17 de dezembro — São Lázaro de Betânia
17 de dezembro — São Lázaro de BetâniaExtraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Conhecidíssimo é o nome deste Santo, de quem os Santos Evangelhos relatam coisas extraordinárias, das quais a mais estupenda é de ter estado morto já quatro dias, e ter sido ressuscitado por Nosso Senhor Jesus Cristo. Lázaro, natural de Betânia, era irmão de Marta e Maria, das quais esta é mais conhecida pelo nome de Madalena, nome que lhe veio do castelo de Magdala, por ela habitada depois da morte dos pais. Lázaro era estimadíssimo na sociedade hebreia, devido à nobre origem e às grandes propriedades que possuía em Betânia. Não se sabe quando Lázaro resolveu a entrar em relações mais íntimas com o Divino Mestre. É provável que tenha sido um dos primeiros discípulos. As expressões de que os Evangelistas se servem, para caracterizar as relações de Lázaro com Jesus Cristo, não deixam dúvida de que eram muito amigos. De outro modo, não se compreendem as palavras de Nosso Senhor: “Lázaro, nosso amigo, dorme” e das irmãs: “Senhor, aquele a quem amas, está doente!” Jesus distinguia esta família com sua amizade, visitava-a frequentes vezes e hospedava-se-lhe em casa. Os Santos Padres descobrem o motivo desta amizade, que não foi outro senão o mesmo que ligava Jesus a São João Evangelista: a vida santa e virginal. Opinam que Lázaro serviu a Deus em perfeita castidade e, que Madalena, cuja vida era bem diferente da dos dois irmãos, tenha obtido a graça da conversão em virtude de orações de Lázaro e Marta.
O mais extraordinário que aconteceu com Lázaro, foi sua morte e ressurreição, em condições tão singulares. São João Evangelista relata este fato, com todos os pormenores, no Cap. 11 do seu Evangelho: “Lázaro, irmão de Maria e Marta, caiu doente em Betânia. As duas irmãs mandaram dizer a Jesus: “Senhor, aquele a quem amas está doente.” Jesus disse: “Esta doença não é de morte, mas para a glória de Deus: pois que o Filho será glorificado por ela.” E ficou ainda dois dias lá, onde estava. Foi só então, que disse aos discípulos: “Lázaro, nosso amigo, dorme, vou despertá-lo.” Os discípulos disseram-lhe: “Senhor, se dorme, está bem.” Jesus, porém, falava da morte e disse-lhes então claramente: “Lázaro morreu e eu me alegro por vossa causa de não estar presente, a fim de que acrediteis. Vamos vê-lo!”
Quando Jesus chegou, Lázaro estava sepultado, havia quatro dias. Logo que Marta soube da vinda de Jesus, foi-lhe ao encontro e disse-lhe: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. No entanto, sei que tudo que quiserdes pedir a Deus, ele vo-lo concederá.” Jesus disse-lhe: “Teu irmão ressuscitará.” Marta respondeu: “Sim, sei que ressuscitará na ressurreição do último dia.” Jesus disse-lhe “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda mesmo morto, viverá: e quem vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isso?” Ela respondeu: “Sim, Senhor, creio que sois o Cristo, o Filho de Deus vivo, que viestes a este mundo.” Dizendo estas palavras, Marta entrou e disse a Maria, sua irmã: “O Mestre está aí e chama-te.” Maria levantou-se e pressurosa foi ao encontro de Jesus. Os Judeus, que com ela estavam em casa, disseram: “Ela vai ao sepulcro para chorar.” Chegado perto de Jesus, prostrou-se-lhe aos pés e disse-lhe: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido.” Quando Jesus lhe viu o pranto e o dos judeus, que a acompanhavam, perguntou: “Onde o sepultastes?” Disseram-lhe: “Vinde e vede.” E Jesus chorou. Então os Judeus disseram: “Vede como o amava!” Jesus chegou em face do túmulo; era uma gruta e uma pedra tampava a abertura. Jesus disse-lhes: “Tirai a pedra.” Marta, a irmã do morto, disse-lhe: “Senhor, já exala mau cheiro; pois já lá se vão quatro dias, que está aí.” Jesus disse-lhe: “Não te disse Eu que, se creres, verás a glória de Deus?” Tiraram a pedra. Jesus levantou os olhos ao céu e disse: “Pai, dou-vos graças por me terdes escutado. Quanto a mim, sabia, que me ouves sempre; mas digo-o por causa da multidão que me cerca, a fim de que creia que sois vós, que me haveis enviado.” Depois de ter assim falado, bradou com voz forte: “Lázaro, sai!” No mesmo instante, o morto saiu; pés e mãos atadas com faixas estreitas, o rosto coberto de um sudário. Jesus disse-lhes: “Desatai-o e deixai-o andar”.
Temor e admiração apoderaram-se dos assistentes e muitos creram em Jesus. A notícia deste milagre estupendo correu de boca em boca e formou duas correntes entre os judeus: de uns, que francamente reconheceram a divindade de Jesus Cristo, e de outros, principalmente dos fariseus e escribas, que ainda mais se encheram de ódio contra aquele, cuja morte já tinham decretado. Ódio igual votaram a Lázaro. Tendo levado a efeito o plano tenebroso contra a vida do grande Mestre, trataram também de livrar-se do amigo do mesmo, cuja presença os incomodava e, por ser uma testemunha irrefutável do poder onipotente de Jesus Cristo. Faltava-lhes a coragem de condená-lo à morte, porque Lázaro era estimadíssimo e de grande influência no meio social de Jerusalém. Ocasião propícia ofereceu-se para afastá-lo da Judéia, quando depois da morte de Santo Estêvão, uma perseguição obrigou os cristãos a saírem da Palestina. Lázaro retirou-se com as irmãs para Joppe; mas a fúria dos inimigos alcançou-os e não lhes deu sossego. Os Judeus os fizeram embarcar num navio destituído de remo, leme e vela, entregando-os ao jogo das ondas. A embarcação, guiada por Deus, aportou em Marseille. Lázaro, tendo achado bom acolhimento da parte da população daquela cidade, lá se estabeleceu e ganhou grande parte dos habitantes para a religião de Cristo.
Reflexões
“Senhor, aquele a quem amas está doente”, diziam as irmãs a Jesus Cristo. Nosso Senhor mesmo chama-o amigo. “Lázaro, nosso amigo, dorme.” Com que e como mereceu Lázaro a amizade de Jesus Cristo? Segundo a opinião de muitos Santos Padres, foi a vida pura a causa do afeto, que lhe tinha Nosso Senhor. “Quem ama a pureza do coração… terá o Rei por amigo”, (Prov. 22. 11), dizia o Espírito Santo, já no Antigo Testamento. — De quem és amigo: de Cristo ou de Lúcifer? A resposta só teu coração dará, conforme for puro ou despreza a pureza. “Não há manjar mais saboroso para o demônio — diz Santo Ambrósio, — que o corpo e a alma do impuro”. Euzebio Emisseno, tratando deste assunto e referindo-se à palavra do filho pródigo, que desejava matar a fome com as bolotas atiradas aos porcos, escreve: “Os porcos são os maus espíritos, que se sentem bem no meio da podridão e na lama dos vícios. Os guardas dos porcos são aqueles que lhes dão tudo que desejam. As impurezas e as obscenidades são as bolotas, com que os espíritos se satisfazem. É com as bolotas que os pecadores querem matar a fome; e quanto mais consomem, mais fome sentem; quanto mais pecam, mais querem pecar. De quem és, pois, amigo: de Cristo ou de Lúcifer?
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Na Palestina, os mártires Floriano, Calanico e mais oitenta companheiros, vítimas da fúria religiosa dos árabes. Sec. 7.
Em Brigard, na Bélgica, Santa Vivina, virgem, de descendência dos Oisy. Durante muitos anos viveu na solidão com sua empregada. Fundou um convento perto de Bruxelas, observando a regra de São Bento. 1179.
Em Andenne, a Santa Begga, viúva, filha de Pepino de Landen, e casada com Ansegisil, filho de Santo Arnolfo. É mãe de Pepino de Heristal. 693.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩