17 de abril — Santo Aniceto, Papa e Mártir
17 de abril — Santo Aniceto, Papa e MártirExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Natural da Síria, era Aniceto o sucessor de São Pio I na cadeira de São Pedro. Seu governo coincide com o tempo do imperador romano Antônio. Não é certo se morreu mártir pela fé; é, porém, fora de dúvida, que tanto foram seus sofrimentos e aflições pela causa de Cristo, que a Igreja lhe conferiu o título honroso de mártir. Além das perseguições oficiais da parte do governo romano, existiam perigosas heresias, que periclitaram a existência da Igreja. Embora fosse ela edificada sobre rochedo, contra o qual o inferno em vão dirige seus ataques, grande número dos fiéis abandonou a fé, correndo atrás do fogo-fátuo das seitas errôneas. Grandes foram os estragos que o herege Valentim causou ao rebanho de Cristo.
À obra perniciosa dele associou-se uma adepta da seita imoralíssima dos Carpocratitas, Marcelina, a qual levou muitas pessoas à apostasia. Ainda um tal Marcião, herege e propagandista temível, propalou o veneno da heresia entre os cristãos.
O Papa Aniceto envidou todos os esforços para impedir o progresso da obra de Satanás e reconduzir ao seio da Igreja os pobres transviados.
Deus lhe enviou um auxiliar de grande valor, na pessoa de São Policarpo.
Este, discípulo de São João Evangelista, veio a Roma, e em demonstrações públicas, provou que a Igreja de Roma, na sua doutrina, era idêntica à de Jerusalém. Esta declaração causou a conversão de muitos hereges.
Num ponto, aliás, de ordem secundária, houve divergência entre Policarpo e Aniceto: no ponto do tempo da celebração da Páscoa. Os cristãos do Oriente comemoravam a Páscoa com os judeus, quando na Igreja Romana não existia este uso. Policarpo, desejoso de ver Roma adotar o uso da Igreja asiática, não conseguiu esta uniformização. Aniceto opinava, e com razão, que não devia abolir um costume introduzido e aprovado pelo príncipe dos Apóstolos. Entretanto, deixou aos cristãos orientais toda a liberdade na celebração da Festa da Páscoa, como eram acostumados desde os dias de São João Evangelista.
Santo Hegesipo era outro auxiliar estimável, que eficazmente dirigiu forte campanha contra as heresias. Num livro que escreveu, sobre a tradição, provou que a doutrina passou pura e inalterada, dos Apóstolos ao Papa Aniceto, e demonstrou que a mesma doutrina era conservada e ensinada sem a mínima alteração.
Aniceto governou a Igreja durante oito anos e nove meses e morreu no ano de 166.
Reflexões
Embora São Policarpo e as Igrejas orientais tivessem opinião diferente da sua, relativamente à época da Páscoa, Aniceto manteve com elas relações amistosas. Com os hereges, porém, isto não acontecia. A divergência que havia entre o Oriente e o Ocidente, afetava apenas a ordem disciplinar eclesiástica, quando os hereges deturpavam dogmas e doutrinas fundamentais da religião. À disciplina eclesiástica pertencem os usos e práticas religiosas que, não fazendo parte do depósito da fé, podem ser modificadas, conforme as circunstâncias locais ou temporais o aconselharem. Os Apóstolos proibiram aos fiéis comer a carne de animais asfixiados. Os primeiros séculos conheciam só o batismo de imersão, quando hoje está em uso o batismo de ablução. Hoje celebramos festas que a Igreja primitiva desconhecia. Penitências públicas que os fiéis dos primeiros séculos eram obrigados a fazer, hoje caíram em desuso. Tudo isto e muitos outros usos e cerimônias da Igreja não são coisas essenciais da religião, e sua prática depende das determinações da autoridade eclesiástica, quer papal, quer diocesana. Ao Papa e aos Bispos foi dado o poder de governar a Igreja. “A vós — diz São Paulo —, o Espírito Santo estatuiu como guardas e intendentes para o governo da Igreja de Deus” (Atos 20, 28). O poder episcopal vem de Deus, e é por este motivo que os fiéis devem respeitar e obedecer às ordens e determinações que os Bispos dão para suas dioceses e o Papa para a Igreja universal. “Quem vos ouve, a mim ouve; quem vos despreza, a mim despreza” (Lucas 10, 16). “Se alguém não ouve a Igreja, seja tido por pagão e publicano” (Mateus 18, 17).
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩