17 de julho — Santa Maria Madalena Postel, Virgem

17 de julho — Santa Maria Madalena Postel, Virgem
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Santa Maria Madalena Postel nasceu em 28 de novembro de 1756 em Barfleur na Normandia. Filha de pais pobres, teve a felicidade de deles receber uma educação sólida e profundamente religiosa. Confiança ilimitada em Deus e conformidade com a sua santa vontade eram as virtudes preciosas que os bons pais souberam implantar no coração de sua filha, que, menina ainda, com preferência dizia esta oração: "Meu Deus, que quereis de mim? Tudo que é meu é vosso, por vosso amor quero sofrer, e tudo sacrificar". Durante uma forte trovoada, disse a pequena Júlia (era este o nome de batismo): "Quando relampeja e troveja, ninguém ousará ofender a Deus; eu queria que trovejasse sempre". O grande amor que tinha às crianças pobres, fazia-a repartir com elas tudo que possuía. Na escola e no catecismo era a mais atenta e aplicada de todas as alunas. Na idade de nove anos, ofereceu a Nosso Senhor seu voto de castidade. A uma senhora a que a piedade de Júlia parecia exagerada, a mãe respondeu: "A menina é de Deus e não da senhora!" Júlia era realmente de Deus. Para aperfeiçoar e completar a educação de sua filha, os pais a confiaram às religiosas beneditinas de Valognes. De volta para casa paterna, abriu uma escola para meninas pobres que, com admirável abnegação e constância, manteve durante o período da Revolução.

Mais do que lhe teria sido possível no mosteiro, sua vida de professora no mundo era de sacrifício e de continuada penitência. Durante sessenta anos ficou fiel ao seu sistema penitenciário, de não se alimentar de outra coisa senão de uma pequena porção diária de sopa e de pão seco.

Seu grande interesse pelas coisas de Deus e sua confiança na Divina Providência tiveram a mais completa comprovação durante os dias da perseguição e do terror da Revolução. Mais de uma vez a jovem professora correu risco de perder a vida. Sua atividade católica e sua piedade eram consideradas crime de lesa-pátria. Às insistências do seu diretor espiritual de tratar da segurança de sua vida, respondia: "Aqui ficarei, e se Deus quer que morra, bem: então morrerei". Só uma coisa parecia-lhe insuportável: não ter perto Jesus Sacramentado. Por isso requereu o privilégio de o poder hospedar em sua casa. Se era pobre a morada de Jesus, o amor de sua serva compensava a pobreza. Dia e noite, fazia ela guarda diante do humilde sacrário, pedindo perdão a Deus pelas blasfêmias, pelos crimes dos homens e pelo sangue inocentemente derramado, que bradava ao céu por vingança. Quando os sicários vinham revistar sua casa, ela os recebia corajosamente, mas como guarda intrépida se punha diante do santo Sacramento, e do seu coração evolava esta súplica: "Meu Deus, guardai e defendei o vosso sacrário e não permitais que o profanem, pelo menos, enquanto não tiver derramado a última gota do meu sangue!" Com uma calma admirável se punha diante dos homens do terror e dizia-lhes: "Podem os senhores revistar à vontade", e assim falava quando o sacerdote, terminada a Missa, ainda se achava em oração diante do altar e os paramentos estavam cobertos apenas por um avental.

Era visível a proteção, que Deus dispensava a esta atividade heroica da "virgem sacerdotal". Nunca um desses indesejáveis farejadores da revolução conseguiu penetrar nos seus aposentos sagrados. Mesmo nos tempos mais agitados e cheios de perigo, soube encontrar padres que celebrassem a santa Missa no silêncio da noite, e assim renovassem as sagradas partículas. Durante anos, deu asilo a sacerdotes perseguidos; ajudava-os na fuga, levava-os à cabeceira de doentes e agonizantes, procurava ela mesma as sagradas espécies, quando, pelo perigo que havia, os ministros de Deus não se podiam aventurar saindo do seu esconderijo.

As crianças preparava-as com cuidado para a primeira comunhão, levando-as depois a uma eira afastada, onde o sacerdote pudesse exercer as suas funções. Durante o tempo todo da Revolução, nem por um dia suspendeu as aulas de sua escola. Intimada de acabar com as instruções religiosas e obedecer à nova Constituição, respondeu: "Eu ensino o que bem entendo". Assim compreendia ela a liberdade com que os homens da revolução pretendiam felicitar a humanidade. Apesar do grande número das suas alunas, não foi violado o seu santo segredo. A comunhão diária foi a doce recompensa. Júlia possuía o privilégio de, em caso de necessidade, dar-se a si própria e a outras pessoas a santa comunhão, servindo-se para isso de uma pinça de prata.

Dez anos durou a tempestade da perseguição, e já era bem sensível a falta de sacerdotes. Foi então que Júlia Postel redobrou a sua atividade, animando os fracos, exortando os fortes e abrindo aulas públicas de catecismo. Como este seu apostolado causasse a admiração de uns, a inveja de outros, resolveu abandonar a sua terra natal e aceitar um convite da municipalidade de Cherbourg. De uma piedosa criança, a quem dispensava seus cuidados nos dias de doença e a quem assistira na hora da morte, teve a predição de ser fundadora de uma numerosa Comunidade religiosa. A voz da criança moribunda foi a voz de Deus.

Em Cherbourg, ao padre Cabart, sacerdote de excelentes virtudes, propôs seu plano de fundar uma Congregação, que teria por fim educar a mocidade no amor à piedade e ao trabalho e assistir aos pobres e doentes. À pergunta do sacerdote, de que meios dispunha para tal empreendimento, respondeu: "Do trabalho das minhas mãos".

Animada pelo bispo de Coutances, em 8 de setembro de 1807, fez votos de religião, adotando o nome Maria Madalena. Os primeiros anos das "Filhas da Misericórdia" foram de provações, sofrimentos e de privações sem conta. Por algum tempo, a fundadora andou de um lugar para o outro sem encontrar um campo de ação para suas Filhas. A pobreza chegou a ser extrema.

Benfeitores e entre eles o próprio diretor espiritual, de muitos anos, alvitraram a dissolução da Comunidade ou sua filiação a uma outra já consolidada. A madre Maria Madalena, a estas sugestões, com toda firmeza se opôs, certíssima de que sua fundação era obra da Divina Providência. "É verdade, dizia ela, que mil vezes esta escondeu a mão até o último momento, mas nunca deixou os seus no abandono".

A municipalidade de Tamerville cedeu à pequena Comunidade um antigo convento. A Madre Maria Madalena pôde então desenvolver a vida religiosa com todo o fervor. Sessenta e dois anos já contava ela, quando, em obediência às leis vigentes, teve de sujeitar-se a um exame para demonstrar sua competência como professora e educadora.

Em 1832, sem dinheiro algum e só confiando na Divina Providência, adquiriu as ruínas da antiga abadia beneditina Saint-Sauveur-le-Vicomte. Em pouco tempo surgiram igreja e convento, e grande era o contentamento das religiosas; quando, por ocasião de uma formidável tempestade, a torre restaurada havia pouco, partiu no meio, e na sua queda destroçou também o edifício adjacente. O desânimo era geral. Parecia claro o protesto de Deus contra os planos altivolantes da fundadora. Esta, porém, conservou sua calma e a confiança em Deus. "Bendito sejais, Deus meu, — assim exclamava — vós nos humilhais para nos exaltar mais tarde". Com espírito profético, disse: "Deus quer a nossa obra, estou certa disto. Para completar as obras da igreja, não nos faltarão os meios. Mas eu só do céu verei sua reconstrução".

Apesar dos seus oitenta e quatro anos, à frente das suas irmãs, removia o entulho, separava e limpava as pedras ainda prestáveis; com seu exemplo e sua palavra animava a todas, em horas tão tristes e aflitivas.

Maior ainda que na confiança em Deus, mostrou-se em sua humildade, na luta contra o amor-próprio. Autora da regra de sua Comunidade, havia mais de trinta anos, ela e suas filhas a observavam com toda a pontualidade. Houve a autoridade diocesana, por bem, de lhe aconselhar a aceitação das constituições pela Santa Sé aprovadas dos Irmãos das escolas cristãs de São João Batista de La Salle. Sem opor a mínima dificuldade a Madre Maria Madalena aceitou a proposta, coisa tanto mais para se admirar, porque a pessoas idosas, já por si mais conservadoras, custa abandonar práticas antigas, para trocá-las com novas, completamente alheias ao seu modo de viver e pensar; no entanto, a superiora, com seus oitenta e dois anos, no dia da profissão sobre as novas constituições disse com toda a satisfação de sua alma: "Era isto que Deus de nós queria".

Assim, segundo a expressão de Pio X, Santa Maria Madalena Postel alcançou o "sumo grau da perfeição". O mesmo Papa compara-a com São João Batista de La Salle, quanto ao Apóstolo do ensino, e com Santa Teresa dʼÁvila pela santidade de sua vida.

Deus recompensou largamente o sacrifício e a virtude de sua fiel Serva. Em frequentes êxtases, comunicou-lhe segredos da luz divina. Grande era seu poder sobre os corações. Deus lhe revelava coisas secretas. Quando afinal se dignou de aceitar da nonagenária o sacrifício da vida, tantas vezes oferecido, esta com o semblante transfigurado de paz e alegria, exclamou por várias vezes: "Como sou feliz!" Assim na paz com Deus, ansiosa por estar a Ele unida, morreu em 16 de julho de 1846.

O Papa Pio XI canonizou-a em 24 de maio de 1925, sendo assinado no Martirológio Romano a sua festa para 17 de julho.

Reflexões

Sentenças de Santa Maria Madalena Postel:

"Façamos o bem na medida do possível, e possivelmente sempre em segredo".

"Foi a Deus que nos consagramos; assim sendo, entreguemo-nos a Ele sem reserva".

"Nosso Senhor é um Deus cioso. Não aceita o coração só pela metade; quer possuí-lo todo e sem restrições. Quer o que lhe pertence: a árvore e o fruto".

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii