com toda a regularidade visitava o arcebispado, tendo assim ocasião de conhecer bem o rebanho. Destas visitas canônicas resultou um bem enorme para os fiéis e o clero. Por toda parte onde viesse o santo arcebispo, pelo exemplo e palavra animava os súditos ao fiel cumprimento das obrigações. Inúmeras foram as conversões que se registraram e povoações inteiras abençoaram a memória do santo Pastor, por tê-las conduzido de novo ao caminho da virtude e santidade. A vida particular de São Tomás, ainda depois da elevação à dignidade episcopal, foi a de um simples frade. Tinha por lema: “O que deve distinguir um Bispo são as virtudes e boas obras, e não, porém, rico mobiliário, roupas finas, sumptuosos edifícios, numerosa criadagem, mesa opípara etc.” Com maior escrúpulo observava as leis de jejum, não só da Igreja como da Ordem. Além disso, castigava o corpo com diuturnas e implacáveis penitências.
A esta inclemência contra o corpo correspondia um grande amor aos pobres e necessitados. Foi a caridade a virtude que mais caracterizou a figura deste santo Bispo. Quando, na tomada de posse, o cabido lhe fez a oferta de 4.000 ducados, Tomás, grato, aceitou a dádiva para imediatamente a distribuir entre os pobres.
Durante toda a administração, ficou fiel a esta prática. Dois terços dos seus rendimentos pertenciam já de antemão aos hospitais e asilos. Poucos eram os dias em que não se lhe viam reunidos na porta centenas de pobres, a pedir pão, sopa ou dinheiro. E quantos outros pobres envergonhados, viúvas e órfãos não se contavam entre os protegidos do Arcebispo! Ainda mais: indagava com diligência para descobrir os pobres verdadeiros e, sem que estes o pedissem, mandava-lhes o que necessitavam. Igualmente eram objeto de sua caridade circunspecta e prudente os pobres operários, jornaleiros e donzelas pobres. A estas últimas facultava os meios para tomarem estado ou consagrarem-se a Deus no convento.
Apesar desta atividade no serviço da caridade, apesar da prática constante de outras virtudes, tinha constante receio de não merecer o agrado de Deus e de não poder subsistir no dia do grande julgamento. Diariamente orava, pedindo a Deus que livrasse a Igreja de um ministro tão indigno, como se julgava.
Por uma graça especial, que Deus lhe concedera, teve Tomás conhecimento prévio da morte. Acometido em 29 de agosto de grave doença, tratou logo de se preparar para a grande viagem. Fez confissão geral e recebeu os santos Sacramentos.
Três dias antes de se despedir deste mundo, mandou que lhe trouxessem os bens que ainda possuía e ordenou que tudo fosse dado aos pobres. Na véspera da morte, sabendo que havia ainda um resto de dinheiro, disse às pessoas que se achavam perto: “Conjuro-vos em nome de Jesus Cristo, que ainda hoje o distribuais entre os pobres. Fazei-me este grande favor”.
Sabendo depois que tudo — dinheiro e outros bens — tinha sido distribuído, dirigiu o olhar ao Crucifixo e disse: “Graças vos dou, meu Senhor Jesus Cristo, pela graça que me destes, de morrer pobre. Os bens cuja administração me confiastes, dei-os todos aos pobres”.
Dos circunstantes, não havia quem, ouvindo estas palavras, não ficasse profundamente comovido.
Desejava que fosse celebrada em sua presença o santo sacrifício da Missa. É fácil imaginar-se com que devoção e recolhimento o assistiu. Durante a elevação da santa Hóstia, lhe corriam as lágrimas dos olhos. A meia voz e pausadamente começou a recitar o salmo: “In te, Domine, speravi,” — “em vós, ó meu Deus, pus a minha esperança”. Foram suas últimas palavras. Logo após a Comunhão exalava o espírito, terminando a vida abençoada na idade de 68 anos.
Tomás de Vilanova morreu na festa da Natividade de Nossa Senhora, no ano de 1555, e o seu túmulo tem sido glorioso. Foi canonizado em 1658.
Reflexões
Os Santos tiveram compreensão nítida do dever de fazer caridade. São Tomás repartia com os pobres tudo que possuía, para poder morrer tranquilamente. Quão diferente é o modo de pensar de muitos cristãos! Tempo e dinheiro têm para as vaidades, as comodidades e os divertimentos, sem se lembrarem, entretanto, dos pobres e doentes, a quem tanto bem podiam fazer, querendo. “Que responderás ao teu juiz?” — pergunta São Basílio — “se enfeitares as paredes de tua casa e não atenderes à nudez de teu irmão? Se montares em soberbos ginetes, quando teu irmão anda andrajoso; se deixares apodrecer os cereais no campo, quando teu irmão não tem com que matar a fome? Aos pobres não abriste tua casa, por isso conservar-se-á fechada para ti a porta do céu”. — Pergunta à tua consciência o que podes e deves fazer pelos pobres e observa o sábio conselho que o velho Tobias deu ao filho: “Sê caritativo na medida das tuas forças. Se tiveres muito, dá muito. Se tens pouco, do pouco que é teu, dá de boa vontade”.
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Em Ósimo, a memória de São José de Cupertino. Com grande dificuldade obteve a admissão numa Ordem franciscana e conseguiu a ordenação sacerdotal. Os milagres, êxtases e profecias do humilde frade por diversas vezes puseram-no em contato com o tribunal da Inquisição de Nápoles e Roma. O Papa Clemente XIII registrou-o no catálogo dos Santos da Igreja. São José de Cupertino é padroeiro dos examinandos, por causa das dificuldades, que encontrava nos estudos. 1663.
Em Milão, a memória de Santo Eustórgio, primeiro bispo daquela cidade. 331.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩