17 de fevereiro — São Flaviano, Bispo e Mártir

17 de fevereiro — São Flaviano, Bispo e Mártir
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Flaviano, sucessor de São Proclo, ocupou a sede patriarcal de Constantinopla durante os três anos de 446-449. Seu governo coincidiu com uma época agitadíssima da Igreja Oriental. Heresias, graves dissensões e lutas intestinas perturbavam a paz e tornavam quase insuportável a permanência na capital do Império Grego. Flaviano, envolvido fatalmente nas agitações político-religiosas daquele tempo, com a solidez de suas virtudes, com a firmeza de seu caráter, conservando-se sempre superior e absoluto senhor da situação, apresenta a figura dum grande Patriarca, digno da admiração de todos os tempos. Sua modéstia, unida à firmeza, sua paciência imperturbável nas situações mais críticas, fizeram com que não se esquecesse nunca de sua alta posição e das obrigações a ela ligadas.

Logo após a sua eleição para Patriarca deu-se um fato, presságio de lutas vindouras. Segundo o costume daquele tempo, o Patriarca eleito enviara ao imperador os tais chamados eulógias, isto é, pão bento, símbolo da paz e concórdia. A oferta de Flaviano foi devolvida, com a retificação que só seriam aceitas eulógias de ouro. O Patriarca respondeu: “Ouro e prata não me pertencem”.

Quando a heresia monofisista do arquimandrita Eutiques começou a ganhar terreno em Constantinopla, Flaviano se lhe opôs, com toda a energia e franqueza apostólica. Principiou com esta campanha a subida para o Calvário do intemerato antístite. Eusébio de Dorileia, dera o sinal de alarme, com seu solene protesto contra a nova doutrina. Flaviano convocou um Concílio local em Constantinopla (448); que examinou o eutiquianismo e terminou por condená-la. Contra o autor foi lançada a excomunhão. Tendo na questão o apoio incondicional do grande Papa Leão I, Flaviano não mais hesitou em entrar em luta aberta contra os poderosos amigos de Eutiques. Os que, como tais se revelaram, eram o eunuco Crisáfio, favorito e tesoureiro do imperador Teodósio II e Dióscoro, Bispo de Alexandria; dois formidáveis adversários, cuja política outra mira não visava, a não ser a deposição e expulsão do Patriarca. Para alcançar este fim, todos os meios, por mais indignos que fossem, lhes eram desejáveis. Vendo que o Patriarca não cedia, nem ameaças com o desagrado do imperador faziam modificar sua atitude, trataram de alcançar de Teodósio a autorização para convocar um Concílio, com o intuito de, como eles diziam, restabelecer a paz religiosa. O Concílio se realizou em Éfeso, no ano de 449, sob a presidência de Dióscoro. De um sínodo, onde só inimigos tiveram representação, que justiça Flaviano podia esperar? De fato, o sínodo de Éfeso foi a expressão da paixão, do ódio, do despotismo sem freio contra o Bispo católico.

A primeira humilhação foi a absolvição solene de Eutiques e a reabilitação de sua doutrina condenada. Seguiu-se a vergonha de Bispos subalternos declararem deposto seu superior e pronunciarem contra ele a sentença da excomunhão. De nada valeu a apelação de Flaviano para o Bispo de Roma; nenhuma atenção mereceu a intervenção de alguns Bispos, que de joelhos suplicaram a Dióscoro para que não cometesse tamanha injustiça e retirasse a sentença pronunciada contra Flaviano. A injustiça aí não parou. De chofre apareceu um bando de gente armada, entre outros, monges fanatizados, chefiados pelo afamado Barsumas, que com paus e facas se atiraram aos Bispos católicos, exigindo-lhes, debaixo de terríveis ameaças, a assinatura do documento da deposição e condenação de Flaviano. Sem exemplo, na história eclesiástica, fora o tratamento bárbaro que Flaviano sofreu, no meio dos seus inimigos. O próprio Dióscoro (segundo outros Barsumas) pisou-o com os pés, e as feridas que recebeu dos outros fanáticos foram tão graves, que morreu três dias depois.

O triunfo dos inimigos teve pouca duração. Dois anos depois realizou-se o Concílio Ecumênico de Calcedônia, que restabeleceu a honra do grande Patriarca, dando-lhe o título de Mártir glorioso, que morreu em testemunho da fé verdadeira. O Papa Hilário, que, como comissário apostólico, tinha presenciado as cenas horríveis do sínodo de Éfeso, construiu uma Igreja em honra do Bispo mártir. Nela se vê um quadro artístico que representa o martírio de São Flaviano.

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Reflexões

Admirável foi a resistência que São Flaviano opôs à heresia de Eutiques. Pondo de lado o respeito humano, desprezando a grande influência do terrível heresiarca, Flaviano preferiu morrer a negar sua fé. “Ó Timóteo, guarda o depósito, evitando as profanas novidades de palavras e as contradições duma ciência de falso nome, da qual alguns, fazendo profissão, decaíram da fé”. Estas palavras do grande Apóstolo dos Gentios a seu discípulo Timóteo, Flaviano observou-as escrupulosamente, como a si mesmo dirigidas. Nós devemos fazer o mesmo: guardar a doutrina que nos foi transmitida, não uma que outros depois inventaram. Da doutrina que nos veio, não nos é lícito tirar um jota, nem lhe acrescentar uma vírgula. “Deus — diz São Paulo — tendo falado muitas vezes e de muitos modos, noutro tempo, aos nossos pais pelos profetas: Ultimamente, nos falou por seu Filho” (Hebreus 1, 1-2). A palavra do Filho está documentada e depositada na Igreja, que cuidadosamente a conserva nos livros bíblicos e na tradição. Da Igreja é que todos os fiéis recebem a doutrina pura e imaculada. Para que ninguém possa ter queixa, como se a Igreja lhe quisesse impor causas impossíveis e “reduzir a cativeiro seu entendimento, para que obedeça a Cristo” (II Coríntios 10, 5). Deus prometeu à sua Igreja a assistência do Espírito Santo, para que lhe servisse de luz nas trevas e de orientação nas dúvidas. Cristo não fundou sua Igreja sobre areia, mas deu-lhe sólido fundamento, capaz de opor firme resistência às tempestades. “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16, 18). Pedro é o fundamento. Pedro conserva a fé. Onde está Pedro, está a verdade. Quem se associa a Pedro, está com a verdade. Cristo não podia deixar sua Igreja e sua doutrina ao vaivém das opiniões humanas, que não têm nenhuma fixidade e são como a areia do mar. O futuro da Igreja não podia ser confiado a homens sujeitos a paixões, erros, preconceitos e ignorância. Como poderia o espírito humano estudar e compreender coisas que estão muito além do seu alcance? A fé, a doutrina está garantida em toda a sua integridade pela infalibilidade da Igreja. Conservemos fielmente o sagrado depósito da fé, como a Igreja infalível de São Pedro no-lo apresenta.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312
  2. A Igreja ensina que há em Jesus Cristo duas naturezas, a divina e a humana. A pessoa, porém, é uma só, a de Nosso Senhor Jesus Cristo, Homem-Deus. A heresia de Nestório, condenada pela Igreja, vê em Jesus Cristo duas pessoas, uma divina e uma humana, uma bem diferente da outra. Eutiques ensinou o que é contrário à fé católica, que em Jesus Cristo há uma só natureza e uma só pessoa: a divina. Que estas heresias, todas orientais, pudessem causar tanta desordem e serem defendidas com tanta paixão, tem em parte sua explicação no caráter dos orientais, que pendem mais para a especulação teórica que os ocidentais. Quase sempre havia naquelas questões fortes elementos políticos e pessoais, que faziam com que degenerassem em espetáculos, como os que observamos na vida de São João Crisóstomo e São Flaviano.