18 de dezembro — Santa Olímpia, Viúva

18 de dezembro — Santa Olímpia, Viúva
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 Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

De família nobre, nasceu Olímpia quando se escrevia o ano da salvação de 368. Bem cedo perdeu os pais. Teodósia, irmã de Santo Anfilóquio, deu-lhe uma educação adequada. Possuindo grande fortuna, não era menos distinta pelo talento e uma formosura excepcional. Jovem ainda, casou-se com Nebrídio, governador de Constantinopla, no tempo do Imperador Teodósio. De pouca duração foi-lhe a convivência com Nebrídio, o qual morreu vinte meses depois do casamento.

Não faltaram pretendentes à mão da jovem e formosa viúva. O próprio Imperador Teodósio favorecia-lhe o casamento com Helpídio, seu primo, de origem espanhola. Olímpia, porém, rejeitou todas as ofertas. Teodósio, por um ato de vingança, mandou confiscar os bens da viúva e administrá-los pelo prefeito da cidade.

Longe de se irritar por causa desta arbitrariedade, Olímpia agradeceu ao Imperador por tê-la livrado de grandes vexames, inseparáveis da administração de muitos bens. O pedido que lhe dirigiu foi de reparti-los entre os pobres e as igrejas, para assim fugir dos movimentos da vaidade, que tão fácil e naturalmente se imiscuem nas obras de caridade.

Quando o Imperador, depois de uma ausência de três anos, voltou para Constantinopla, teve de Olímpia as melhores informações. Todos eram unânimes em elogiar-lhe a caridade, humildade e a santa vida. Teodósio restabeleceu-a no gozo dos seus bens e concedeu-lhe toda a liberdade.

Embora fraca de saúde, Olímpia sujeitou-se a uma vida austera. Fazia jejum constante, vigílias permanentes. A casa da santa viúva tinha o aspecto de grande pobreza, e no vestir fugia de tudo que pudesse parecer vaidade. As orações eram-lhe contínuas e a caridade sem limites. São Jerônimo compara a caridade de Olímpia com um rio, acessível a todos, cujas águas beneficiam a terra e o mar. Os bens pareciam-lhe inesgotáveis; a vida abnegada permitia empregá-los quase todos para a glória de Deus. Houve abusos para com a sua caridade e São Crisóstomo aconselhou-a a que, dando esmolas, não deixasse de sindicar a necessidade do suplicante, conselho que causou ao Santo muitas inimizades. Olímpia, porém, tornou-se mais cautelosa. A esmola material unia a espiritual, exortando os pobres a levar uma vida santa.

Não lhe faltaram grandes provações, que Deus permitiu, para acrisolar-lhe ainda mais as virtudes e aumentar-lhe a glória no céu. Sobrevieram-lhe doenças dolorosas, calúnias gravíssimas e injustas perseguições. Tudo ofereceu a Deus e nunca ninguém lhe ouviu da boca uma palavra contra a caridade para com o próximo. Olímpia tornou-se modelo perfeito de santidade, entre os cristãos do tempo. Em termos elogiosos se lhe referem os bispos mais célebres da época, como Santo Anfilóquio, Santo Epifânio e São Pedro de Sebaste. Nectário, arcebispo de Constantinopla, considerava muito a santa viúva e elevou-a à dignidade de diaconisa. São Crisóstomo, sucessor de Nectário, testemunhava grande respeito a Santa Olímpia. Embora seu diretor espiritual, não quis incumbir-se da distribuição das esmolas, como o antecessor o tinha feito.

O nome de Olímpia ficou envolvido na célebre história da perseguição de São Crisóstomo. Muitos amigos e partidários do Patriarca foram maltratados, metidos no cárcere e privados dos bens. Entre estes Olímpia. Uma das acusações levantadas pelo anti-patriarca Arsácio contra Crisóstomo, foi de ter incendiado a Catedral. Olímpia, interpelada e acusada de cumplicidade neste crime, respondeu ao Prefeito: “Minha conduta até hoje me parece ser a minha melhor defesa. Quem, como eu, deu muito dinheiro para a construção de igrejas, não tem motivos para incendiá-las”.

Além disto, declarou ao Prefeito que nunca reconheceria a autoridade de Arsácio, como Patriarca, sendo este injusto usurpador de um poder, que não lhe competia.

Pouco depois um decreto do Prefeito a condenou a procurar outro domicílio, fora da cidade. Quando mais tarde voltou a Constantinopla, foi vítima da cruel perseguição do Patriarca. Os bens foram-lhe sequestrados, as casas sofreram-lhe a pilhagem do populacho. Os próprios empregados levantaram-se contra a patroa, suscitando-lhe graves calúnias e difamando-a de um modo atroz. Ático, sucessor de Arsácio, dissolveu e exilou a comunidade de donzelas, que existia sob a direção de Olímpia. Embora chorasse amargamente a ausência do diretor e mais ainda a desgraça que o exílio de João Crisóstomo tinha causado em Constantinopla, não se entregou ao desânimo, sujeitando-se em tudo à santa vontade de Deus. Deus chamou sua fiel serva aos eternos tabernáculos no ano de 410.

Os gregos celebram-lhe a festa no dia 25 de julho; o martirológio romano, porém, traz-lhe o nome sob a data de 17 de dezembro.

Reflexões

Admiráveis ensinamentos lemos numa carta que São João Crisóstomo dirigiu a Santa Olímpia. Essas palavras são gotas de bálsamo no coração de quem sofre. Ei-las: “Não desanimes; pois só um mal há, minha filha, só uma tentação que devemos temer, que é o pecado, como muitas vezes já te disse. Tudo o mais, seja o que for: perseguição, inimizade, fraude, calúnia, maledicência, acusação falsa, roubo, perda da fortuna, exílio, perigo de guerra, mares encapelados, fim do mundo: — tudo isto é como que uma fábula. Tudo isto é passageiro, interessa só ao corpo, sem poder prejudicar a alma vigilante. Por isso São Paulo, querendo frisar a nulidade dos prazeres e pesares terrestres, emprega só uma palavra: “O que é visível, é temporal”. (II Coríntios, 4-18) Por que te apavoras de coisas que são transitórias e passam velozes como as águas do rio?

Nada do que te acontece, deve parecer-te estranho ou esquisito. Convém muito que, pelas tentações contínuas, se fortaleçam as forças de teu espírito, que assim cria ânimo para aceitar novos combates, dos quais sairá vitorioso e consolado. São estes os frutos do sofrimento, com que uma alma nobre e valente pode contar… Tudo que sofreste até agora, são teias de aranha, sombras, fumaças e, menos ainda, em comparação com as recompensas, que recebeste; pois o que é ser expulsa da cidade, repelida de todos, proscrita, arrastada aos tribunais, maltratada pelos soldados, sofrer ingratidão de pessoas a quem fizeste benefícios, sofrer injustiças, — se o céu é o prêmio, e com ele, aquela felicidade, que palavra humana não descreve e que não terá fim.

“Três vezes bem-aventurada és, por causa das coisas que ganhaste, ou antes, por causa dos combates. É grande vantagem que estes combates encerram: antes da recompensa pública, já na arena trazem o galardão, que são alegria de espírito, fortaleza e paciência. Recompensa bastante para não se deixar oprimir e, no meio da tempestade, ficar imóvel como um rochedo. É este o prêmio da tribulação, que os pacientes e resignados percebem, ainda antes de entrar na glória eterna”.

Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:

Na Macedônia, os mártires Rufo e Zózimo. São Policarpo os menciona na sua epístola aos filipenses. 107.

Em Mopsuestia, na Ásia Menor, o bispo Santo Auxêncio, ex-oficial do exército de Licinio. Deixou o serviço militar para não prestar homenagens ao deus Baco. Sec. 4.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii