16 de maio — São João Nepomuceno, Presbítero e Mártir

16 de maio — São João Nepomuceno, Presbítero e Mártir
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

São João Nepomuceno, Santo a quem Deus glorificou até os nossos dias, nasceu na Boêmia, numa pequena cidade chamada Nepomuk, perto de Praga. Seus pais, cidadãos honestos, que por muitos anos ficaram privados da bênção de filhos, recorreram à oração, fazendo um voto a Nossa Senhora. Deus ouviu suas preces e deu-lhes um filho, a quem deram o nome de João, isto é, dom de Deus. Quando o menino tinha a idade suficiente, foi então admitido como coroinha no convento dos Cistercienses. Servir no altar, como acólito, era seu maior prazer. Nos seus estudos revelou tanto talento, que alcançou o grau de doutor em teologia e direito canônico. Depois de sua ordenação sacerdotal, afastou-se por um mês da sociedade, para se preparar devidamente à celebração de sua primeira Missa. O Bispo confiou-lhe a Igreja de Nossa Senhora, na metrópole. Poucos anos depois, foi convidado para fazer parte do cabido, e na qualidade de Cônego, desempenhou também o cargo de pregador da Sé, cargo que ocupou até o fim de sua vida.

Como pregador, gozava de fama extraordinária, e entre seus ouvintes achava-se frequentes vezes Wenceslau, rei da Boêmia e da Alemanha com toda sua família. Admirador que era do eloquente pregador, ofereceu-lhe a diocese de Leitmeritz e outros benefícios riquíssimos. João, porém, preferindo a missão de pregador, não aceitou as ofertas imperiais.

A imperatriz Joana escolheu-o para seu confessor e esmoler do paço real. João com muita competência desempenhou-se destas altas funções. O cargo, de confessor da rainha Imperatriz, trouxe-lhe a coroa do martírio.

Wenceslau pelos seus costumes depravados, seu gênio cruel e irascível, que o arrastou a praticar muitos crimes, não só desgostou profundamente sua esposa, mas tornara-se pedra de escândalo para todos que o conheciam. Joana, na impossibilidade de regenerar seu imperial marido, pelas orações, penitências e obras de caridade procurou merecer a conversão do mesmo. Na recepção dos Santos Sacramentos ela achou força para levar com paciência a tão pesada cruz.

Wenceslau de maus olhos observava a piedade de sua esposa, e vendo-a com frequência procurar o Sacramento da Penitência, começou a nutrir as mais disparatadas suspeitas. É difícil um depravado acreditar na virtude do seu semelhante. Mau marido facilmente julga mal da sua esposa, por mais santa que esta seja.

Desejoso de saber o motivo destas repetidas confissões e aguilhoado pelas mais terríveis suspeitas, tratou de descobrir o que Joana confessava. Com este intuito mandou chamar o confessor à sua presença. Após muitos rodeios, manifestou-lhe o seu desejo, não regateando os maiores elogios e abrindo-lhe radiosas expectativas, para o caso que lhe relatasse o que se passara, no segredo da Confissão. O santo sacerdote, pasmo por ouvir proposta tão ímpia e quão sacrílega, pediu ao rei de não insistir no que a um sacerdote católico era impossível atender. Acrescentou, que preferiria mil vezes morrer, a fazer a mínima revelação do que em confissão ouvira. Ao ouvir esta resposta, Wenceslau, encheu-se de rancor, mas conteve-se no momento, achando mais prudente aguardar ocasião mais oportuna para se vingar.

Esta não tardou a se oferecer. Por uma falta, aliás muito desculpável, que o cozinheiro do palácio cometera, o rei num requinte de crueldade tinha ordenado que o pobre oficial fosse assado vivo sobre a brasa.

Ninguém havia que se achasse com coragem de contradizer a Wenceslau, porque todos temiam a vingança do tirano. O pobre condenado achou, porém, um advogado na pessoa do santo sacerdote, o qual muito se empenhou para alcançar a revogação de tão bárbara sentença. Wenceslau não só atendeu às instâncias do seu capelão, mas encolerizou-se de tal modo pelo motivo de ele ter tido a ousadia de censurar seus atos, que deu ordem de o meter no cárcere, e de deixar o prisioneiro sem alimento durante um dia. No dia seguinte mandou-lhe o rei dizer que, se tivesse amor à vida, só a poderia salvar, atendendo ao pedido que anteriormente lhe fora feito. A resposta do nobre prisioneiro foi uma formal recusa. Wenceslau novamente tentou, por modo suasório, alcançar o seu intento. Fingindo arrependimento, convidou ao sacerdote para tomar parte num banquete no dia seguinte. Pediu ainda encarecidamente, que não deixasse de comparecer, porque sua presença seria para ele o sinal de perdão e do esquecimento. João foi. Acabado o banquete, Wenceslau voltou ao assunto e, com mais empenho que antes, insistiu com o santo sacerdote, para que fizesse as revelações que desejava ter. João Nepomuceno, porém, não cedeu às indignas insinuações do monarca, o qual às promessas mais lisonjeiras fez seguir horríveis ameaças. De fato, João Nepomuceno foi novamente metido no cárcere e por ordem superior, esticado sobre o ecúleo. Não satisfeito com esta brutalidade, o rei, no seu satânico furor, ordenou que o corpo do Mártir fosse torturado com tochas ardentes. A todas estas cenas Wenceslau esteve presente, saturando seu ódio no aspecto dos sofrimentos da pobre vítima que, elevando os olhos ao céu, no meio das suas dores cruciantes, invocava os nomes de Jesus e Maria. Terminado este martírio, João Nepomuceno foi posto em liberdade.

A ninguém revelou o que lhe tinha acontecido. Logo que seu estado o permitiu, trabalhou como antes. Tendo-lhe, porém, Deus revelado que sua fidelidade ao sigilo sacramental lhe custaria a vida, no domingo antes da festa da Ascensão de Nosso Senhor, subiu ao púlpito e tomou por texto da homília as palavras: "Mais um pouco e não me vereis". Sua prática versou sobre grandes tribulações novas, e heresias, que viriam sobre a Boêmia, e sobre a penitência que os fiéis deviam fazer, para aplacar a ira de Deus. Apelou para seus ouvintes, para que conservassem a fé católica. Na véspera da Ascensão de Nosso Senhor, fez uma romaria à imagem milagrosa de Nossa Senhora de Bunzlau, e em preces ardentes, recomendou-se a Deus e Maria, para o martírio que o esperava. Pela tarde voltou para Praga. O rei, de sua janela o percebendo, mandou chamá-lo, e sem delongas, disse-lhe: "Ouça, (aqui se serviu de uma palavra altamente insultuosa) tua morte é certa, se não te resolveres a contar a confissão da rainha. Por Deus, far-te-ei beber água". O Santo com firmeza retrucou: "Antes, mil vezes morrer". Wenceslau mandou fechá-lo num quarto contíguo. Alta noite foi levado à ponte, que liga a cidade nova à velha e daí precipitado nas águas do Moldava. O céu se incumbiu de revelar o crime e trazer à luz o que as trevas da noite quiseram esconder. Apareceu uma luz claríssima que, em forma de milhares de estrelas, desceu sobre o corpo do mártir, acompanhando-o rio abaixo. O povo, alarmado por este fenômeno, via a luz, sem saber dar uma explicação satisfatória do fenômeno. O próprio rei, sendo chamado pela rainha para apreciar a luz maravilhosa e de todo extraordinária, viu-a e ficou tomado de grande pavor. Com o romper do dia, viu-se o corpo do Santo deitado sobre a areia do leito do rio, cujas águas, para lhe dar lugar, tinham-se dividido ao meio. Assim foi encontrado o corpo do Santo Mártir, em cujos lábios brincava um doce sorriso, reflexo de paz e santidade.

Os membros do cabido levaram-no para a igreja mais próxima e dias depois efetuou-se a transladação soleníssima do mesmo para a Catedral. Imediatamente começou a veneração a João Nepomuceno e estupendos milagres confirmaram a fé na santidade do grande Mártir.

Passados 300 anos foi aberto o túmulo de São João Nepomuceno. Posto que o corpo todo tivesse pago seu tributo à obra destruidora da morte, a língua foi encontrada fresca como de pessoa falecida no mesmo instante. Seis anos depois, foi esta relíquia sujeita a um exame, perante uma comissão autorizada pela Santa Sé. Deu-se então o fato: que a língua, até então em estado normal, entumeceu repentinamente e a cor escura, que antes apresentava, se transformou em um vermelho bem vivo. A língua de São João Nepomuceno é conservada até hoje no mesmo estado de frescura.

São João Nepomuceno costuma ser invocado por pessoas que vêm em perigo sua boa reputação, ou que se acham embaraçadas para fazer uma boa confissão.

São João Nepomuceno foi canonizado por Bento VIII, em 1729.

Reflexões

1. Grande arte é saber falar e calar-se, quando as circunstâncias o aconselham. São João Nepomuceno interpelou ao rei, quando este se excedia em seus caprichos de crueldade. Palavra nenhuma, porém, saiu de sua boca, quando o tirano se pôs a extorquir confissões, que se achavam sob o sigilo sacramental. Muitos pecados seriam evitados, se os homens soubessem calar-se, quando a caridade, a justiça e a piedade o exigem, e se tivessem coragem e hombridade para falar, quando as mesmas virtudes o requerem. Maldizer, caluniar, difamar o próximo é pecado e pecado gravíssimo, conforme for a posição social da vítima ou a matéria que fornecer o assunto. Pecam os pais e superiores que se calam na presença de faltas graves, que seus filhos e súditos cometem. Pecam aqueles que toleram em sua presença conversas indecentes, ímpias e impiedosas, quando podiam e deviam protestar.

Pecam aqueles que, por vergonha ou de propósito, ocultam seus pecados graves na confissão. O profeta-rei pedia a Deus que lhe "pusesse uma sentinela na boca e uma porta nos lábios". (Salmos 140-3). "Guardemos bem a nossa língua; — diz São Crisóstomo — a razão e a prudência sejam a chave da nossa boca, que a abra e feche, quando for necessário. Às vezes é melhor calar-se, como também pode ser mais útil falar, do que quedar-se silencioso".

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312