16 de fevereiro — Santo Onésimo, Bispo e Mártir

16 de fevereiro — Santo Onésimo, Bispo e Mártir
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Onésimo era escravo de Filêmon, cristão convertido por São Paulo, natural da Frígia, em Colossos. Tendo prestado maus serviços a seu amo, a quem subtraíra uma certa quantia de dinheiro, e, receando castigo, fugiu para Roma, onde se encontrou com São Paulo, que ali se achava preso no cárcere. Conhecendo a São Paulo por bom amigo de Filêmon, contou-lhe sua infelicidade e o motivo de sua fuga. São Paulo, vendo em todos os homens irmãos de Jesus Cristo, para quem não havia distinção entre romano e grego, escravo e senhor, acolheu-o com caridade, instruiu-o na religião cristã e recebeu-o na Igreja, pelo Santo Batismo. Desde aquele dia, Onésimo foi dedicado servidor do Apóstolo, que o chamava de seu caríssimo filho.

Embora ele lhe fosse de grande utilidade, não quis São Paulo conservá-lo em sua companhia, sem que para isto tivesse o consentimento de Filêmon. Tendo ocasião de enviar Tychico a Colossos, em sua companhia mandou também Onésimo, não deixando de recomendá-lo ao seu amo. Nada prova melhor a grande caridade do Apóstolo das Gentes, que este documento, em que pede a Filêmon que perdoe ao seu antigo escravo e o aceite novamente em sua graça, como se fosse a ele, Paulo. “Tive grande alegria e consolação — assim escreve São Paulo a Filêmon — pela tua caridade, porquanto os corações dos Santos por ti foram confortados.

Assim, tendo embora em Cristo Jesus muita liberdade, para te ordenar o que te convém, prefiro rogar-te por caridade, tal sendo tu, como Paulo, já velho e agora preso por Jesus Cristo. Rogo-te, por meu filho, que gerei entre as algemas, Onésimo, o qual, outrora, te foi inútil, mas agora é útil a mim e a ti; que eu remeti para ti. Acolhe-o, pois, como vísceras minhas. Quisera eu retê-lo comigo, para que me servisse por ti, nas cadeias do Evangelho. Nada, porém, quis fazer sem o teu consentimento, para que a tua boa obra não fosse como forçada, e sim, voluntária. Porque ele talvez se apartou de ti uns tempos, a fim de que viesses a recobrá-lo para sempre. Já não apenas como um servo, mas, em vez do servo, um irmão muito amado, principalmente para mim; e quanto mais para ti, assim na carne como no Senhor? Portanto, se me tens por amigo, recebe-o como a mim próprio: e, se te fez algum dano, ou te é devedor, põe isso à minha conta. Eu, Paulo, escrevi por meu punho: eu pagarei, para não te dizer que também tu mesmo te deves a mim. Sim, irmão, receba em ti essa alegria no Senhor; alenta o meu coração no Senhor. Confiando na tua obediência, te escrevi, sabendo que farás até ainda mais do que digo” (Filêmon 1, 7-21).

Com efeito, correspondendo ao nobre pedido de Paulo, Filêmon não só perdoou de coração a culpa de Onésimo, como se fosse seu querido filho, mas deu-lhe liberdade, para voltar a Roma e continuar na companhia do Apóstolo, servindo-lhe nos seus trabalhos apostólicos. De quão sólida foi sua conversão, prova a grande confiança de que gozava do Apóstolo São Paulo, que lhe confiou importantes missões e o aceitou como ministro da Igreja, fazendo-o Bispo de Bereia. Na perseguição que a Igreja sofreu sob a dominação de Trajano, Onésimo selou sua fé com o martírio.

Reflexões

O procedimento do escravo Onésimo foi tudo, menos correto. Grande, porém, foi o sacrifício que fez, para voltar e pôr-se novamente à disposição de seu patrão, ainda com a triste perspectiva de receber duríssimo castigo. Só a autoridade de um mestre, como era São Paulo, podia conseguir de um pobre escravo, que respeitasse as leis da justiça, embora fosse preciso sacrificar sua liberdade. De mestres daquele tempo, entre mil, nenhum teria dado este exemplo de amor e respeito à justiça, como São Paulo o deu: e de mil escravos também, nenhum teria tido a coragem de, como Onésimo, depois do mal praticado e já na posse de sua liberdade, apresentar-se ao seu amo, só para satisfazer às exigências da sua consciência magoada. Só um mestre cristão se sujeitava à semelhante imposição. Como é bela a religião que proíbe toda a sorte de injustiça e obriga a dar satisfação! Como seria feliz a humanidade, se todos quisessem proceder sempre segundo os ditames do Santo Evangelho! Paz e justiça, quais irmãs gêmeas, dar-se-iam as mãos, num pacto da mais perfeita harmonia. Que perturba a paz dos homens e das nações? Não são as paixões desordenadas? Não é a cobiça, a inveja, a preguiça, a maledicência, o ódio, o desejo de vingança, a intemperança, que se desafiam no triste afã de desunir e inimizar os homens? Se houvesse justiça, haveria caridade, e onde reina a caridade, não há lugar para guerras, perseguições, desprezos, ódios, infidelidades e fraudes. Onde há caridade e justiça, há também temor de Deus, respeitos às suas leis, paciência no sofrimento, conformidade na dor e compaixão com a miséria do próximo. Nada mais injusta é, que a acusação dos cristãos não poderem ser bons cidadãos, acusação esta antiquíssima, e já por Santo Agostinho refutada. O cidadão que segue a lei de Cristo, será bom filho, bom chefe de família, professor dedicado, magistrado exemplar e cumpridor de suas obrigações, onde quer que as circunstâncias requeiram sua presença. Não nos compete mudar a face da terra, nem isto está em nossas mãos. Mas o que podemos e devemos fazer sempre é viver como cristãos, em perfeita obediência às leis que Jesus Cristo nos deu.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312