15 de maio — Santa Dymphna, Virgem e Mártir

15 de maio — Santa Dymphna, Virgem e Mártir
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Celebra-se hoje a festa da Santa Virgem e Mártir Dymphna, filha de reis da Irlanda, decapitada por ordem de seu próprio pai em defesa da fé cristã e de sua honra.

Com o laconismo de suas referências, o martirológio romano faz menção da festa de Santa Dymphna.

Sem conhecimento de seus pais, que eram pagãos, Dymphna, tendo apreciado a beleza da religião cristã, a ela se converteu e modelou sua vida de acordo com as máximas evangélicas. Morta sua mãe, o pai teve a ideia monstruosa de querer contrair segundas núpcias com a sua própria filha, e sua imprudência chegou ao ponto de fazer à filha sua proposta desavergonhada.

Em vão esta fez ver ao seu progenitor a hediondez do seu plano incestuoso, o escândalo que provocaria entre seus súditos, e finalmente a terrível responsabilidade que assumiria perante Deus, os remorsos subsequentes e finalmente as penas do inferno. O pai ficou inflexível e, com terríveis ameaças, procurou intimidar o ânimo de sua filha. Dymphna em vista da resolução inquebrantável de seu pai, disse: "Pois, bem, se de todo não quereis desistir do vosso plano, concedei-me ao menos um prazo de 40 dias para que possa fazer os preparos que exige um negócio tão importante". O pai, ignorando quais fossem os planos de sua filha, acedeu ao pedido da mesma. Dymphna mandou chamar Gerebernus, sacerdote de quem tinha recebido o Batismo, e pediu seus conselhos no caso que a interessava. Gerebernus aconselhou-lhe a fuga como único meio de escapar de tão triste sorte e ofereceu-lhe os seus serviços na execução do plano.

Com Gerebernus e um empregado de sua confiança, Dymphna tomou um navio e fugiu para Antuérpia. De Antuérpia dirigiu-se a uma aldeia de nome Chelen, em cujas proximidades fez construir duas choupanas, uma para si e outra para o sacerdote. Lá, na solidão, levou uma vida mais angélica que humana.

Mal o rei soube da fuga de sua filha, mandou emissários em todo o país para descobrir o paradeiro da mesma. Vendo baldados todos os esforços, resolveu procurá-la ele mesmo. Embarcou num navio que o levou a Antuérpia. Emissários foram mandados em toda redondeza com ordem de trazer a fugitiva, caso a encontrassem.

Dois dos mesmos hospedaram-se num albergue, onde Dymphna costumava fazer suas compras. Ao fazer o pagamento das suas despesas, o estalajadeiro mirou a moeda que lhe deram e disse: "Não é a primeira vez que vejo tal dinheiro, mas não o conheço e não sei o seu valor".

Estava descoberta a pista da pobre vítima. Indagando do albergueiro, este lhes disse o que sabia. Os emissários relataram ao rei o ocorrido e poucas horas depois estava ele com sua comitiva no lugar onde Dymphna habitava. A donzela, vendo-se diante do seu pai carrasco, empalideceu, mas não se perturbou. Tranquila ouviu as suas repreensões, bem como a renovação insistente das suas propostas vergonhosas.

Diante da firmeza de Dymphna o rei dirigiu-se ao sacerdote Gerebernus, exigindo dele que o apoiasse com seus conselhos junto à princesa. Gerebernus, porém, respondeu: "Como? Quereis que me faça apóstolo do vício, ainda mais de um crime diabólico? Prefiro mil vezes morrer. A vós, ó rei, dou o conselho, ou antes, ordeno-vos em nome de Deus, que desistais do vosso plano se não quereis chamar sobre vós a ira de Deus".

Ouvindo estas palavras, o rei não mais se conteve: com fúria, atirou-se ao sacerdote, que caiu sob os golpes da espada do endemoninhado tirano. Não mais feliz foi com sua filha, que, a todas as tentativas, ameaças, carícias e promessas, teve um resoluto "não".

No auge de sua cólera, o pai desumano deu ordem aos seus companheiros para que matassem a heroína, que aos seus olhos nada mais merecia por ser cristã e desrespeitadora das suas ordens. Há escritores que pretendem nenhum dos companheiros do rei ter tido a coragem de estender a mão contra a inocente princesa, que afinal teria morrido nas mãos do próprio pai. Fato é que ela e seu sacerdote morreram mártires da fé, vítimas da paixão brutal de um tirano desalmado.

Os habitantes de Chelen deram sepultura digna aos dois mártires, os quais, por Deus, foram glorificados por numerosos milagres. A arte cristã representa a nossa mártir com um mau espírito manietado, querendo assim simbolizar o grande poder que Santa Dymphna tem sobre os demônios.

A Igreja invoca a intercessão de Santa Dymphna nos casos de epilepsia.

Reflexões

1. "Quem se entrega a amores condenáveis, — diz São João Crisóstomo — dá a Satanás todo o poder de fazê-lo cair em quantos pecados que ele quiser". O procedimento abominável do pai de Dymphna é uma ilustração deste conceito. "O escravo do amor impuro peca enquanto tem vida; porque o fogo da impureza é insaciável e não é capaz de dizer: chegou" (São Roberto). A impureza, diz São Pedro, é um "vício permanente" (II Pedro 2, 14). Uma vida, porém, que termina em pecado, que outra coisa pode ela ser senão o começo de penas eternas?

2. Santa Dymphna deu exemplo de virtude heroica, que não se deixou vilipendiar quaisquer que fossem os meios a que recorreu o sedutor. Não raros são os casos em que alguém se vê tentado por pessoas a quem deve respeito e obediência, cuja amizade e proteção que lhe pode ser útil ou necessária, como também cuja inimizade lhe seria sumamente perigosa e prejudicial. Santa Dymphna demonstrou como, em tais emergências, se há de proceder. A resolução a se tomar, poderá ser só uma, uma só a resposta que se deve dar ao mensageiro de Satanás, a mesma que José deu à mulher tentadora do Faraó: "Como poderei praticar tão grande injustiça e pecar contra Deus?" — ou o que Suzana disse aos maus velhos: "É melhor cair em vossas mãos do que pecar diante do Senhor".

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312