18 de março — São Cirilo de Jerusalém, Bispo, Confessor e Doutor da Igreja

18 de março — São Cirilo de Jerusalém, Bispo, Confessor e Doutor da Igreja
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Cirilo, o grande Arcebispo de Jerusalém, nasceu em 315 em Jerusalém ou num lugar vizinho. Sua mocidade passou-a santamente em trabalho e oração. Prova da sua aplicação são as célebres Cateque­ses, nas quais Cirilo revela um co­nhecimento admirável da Sagrada Escritura, dos Santos Padres e das opiniões dos hereges, principalmen­te dos maniqueus. Tudo indica que Cirilo tenha vivido numa comuni­dade religiosa, e que seu preparo e santidade tenha chamado a aten­ção do Bispo Macário de Jerusalém. Tendo apenas 19 ou 20 anos, Cirilo foi ordenado diácono, e nesta quali­dade, dirigiu em Jerusalém as clas­ses dos catecúmenos, preparando-os à recepção do Sacramento do Batismo. Em 350 foi eleito Bispo de Jerusalém. Célebre na história fi­cou um acontecimento, que se deu por ocasião da tomada da posse de São Cirilo, onde ele mesmo o relata numa carta ao imperador Constâncio, do seguinte modo: “Aos sete de maio, pela hora terceira do dia (às 9 ho­ras da manhã), apareceu no céu uma grande luz, em forma de uma cruz, que se estendia do Monte Cal­vário até o Monte Oliveto. Este fenômeno foi observado não por uma ou outra pessoa, senão pela popula­ção inteira da cidade. Também não se tratou de uma aparição rá­pida, pelo contrário, a luz brilhou diante de nossa vista durante algu­mas horas, e com esplendor tal que o próprio sol não a ofuscou. Os es­pectadores, tomados de medo e ale­gria ao mesmo tempo, corriam em chusma para a Igreja. Velhos e mo­ços, fiéis e infiéis, nacionais e estrangeiros, uniram as suas vozes em lou­vor a Nosso Senhor Jesus Cristo, Filho Unigênito de Deus, que, com seu poder, fez este milagre. Todos eles reconheceram a divindade da reli­gião, testemunhada pelo próprio céu”. Este milagre é confirmado por diversos escritores contempo­râneos e como tal reconhecido por muitos representantes da ciência. Na Igreja grega é festejada a come­moração desta aparição no dia sete de maio.

Cirilo, compenetrado da grande responsabilidade de Bispo, opôs-se com toda a energia à heresia aria­na, embora esta atitude sua lhe impor­tasse o desagrado do imperador Constantino e o ódio e a persegui­ção dos bispos arianos. Um deles, Acácio, bispo de Cesareia, contra o qual Cirilo se viu envolvido num processo em questão de jurisdição, envidou todos os esforços para per­dê-lo. Para este fim apelou para um concílio, composto exclusivamente de bispos arianos, o qual decretou contra Cirilo a deposição. Entre ou­tras acusações, levantaram tam­bém esta de ele ter esbanjado os bens da Igreja e profanado os santos vasos litúrgicos, dando-lhes um destino pro­fano. Esta acusação tinha um fun­do de verdade. No tempo de uma grande carestia e fome, Cirilo, vendo a miséria do povo e não tendo mais recursos para aliviá-la, lan­çou mão de alguns vasos litúrgi­cos e de algumas preciosidades da propriedade eclesiástica e vendeu-as, para salvar os pobres da morte. Em vista da guerra que lhe faziam, Cirilo saiu de Jerusalém. Exilado da sua diocese, achou agasalho em Tarso, onde o Bispo Silvano o recebeu com todas as honras e onde ficou até o ano de 359. Naquele ano o Concílio de Selêucia restabeleceu-o em sua dignidade. Os arianos, porém, con­seguiram, que um outro concílio, celebrado em Constantinopla, o depusesse outra vez.

Quando o novo imperador, Juliano, reintegrou todos os Bispos ex­pulsos, Cirilo voltou em triunfo pa­ra sua diocese. Pouco tempo depois deu-se em Jerusalém um fato extraordinário, ligado à apostasia rancoro­sa de Juliano. Tendo ele jurado o ex­termínio da religião cristã, um dos seus empenhos foi, desacreditar seu autor e provar ao mundo que Je­sus Cristo não é Deus. Concebeu o plano de reedificar o templo de Jerusalém, cujas ruínas datavam da destruição por Tito, em 70. As obras começaram com muito entusiasmo, também da parte dos judeus. Deus, porém, confundiu o plano. Ammiano Marcelino, historiador pagão e ami­go de Juliano, e, portanto, testemu­nha insuspeita, escreveu sobre aque­le movimento: “Entretanto Alípio, auxiliado pelo governador, come­çou as obras com muita energia. Quando, porém, os operários se pu­seram a trabalhar, saíram dos fun­damentos labaredas de fogo que não deixaram ninguém se aproxi­mar. Como o elemento (isto é, o fo­go) todos os dias repelisse os pedrei­ros, foi resolvido abandonar a obra”.

O que Ammiano Marcelino conta, afirmam-no outros escritores como São Gregório Nazianzo e Teodoreto, Rufino, Sócrates e Sozomeno. Juliano, em consequência deste fra­casso, parecia ter concentrado seu ódio no Santo Bispo de Jerusa­lém, mas Deus não permitiu que o imperador executasse o que projetava, pois numa expedição contra os persas, Juliano perdeu a vida. Em 367 São Cirilo foi obrigado, mais uma vez, a comer o pão do exílio, por de­terminação do imperador Valente; morrendo este, em 368, Cirilo vol­tou outra vez para Jerusalém. Cuidava o Bis­po, de modo especial, da conserva­ção da fé no meio dos perigos que a ameaçavam da heresia ariana, tão poderosamente apoiada por alguns imperadores. Em 381 Cirilo tomou parte no Concílio Ecumênico de Constantinopla. Em 386 foi descan­sar das lutas e receber a recompen­sa eterna.

As obras de São Cirilo são de gran­de valor. Nelas vemos estampada a Religião Católica, como nós a co­nhecemos. Cirilo fala da Santa Mis­sa, chamando-a “o Sacrifício in­cruento, o Sacrifício propiciatório, o culto de Deus mais sublime”. Muito claras e positivas são suas expressões sobre o mistério da real presença de Jesus Cristo no Santíssimo Sa­cramento.
 
Reflexões

1. O estigma da heresia foi sempre e é o orgulho. A humildade foi sempre e é o baluarte, a defesa mais segura da fé. Diz Santo Agostinho: “Há diversos caminhos que conduzem ao conheci­mento da verdade, o primeiro é o da hu­mildade, humildade é o segundo e o terceiro é ainda a humildade. “Eu fiquei crente, porque me pus a crer o que não compreendia”. Santo Agostinho foi uma das inteligências mais esclarecidas que o mundo jamais possuiu. O orgulho gerou as heresias antigas e novas. O arianismo, o nestorianismo, o luteranismo, o calvinismo, o metodismo, o espiri­tismo são suas legítimas filhas. Todas elas invocam em seu favor a Bíblia, deven­do esta servir, o que é grande absurdo, de documentação para todos os erros. A Bíblia pode ser e é interpretada de mui­tos modos, daí se segue a dificuldade de sua explicação. Se ela fosse fácil, por­ que os discípulos de Emaús pedi­ram a Nosso Senhor que lhes explicasse a Escritura? Porque o eunuco da rai­nha dos Etíopes respondeu ao Apóstolo Felipe, que o perguntava se tinha compreendido o que lera na Bíblia: “Co­mo poderia compreendê-lo, não tendo quem explicasse?” Muitas coisas da Bíblia os próprios Apóstolos não com­preenderam, apesar das repetidas expli­cações que delas tiveram de Nosso Senhor. Como se justifica a grande divergência que há na explicação da Bíblia, entre os hereges? A Bíblia deve ser considerada como um código de verdades, havendo uma só autoridade competente que a interprete autenticamente. À explica­ção desta autoridade todos devem su­jeitar-se e reconhecê-la como a única verdadeira. O orgulho não se conforma com isto, alegando nada mais ser pre­ciso para a explicação da Bíblia, que a razão humana. A regra da fé deve ser simples, clara, uma, constante e univer­sal, por isso não pode depender da ra­zão humana. Todos os homens normal­mente desenvolvidos têm inteligência, o que não impediu que até hoje hou­vesse reinado entre eles a maior diver­gência de ideias, em matéria de fé. A inspiração do Espírito Santo por ne­nhum sinal sensível se manifesta e qual­quer um pode reivindicá-la para si, sem que outros l'ha possam disputar. Assim procedem os luteranos, os calvinistas, os metodistas, que ensinam doutrinas con­traditórias. Não, a razão humana não pode ser o critério da verdade, na inter­pretação da Bíblia. Dos hereges diz São Paulo muito bem: “Aprendendo sempre, nunca chegam ao conhecimento da ver­dade” (II Timóteo 3, 7). A doutrina por eles apregoada hoje, amanhã é rejeitada; os hereges, com a Bíblia na mão, con­testaram já a divindade de Cristo, a eternidade do inferno, a existência e di­vindade do Espírito Santo, o pecado ori­ginal, a autenticidade da Bíblia e muitos outros pontos do dogma; é onde se chega, quando se afasta da Igreja Católica. Só a ela foi dito: “Convosco estou todo o tempo, até a consumação dos séculos” (Mateus 28, 20). Quem ouve a Igreja, ouve a Cristo, e Cristo é a verdade, o cami­nho e a vida.
 

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312