16 de outubro — Santa Edwiges († 1243)
16 de outubro — Santa Edwiges († 1243)Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Um modelo exemplaríssimo de todas as virtudes apresenta-nos hoje a Igreja na pessoa da santa duquesa Edwiges2.
O pai de Edwiges era Bertoldo, duque de Carinthia, Margrave de Meran e conde do Tyrol. A mãe era igualmente de alta linhagem.
Edwiges, ainda menina de tenros anos, dava a conhecer aos pais que era de Deus privilegiada, por uma inteligência não comum naquela idade. Além disso, notava-se na menina uma inclinação bem acentuada para todas as virtudes, coisa raríssimas vezes observada em crianças.
Donzela, nenhum atrativo experimentava para os prazeres e divertimentos mundanos. Ler e rezar era-lhe por assim dizer, a única distração.
Tendo atingido a idade de 12 anos, para obedecer aos pais, contraiu núpcias com Henrique, duque da Polônia e Silésia. Esposa exemplaríssima, não tinha em mira outra coisa senão a glória de Deus, a santificação de sua alma e a felicidade do próximo.
Com permissão do esposo, dedicava os dias de festa, bem como a santa Quaresma, a exercícios de mortificação. Um dos seus lemas era: “Quanto mais ilustre se for pela origem, tanto mais se deve distinguir pela virtude, e quanto mais alta a posição social, tanto mais obrigação se tem de edificar ao próximo pelo bom exemplo”.
Deus abençoou o matrimônio do casal com seis filhos, que foram educados no temor de Deus.
Edwiges contava apenas 20 anos e o esposo 30, quando, impelida pelo desejo de servir a Deus em maior perfeição, de acordo com Henrique, tomou a resolução de viver em completa continência, e ambos fizeram um voto nesse sentido, que depositaram nas mãos do Bispo.
Desde aquele momento, rapidamente prosseguiu no caminho da perfeição. Todo o tempo, não tomado pelas ocupações do dever, pertencia desde então à oração e à beneficência. Consolo particular dava-lhe a audição da santa Missa, tanto que assistia quotidianamente a tantas missas quantas lhe era possível, e com uma devoção que edificava a todos. Era uma grande protetora das viúvas e órfãos. Grande parte dos protegidos comiam na sua própria mesa, onde ela mesma os servia. Frequentes visitas faziam aos hospitais e a dedicação, como o amor ao sacrifício, faziam com que em pessoa lavasse os pés dos leprosos e lhes beijasse as úlceras. Com o esposo insistiu para que nas proximidades da cidade de Breslau erigisse um convento para as religiosas da Ordem de Cister. Naquele convento muitas meninas pobres receberam educação e instrução religiosa. Edwiges mesma costumava passar dias entre as freiras, acompanhando todos os exercícios da comunidade. No vestir não se lhe notava nenhuma ostentação, nem liberdade alguma, de modo que o exemplo da duquesa obrigava a todos na corte ao maior recato.
Contrariedades e graves desgostos não faltaram para pôr-lhe em prova as virtudes. Uma guerra imprevista arrebatou-lhe o esposo, que caiu nas mãos do inimigo. Ao receber esta última notícia, Edwiges, cheia de fé, levantou os olhos para o céu e disse: “Espero vê-lo em breve são e salvo.” Ela mesma se dirigiu ao duque Conrado, que lhe guardava preso o esposo e rogou com tanta insistência, que obteve a libertação de Henrique, o qual adoeceu e pouco depois morreu. Às pessoas que lhe apresentavam pêsames, Edwiges respondia: “Cumpre adoramos os desígnios da divina Providência na vida e na morte. Nosso consolo deve consistir no cumprimento de sua santíssima vontade.”
Três anos depois, seu filho Henrique perdeu a vida, numa batalha contra os Tártaros. Embora este golpe crudelíssimo lhe ferisse profundamente o coração de mãe, Edwiges demonstrou a mesma resignação que por ocasião da morte do esposo.
O resto da vida passou-se lhe no convento. Aí viveu como a última entre as freiras. As regras e as Constituições da Ordem viram na santa Duquesa a observadora mais fiel. Se sua vida antes da entrada no convento era de sacrifícios e penitências, no mosteiro redobrou os exercícios de austeridade. Só interrompia o jejum aos domingos e dias santos. O único alimento que tomava era pão, água e legumes, abstendo-se por completo do vinho e da carne. O cilício era-lhe companheiro inseparável, e o leito eram duas tábuas. No inverno mais rigoroso andava descalça sobre neve e gelo. Apenas três horas antes das matinas dedicava ao sono, passando o resto da noite em oração, sujeitando o corpo, não raras vezes, a severa flagelação. Com esses exercícios tão duros de penitência, Edwiges emagreceu, e o corpo tomou-lhe feições esqueléticas.
Tinha uma devoção terníssima à Sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo, que era o assunto de suas meditações quotidianas. Acompanhando a Nosso Senhor nos sofrimentos, derramava abundantes lágrimas. Terno amor dedicava à Santíssima Virgem. O rosto incandescia-se lhe ao pronunciar o nome da doce Mãe celeste. A humildade de Edwiges foi recompensada com o dom dos milagres. Fazendo uma vez o sinal da cruz sobre uma cega, esta recuperou a vista imediatamente. Muitas curas maravilhosas se efetuaram por sua intercessão.
O fim de tão santa vida foi uma morte santíssima. Acometida de grave doença, pediu os santos Sacramentos, os quais recebeu com tanto fervor, que comoveu a todos que assistiram. Morreu em 1243. Numerosos foram os milagres que se lhe observaram no túmulo. Clemente IV deu-lhe a honra dos altares. Santa Edwiges é a padroeira da Polônia.
REFLEXÕES
“Tanto na vida como na morte elevemos adorar humildemente as determinações da divina Providência”. – Assim falou Santa Edwiges, quando o marido lhe foi arrebatado pela morte. A mesma conformidade heroica manifestou quando lhe morreu o filho primogênito. Qual é a tua conduta em acontecimentos semelhantes? Nunca terás a tranquilidade de espírito, se não te sujeitares às ordens divinas, conformando tua vontade com a de Deus. Porque não te sujeitas? Porque não te conformas? As ordens de Deus são justas, embora muitas vezes incompreensíveis. Nada te poderá acontecer sem que Deus disso tenha conhecimento, e sem que tenha dado consentimento. Tudo que Deus ordenar a teu respeito, é justo e é para teu bem. É a fé que assim no-lo ensina. Ensina mais – que ninguém se deve opor à vontade de Deus claramente conhecida. É necessário, pois, que da necessidade se faça virtude, conformando-se com aquilo que Deus quer. Se assim fizeres, terás a paz de tua alma e poderás obter muitos merecimentos para o céu.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩
- N. do E.: Hedwiges, em grafias antigas ↩