15 de outubro — São Geraldo Majella, Irmão leigo redentorista
15 de outubro — São Geraldo Majella, Irmão leigo redentoristaExtraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Não eram ricos em haveres, mas em fé e piedade, os pais de Geraldo, Domingos Majella e Benedetta Galella. Nascia-lhes o filho em 6 de abril de 1726, em Muro, no sul da Itália. Bem cedo o sobrenatural aureolou a vida da criança predestinada. Deu-lhe precocemente à oração, ao apostolado junto dos companheiros de folguedo. Já com seis anos ia à igrejinha da Virgem de Capotignano, distante de Muro duas léguas. Feita sua oração, Geraldo via o Menino Deus descer dos braços da Madonna e vir dar-lhe um alvo e saboroso pãozinho. Em casa relatava à mãe o que lhe acontecera.
Um dia ajoelha-se à mesa da comunhão. Queria receber a Nosso Senhor. Mas ao vê-lo tão pequeno o padre passou adiante. Imensa mágoa cobriu o coração de Geraldo. Para consolá-lo veio São Miguel trazer-lhe a santa Comunhão na noite seguinte.
Geraldo precisava aprender um ofício e assim auxiliar a pobreza dos pais. Foi aprendê-lo com um alfaiate, mau, colérico e abrutalhado. Pancadas, injúrias, maus tratos eram o pão de cada dia. Mas também de cada da, incansável era a paciência do santo aprendiz. O pouco que lucrava era dado aos pobres, às almas do Purgatório, em Missas que por elas fazia celebrar. Ao lado de tanta virtude era grande e rigorosa a sua penitência, alimentando-se de pão e água com algumas verduras.
Mais tarde empregou-se como fâmulo do Bispo de Lacedonia, Prelado que gozava de uma fama pouco animadora. Era homem violento, exigente, de palavras pesadas. Pouco tempo paravam com ele os criados. E o mesmo se predisse de Geraldo. Mas o santo tinha reservas inesgotáveis de paciência. Nas horas de palavras e tratos pesados calava-se. Deus recompensou até com milagre tanta virtude. Um dia, na ausência do Prelado, saiu Geraldo para buscar água na praça pública. Por infelicidade lhe cai dentro do poço a chave da casa. Assusta-se o Santo, prevendo a tormenta que faria o Prelado, se, de regresso, não lhe fosse possível entrar em casa. Corre então à Igreja e de lá retira a estátua do Menino Deus, prende-a à corda e deixa descer ao fundo do poço, rezando: Ó Menino Deus, sede bom para comigo e trazei-me a chave, para que o sr. Bispo não se zangue e esbraveje com Geraldo! Os presentes acompanhavam com curiosidade o fim da confiança de Geraldo. De fato, pouco depois, ao puxá-la para fora, voltava a estátua trazendo na mão a chave perdida.
Três anos perseverou Geraldo na casa do Bispo. Depois voltou para Muro, sua terra natal, e ali abriu uma alfaiataria para sustentar a mãe. Ganhava regularmente, mas quase tudo ia parar nas mãos dos pobres. Para esses fazia roupa de graça. E até quando lhe traziam fazenda para um terno de roupa, esta lhe crescia nas mãos.
Mas já naquele tempo havia imposto e fiscais. Pensaram em taxar com impostos mais altos a oficina de Geraldo. E ele para fugir a isso, retirou-se para São Fele. Ali sofreu horrores de uns alunos que tinha como aprendizes. De volta a Muro parecia ter-se tornado louco, tanta lhe era a sede de sofrimentos. Provocava os meninos da rua para que o maltratassem. E eles o faziam, cercando a Geraldo e nele batendo. "Que pena!", diziam, então os moradores de Muro. "O filho de Domingos está louco".
Por esse tempo vieram pregar missões em Muro dois padres redentoristas. Foi a conta. Geraldo entusiasmou-se pelos padres e queria acompanhá-los ao convento. Deixaria o mundo e iria viver só para Deus. Pediu a admissão. Mas o Padre Cafaro, santo homem e confessor de Santo Afonso, achou que o postulante era de saúde fraca. Por isso não o quis aceitar. Por sua vez veio a mãe de Geraldo e alegou a pobreza em que se achava, a precisão que tinha dos préstimos do filho. Exagerou. Nem com isso Geraldo se deu por vencido. De combinação com os padres a mãe fechara o filho num quarto, quando bateu a hora da partida dos missionários. Nosso santo achou expediente para o caso: da roupa de cama fez uma espécie de corda e por ela deixou a prisão. Sobre a mesa ficou um recado de Geraldo: Fujo para me fazer santo; nunca mais voltarei. De fato, com grande admiração, viram os missionários um moço correr atrás deles. Era Geraldo. Vinha pedir admissão. Aceitou-o o padre Cafaro, vistas as insistências do postulante. Mandou-o a Iliceto com uma carta ao Reitor do convento. Nela dizia: Envio-lhe um rapaz, que, por fraco, para nada prestará. Aceitei-o por causa das nunca vistas insistências.
No convento Geraldo caminhou como um gigante pela estrada da perfeição. No começo tinha de trabalhar no jardim:. Viram que não prestava para tal ocupação. Nomearam-no sacristão. Achou então o paraíso. Seu amor a Nosso Senhor mostrava-se no esmero e na limpeza com, que trazia tudo quanto pertencia ao Altar. Flores nunca faltavam na igreja. Em toda parte da casa, na rua, tinha uma palavra de Deus para o próximo. Mais tarde passou a cuidar da despensa, do refeitório, da portaria. E sempre o mesmo irmão humilde, modesto, obediente, edificante. Quando acompanhava os padres nas missões, pregava com os exemplos, com a oração contínua, com a penitência austera. Nas viagens não deixava de ser apóstolo. Um dia um salteador o cercou na estrada. Geraldo, calmamente, lhe disse: Tenho um tesouro para te mostrar, mas precisamos ir mais para dentro da mata. O salteador o acompanhou e Geraldo, tirando do peito um Crucifixo começa a falar do tesouro da graça, dos pecados do salteador. Acabou convertendo o pobre ladrão.
Brilhava em Geraldo a virtude da obediência aos Superiores. Dele se dizia que parecia adorar, até, os pensamentos dos Superiores. E certa vez sarou, só por receber, cheio de fé, a ordem de sarar. Da Regra era observantíssimo e tanto a conhecia, que se afirmava poder ele escrever novamente o livro que a continha, caso dele se perdessem todos os exemplares. Sua humildade desafiava semelhante em outros e sempre o levava a esconder os milagres que Deus lhe pôs ao alcance. Sua pureza era angélica. Nosso santo nunca perdeu a graça do Batismo. Assim mesmo, para prová-lo, Deus permitiu que fosse inocentemente acusado de uma falta gravíssima contra a pureza. Geraldo não se defendeu, aceitou e cumpriu humildemente a penitência que lhe deram. Mais tarde foi descoberta a calúnia e Santo Afonso perguntou a Geraldo por que motivo não se havia desculpado. "Como fazer isso?" — Responde o santo. "Se a Regra proíbe apresentar desculpas aos Superiores? Vai em paz e Deus te abênçõe", retrucou-lhe o santo fundador, convencido de que lidava com um Santo.
Geraldo era o homem dos milagres. Fazia multiplicar-se o trigo na dispensa, o pão no cesto. Um dia deixou aberta a torneira de um barril, ao ser chamado urgentemente. E o vinho não correu para fora. Doentes abençoados por ele saravam. Tempestades se acalmavam com a invocação de Geraldo. E até o demônio teve de lhe servir de guia por dentro de uma torrente ameaçadora. Geraldo tinha o dom da profecia e muitas vezes predisse o futuro do próximo. Lia nos corações e, numa missão, foi procurar certo pecador e revelou-lhe todos os pecados que cometera, entre eles incluindo a comunhão sacrílega que acabara de fazer. Seu nome, ao lado de suas virtudes, andava na boca do povo das redondezas. Ao lado de tudo isso, era Geraldo um apaixonado amante do Santíssimo Sacramento, da Sagrada Paixão do Salvador, da Santíssima Virgem Maria. Inúmeras vezes caía em êxtases e elevava-se aos ares, arrebatado por Deus, pela Santíssima Virgem. Apesar de tantos dons extraordinários, nunca deixou nosso santo de usar para consigo de um rigor que apavorava. Disciplinava-se à sangue, jejuava vários dias na semana, cobria-se de cilício, punha ervas amargas na comida. E ajunte-se a tudo a contínua fraqueza de saúde que nunca o deixou.
Em agosto de 1755 a saúde de Geraldo descambava. A febre e a tosse o matavam. Recolheu-se ao leito e a todos edificou pela sua paciência e resignação. "Morro contente, porque espero não ter procurado senão a Vossa Glória e a Vossa Vontade, ó meu Deus", dizia o Santo. Perguntaram-lhe se sofria muito: "Eu estou sempre nas chagas de Jesus Cristo e as chagas de Jesus Cristo estão em mim", foi a resposta. Pedia ao médico que não receitasse coisas que dessem muito trabalho aos outros. Não queria incomodar. Em 15 de outubro recebeu sua última comunhão, e tal foi a cena edificante que seus confrades nunca mais a esqueceram. Após a comunhão Geraldo anunciou que era chegado o dia de sua morte. Pediu ao enfermeiro que o ajudasse a recitar o ofício de defuntos. "Quero recitá-lo pela minha alma", observou o Santo. Finalmente a uma hora e um quarto da madrugada de 16 de outubro de 1755, na idade de 30 anos, no 6° ano de sua vida religiosa, Geraldo subia para o Céu.
Os milagres foram se multiplicando e o nome do Santo ficou celebrado no mundo inteiro. Tornou-se um taumaturgo. A sepultura de Geraldo em Caposele converteu-se em ponto de romaria. Dos ossos do Santo desprende-se continuamente um líquido, alvo como orvalho e deliciosamente perfumado. Em 29 de janeiro de 1893 realizou-se a beatificação de Geraldo e em 11 de dezembro de 1904, Pio X colocava o humilde irmão leigo redentorista no rol dos Santos.
Hoje São Geraldo é conhecidíssimo no Brasil. Por toda parte se veem suas estátuas. Muitas igrejas, muitas paróquias, muitos cristãos trazem o seu nome.
REFLEXÕES
Na porta de seu quarto Geraldo mandou escrever: "Aqui se faz a vontade de Deus". Eis aí um belo programa para todo cristão, seja qual for o seu estado de vida. É no cumprimento da vontade de Deus que está a perfeição. Geraldo viveu "como um anjo no meio dos homens". Ao menos, quem não é santo como ele, deve procurar viver "como um penitente entre pecadores". A paciência diante de faltas, erros e injustiças do próximo é também uma grande penitência. Geraldo operava milagres com o Sinal da Cruz. Mas também o fazia com uma devoção que impressionava. Procuremos copiar-lhe essa devoção. O pobre Sinal da Cruz é feito tão distraidamente e tão sem alma!
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩