18 de junho — São Landelino, Abade
18 de junho — São Landelino, AbadeExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Se pode ser grande a penitência e a fé dum pobre pecador, maior é a misericórdia divina, que é infinita, como prova a vida de São Landelino.
Landelino, natural de Vaulx-Vraucourt (França), filho de pais nobres e ricos, recebeu uma educação esplêndida do santo bispo Alberto de Cambrai, a cujos cuidados foi confiado. O bispo, observando os belos progressos que seu discípulo fazia na ciência e na virtude, aconselhou-o a que se dedicasse ao estudo da teologia, certo de que no estado sacerdotal grande bem podia fazer pela salvação das almas. Landelino não se mostrou contrário a esta ideia. Seus amigos e companheiros, porém, não concordando com este plano, tudo fizeram para que ele desistisse da sua resolução de ser padre. Pintaram-lhe o futuro com tintas cor de rosa, mostrando-lhe a esplêndida expectativa que se lhe abria diante dos olhos, se quisesse fazer uso da sua grande fortuna. Por ocasião da despedida, organizaram em sua honra um grande banquete, para o qual tinham convidado também mulheres. As horas passaram na mais franca alegria e depois do banquete houve baile. Foi este baile o túmulo da vocação de Landelino. Seu coração emaranhou-se no cipoal inextricável da paixão e com ela veio o enfadamento da oração e do estudo. Afigurando-se-lhe insuportável a vigilância de seu mestre, fugiu e começou uma vida dissoluta, que terminou na miséria e no crime. Em pouco tempo tinha esbanjado o dinheiro que estava em seu poder. Não querendo trabalhar e não tendo coragem de arcar com as privações da miséria, tornou-se ladrão e assassino.
Profunda dor ralou o coração do santo Bispo ao ter notícias tão desoladoras de seu discípulo querido. Mais o preocupava a triste sorte da alma de Landelino e o grande perigo em que ela se achava de perder-se eternamente. Em fervorosas orações e duras penitências, pediu a Deus a conversão do jovem seduzido. Sua oração não foi debalde. Landelino converteu-se, e de modo que não deixa desconhecer a obra da Divina Providência.
Landelino e seus companheiros tinham assentado o plano de assaltar uma casa. Alta noite, à hora combinada, estavam todos reunidos para levar a efeito seu sinistro intento. Um dos salteadores encostou a escada à casa e subiu. Mal tinha chegado em cima, quando foi acometido duma apoplexia e caiu morto por terra. Os outros, impressionados por este fato inesperado, deitaram a fugir. Landelino sentiu-se profundamente abalado com a sorte de seu companheiro. Embrenhando-se na escuridão dum mato, entregou-se aos seus tristes pensamentos. Fatigado, deitou-se e dormiu. No sono, teve a aparição de seu Anjo da Guarda, que lhe dirigiu as seguintes palavras: "Pretendes ficar nessa má companhia? Se não voltares a teu Deus, tua sorte será a de teu companheiro, que morreu tão desastradamente. Se já não estás no fundo do inferno, o deves unicamente às fervorosas orações de teu santo bispo que pediu misericórdia por ti".
Landelino acordou muito impressionado, prometeu a Deus a emenda de sua vida e, no mesmo dia, sem dizer coisa aos companheiros, procurou ao bispo Alberto, lançou-se-lhe aos pés e pediu que o aceitasse de novo em sua companhia. Alberto, vendo seu discípulo Landelino em tão mísero e comovente estado, recebeu-o jubiloso, estreitou-o contra seu peito, animou-o a confessar seus pecados e fazer penitência.
O resto da vida de Landelino foi uma penitência ininterrupta. Jejuns revezavam com mortificações de toda a espécie. Pediu a seu bispo licença de poder fazer uma peregrinação à Roma para alcançar completo perdão dos seus pecados.
A lembrança das penas eternas do inferno fez com que pudesse ficar fiel ao espírito e à prática da penitência até o fim da sua vida.
Vendo tanta sinceridade e constância, o bispo Alberto não mais hesitou em conferir o sacramento da Ordem a seu antigo discípulo e penitente. Landelino correspondeu perfeitamente à confiança de seu prelado amigo, e com palavra e exemplo reconduziu muitos pecadores ao caminho da virtude.
Com permissão de seu bispo, retirou-se para a solidão, onde construiu celas para si e outras pessoas que, como ele e sob sua direção, queriam levar uma vida de penitência. A afluência de noviços foi tão grande, que se impôs a necessidade da construção de quatro conventos, que em Landelino reconheceram como Superior. Landelino morreu em 686 e Deus glorificou o túmulo de seu servo por numerosos milagres.
Reflexões
A meditação sobre o inferno causou em Landelino a conversão. A mesma meditação tem chamado muitos pecadores ao caminho da virtude e da santidade. A lembrança do inferno é de efeito salutar para todos que lutam com dificuldade de conformar sua vida à lei divina. O inferno existe. Sua existência é tão certa e tão necessária como o céu é certo e necessário. A palavra clara de Jesus Cristo não permite a menor dúvida sobre o inferno, sua existência e suas penas. Não nos deixemos enganar pela doutrina de religiões novas e cômodas, que julgam a existência do inferno incompatível com a misericórdia de Deus. Demos crédito Aquele que diz: "Céu e terra passarão, mas as minhas palavras não passarão".
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩