17 de novembro — São Gregório, o Taumaturgo († 270)
17 de novembro — São Gregório, o Taumaturgo († 270)Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
SÃO GREGÓRIO, Bispo de Neocesareia, no Ponto, era filho de pais ricos, mas pagãos. O cognome de "Taumaturgo" veio-lhe do grande número de milagres que em vida operou. Gregório possuía uma natural inclinação à caridade e uma sede insaciável de ciência. Este desejo irreprimível levou-o a Cesareia e Alexandria, onde se dedicou ao estudo das artes liberais. Os livros pagãos, porém, fizeram com que o paganismo, com suas doutrinas arbitrárias, o enfastiasse. Da leitura de livros cristãos ganhou o conhecimento de verdades inconcussas e eternas da nossa santa fé. A vida particular era-lhe pura, e um ódio particular votava Gregório ao vício tão comum entre os pagãos — à impureza. Alguns dos companheiros, que disto se desgostaram, combinaram com uma mulher de vida fácil, que, na presença de muitas pessoas, interpelasse Gregório acerca de um dinheiro que lhe tinha prometido. O fato deu-se numa ocasião em que Gregório se achava em discussão com alguns sábios, rodeado de muita gente. Todos, ao ouvirem a mulher fazer a exigência, sumamente se admiraram, porque de Gregório ninguém supunha que tivesse relações equívocas. Gregório, não menos se admirou, mas, cônscio de sua inocência e não querendo interromper a discussão por amor de uma vil caluniadora, pediu a um dos amigos que, para tapar a boca da infeliz, lhe desse quanto dinheiro exigisse. Mal a mentirosa tinha recebido as moedas, quando ficou possessa do demônio e atormentada de um modo horroroso. Em altos gritos, confessou a maldade e pediu perdão a Gregório. Embora este ainda não tivesse recebido o Batismo, invocou o nome de Deus e livrou a mulher da possessão. Este fato poderosamente influiu para acelerar-lhe a marcha da conversão e fazer-lhe pedir o sacramento do Batismo. Feito cristão, procurou orientar a vida e os princípios pelas regras da religião que abraçara. Alguns anos ainda passou em Alexandria, para completar os estudos e depois voltou para a pátria. Lá dedicou todo o tempo a orações e à meditação, mostrando a todos que o visitavam, a cegueira da superstição, a fealdade dos vícios, a verdade da religião cristã e a beleza das virtudes. Em pouco tempo possuía a estima e confiança de toda a população. Phedimo, bispo de Amaseia, ficou tão agradavelmente impressionado pela pessoa de Gregório, que o ordenou bispo de Neocesareia.
Existiam na cidade não mais que dezessete cristãos; o resto da população era de idólatras. Antes de tomar as rédeas do governo episcopal, Gregório se retirou para a solidão e, em ardentes orações a Deus e à Maria Santíssima, pediu luz para compreender de que modo devia dirigir os fiéis e converter os concidadãos ao cristianismo. Enquanto rezava, teve uma aparição de Nossa Senhora e de São João, o qual, da Mãe de Jesus, recebeu ordem para ensinar a Gregório o que havia de fazer e como doutrinar.
Assim confortado, Gregório pôs mãos à obra e iniciou logo a propaganda da fé entre os pagãos. Milagres estupendos com que Deus o favoreceu grandemente, facilitaram-lhe o empreendimento. Antes de chegar à cidade, viu-se obrigado a pernoitar — com o companheiro — num templo pagão, que havia na beira da estrada. O demônio costumava servir-se dos ídolos lá existentes, para fazer comunicações a quem as pedisse. Gregório passou a noite toda em oração, benzeu o lugar e expulsou o demônio. Quando, no dia seguinte, o primeiro dos sacerdotes pagãos chegou ao templo, para oferecer os sacrifícios, foi na entrada do edifício surpreendido por um alarido infernal. Os demônios contaram-lhe o acontecido, queixando-se do bispo, que os obrigara a sair do templo. O sacerdote dirigiu-se ao bispo e, com ameaças, exigiu a reabilitação dos espíritos na sua propriedade. Gregório aproveitou-se da ocasião para lhe demonstrar a impotência dos deuses e a onipotência de Deus supremo. Para provar-lhe que Cristo tem o poder de chamar e enxotar os demônios, tomou um papel e nele escreveu só uma palavra: "Entrai". Este papel o sacerdote devia pôr no altar do templo e esperar pelo que adviria. O pagão fez o que o bispo lhe ordenou e os demônios tornaram a entrar no templo. Este fato abriu os olhos do sacerdote, o qual, com a família toda, se converteu. Muitos outros lhes seguiram o exemplo.
O número cada vez crescente dos fiéis reclamou a construção de uma igreja. O lugar onde se devia erguer o novo templo, era bastante limitado, devido a uma montanha cujo sopé se estendia consideravelmente. A igreja, diante desta circunstância, não podia ser feita nas dimensões que Gregório desejava. Nesta dificuldade, recorreu à oração. Qual não foi a admiração e o espanto de todos que presenciaram o espetáculo, quando viram a montanha recuar até o ponto desejado, dando assim lugar à construção da nova igreja. Este e outros fatos extraordinários, que na vida de Gregório se reproduziram quase diariamente, impressionaram os pagãos de tal maneira que, em grandes massas, pediram para serem aceitos no seio da Igreja Católica.
Naquela região havia um rio, cujas inundações anuais e quase sempre na estação do inverno, muito prejudicavam casas e campos. O povo, em sua ânsia, recorreu ao Santo Bispo. Este, acompanhado de muita gente, dirigiu-se ao lugar onde as águas do rio costumavam romper o dique. Lá fincou o báculo na terra. O bastão criou raízes, cresceu, transformou-se em grande árvore e, daquela data em diante, as águas nunca mais ultrapassaram o limite, que o Bispo lhes tinha marcado.
Dois irmãos estavam em forte contenda, por causa de um tanque piscoso. Como não houvesse possibilidade de chegar a um acordo sobre a posse do tanque, era para temer um desfecho desastroso da questão. Por uma outra vez, São Gregório conseguira restabelecer a paz entre os dois pretendentes. Vendo, porém, que esta era de pouca duração e os ânimos não se acalmavam, pediu a Deus uma intervenção salutar. Na mesma noite, o tanque secou, e a briga não teve mais razão de ser.
Se bem que tais e outros fatos o fizessem subir muito na estima do povo, Gregório procurou o mais possível declinar de si as honras, que os fiéis lhe rendiam. Constantemente trazia consigo relíquias de Santos e a estas atribuía os milagres, que tão frequentemente se observavam.
Se o Bispo gozava de geral estima, havia alguns que o desprezavam e odiavam, entre estes dois judeus. Estes se dirigiram a um lugar onde o Bispo todos os dias costumava passar e pretenderam divertir-se à sua custa. Quando, de fato, Gregório passou, um dos dois estava no chão, fingindo-se morto, e o outro, com fingidas lágrimas, lhe pediu uma esmola, para poder fazer o enterro do companheiro. Gregório, vendo que não tinha dinheiro consigo, deixou-lhe o manto e foi-se. Satisfeito por ter enganado o Bispo, comunicou a troça ao morto fingido, mas qual não foi o espanto, vendo que este, da vil comédia, tinha passado à morte real e não mais se levantou.
São Gregório, sentindo já os rebates da morte, pela última vez quis visitar toda a diocese. Logo depois adoeceu gravemente e terminou a vida abençoada com uma santa morte. Antes de fechar os olhos para o último sono, perguntou ainda pelo número dos pagãos existentes na cidade. Quando lhe disseram que eram dezessete, respondeu: "Graças a Deus! Quando vim para tomar conta da diocese, havia apenas dezessete cristãos. Deus os conserve na santa fé e conceda a todos os infiéis a luz da verdade." De acordo com o desejo do Santo, achou repouso não numa igreja ou lugar de destaque, mas no cemitério comum. São Gregório morreu em 270, na idade de 70 anos.
REFLEXÕES
O maior cuidado que São Gregório teve na vida, foi cumprir pelas obras o que no Batismo tinha prometido. Quando o homem é batizado, renuncia ao mau espírito, à sua vaidade e às suas obras; faz uma aliança com Deus e promete só a Ele servir e observar-Lhe os santos Mandamentos. Esta aliança o homem dissolve cada vez que comete um pecado grave. Observaste fielmente o que a Deus prometeste no batismo? Pode-se de ti afirmar, em toda a verdade, o que São Bernardo dizia: “Renunciaste ao mau espírito e é a ele que estás servindo?” Prometeste a Deus servir a Ele só e observar-Lhe os mandamentos, e praticas o contrário. Envergonha-te diante de teu Deus e chora tua infidelidade. Renova tuas promessas de Batismo e observa-as melhor, futuramente.
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Na Palestina, os mártires Alfeu e Zaqueu, vítimas da perseguição diocleciana.
Em Córdova, os mártires Acisclo e Vitória, irmãos, mortos na perseguição diocleciana.
Na Inglaterra, a memória do bispo Santo Hugo. 1200.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩