15 de janeiro — São Paulo, Eremita e Confessor

15 de janeiro — São Paulo, Eremita e Confessor
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

São Paulo, o primeiro eremita no Egito, nasceu na Tebaida, aproximadamente no ano 230. De pais cristãos recebeu o filho educação aprimorada. Favorecidos pela fortuna, puderam proporcionar-lhe os meios para se instruir nas ciências gregas e egípcias. Paulo, na idade de 15 anos, ficou órfão de pai e mãe e proprietário de grandes bens. O seu coração, porém, não apetecia os prazeres do mundo; pelo contrário, sua maior satisfação era servir a Deus, na prática das virtudes cristãs. Paulo contava 23 anos, quando a grande perseguição de Décio se estendeu também sobre a Tebaida. O inimigo não poupou esforços para afastar as almas da doutrina de Cristo. Blandícias e torturas entraram em ação para conseguir este fim. Paulo, impressionado com o que via e, com receio de não ter força para enfrentar o martírio, fugiu para o deserto, com a intenção de lá ficar, enquanto durasse a perseguição. Penetrando mais no deserto, um dia encontrou uma grande gruta, que no tempo da rainha Cleópatra tinha servido de esconderijo a criminosos e moedeiros falsos. Paulo resolveu a passar o resto da sua vida naquela gruta. Água receberia da fonte que lá se achava, e uma palmeira lhe forneceria alimento e folhas para se cobrir. Quando escassearam os frutos, Deus lhe mandou um corvo, que lhe trazia pão todos os dias. Pelo espaço de noventa anos, Paulo morou naquela gruta, sem que tivesse visto mais rosto humano.

Quando contava com 113 anos, recebeu a visita de Santo Antão. Este santo varão, eremita como Paulo, tinha noventa anos e, julgando-se o homem mais velho do mundo, com este pensamento se envaideceu. Deus lhe revelou a existência de um ente mais idoso e, mais santo que ele, e ordenou-lhe que o procurasse. Sem saber para onde se dirigir, pôs sua confiança em Deus e entrou no deserto. Tendo andado metade do dia, foi de encontro com um desconhecido, ao qual pediu informações relativas à morada de Paulo. O homem, sem dizer palavra, indicou com a mão a direção e fugiu. Dois dias e duas noites pisou Antão a areia do deserto, quando percebeu uma loba faminta, que fugitiva, se escondeu em uma gruta. Antão foi-lhe ao encalço e, penetrando mais no interior da gruta, viu-se diante da cela de Paulo. Este, vendo-se descoberto, fechou-se no seu esconderijo, e Antão põe-se a orar até que o eremita se resolvesse a aparecer. Depois de muito esperar, a porta se abriu e Paulo saiu da sua cela. Os dois se abraçaram e, apesar de nunca se terem visto na vida, chamaram-se pelo nome, reconhecendo neste encontro uma singular permissão da Divina Providência.

“Afinal achaste — disse Paulo a Antão — a quem procuraste. Estás vendo um homem que daqui a pouco será pó e cinza”. Depois pediu informações ao hóspede, sobre o estado das coisas no mundo, sobre a perseguição etc., a que Antão respondeu do modo que lhe era possível.

Enquanto dialogavam, veio o corvo e trouxe duas rações de pão. Vendo isto, Paulo, cheio de admiração, disse: “Vê, como Deus é bom e misericordioso, mandando-nos o nosso manjar. Sessenta anos aqui estou e recebo diariamente um pãozinho; por causa da tua visita mandou-nos hoje ração dobrada”. Nisto os dois varões reconheceram a obra da Divina Providência. Muitas horas permaneceram em colóquio e a noite passaram em oração. No dia seguinte, disse Paulo ao companheiro: “Há muito tempo sabia que moravas nesta redondeza. Estando eu no fim de minha vida, Deus te mandou, para dar sepultura ao meu corpo”. Antão se entristeceu com estas palavras e pediu ao santo eremita, que, indo ao céu, o levasse consigo. Este, porém, respondeu: “É da vontade divina que fiques ainda algum tempo no mundo, para o bem daqueles que em ti veneram como mestre”. Pediu então a Antão que fosse buscar o manto que tinha recebido de Santo Atanásio, para nele poder envolver o seu corpo morto. Isto ele fez para Antão não precisar ser testemunha da sua morte e para testemunhar o seu grande respeito ao grande Bispo, que tanto sofrera em defesa da fé.

Antão foi apressadamente cumprir a ordem do santo eremita. A pergunta dos Irmãos de hábito, onde se tinha demorado tanto, respondeu: “Ai de mim, pobre pecador, que mui injustamente levo o nome de monge! Eu vi Elias, eu vi São João no deserto, eu vi Paulo no Paraíso”. Nada mais falou. O medo de não mais encontrar com vida o eremita Paulo, não o deixou demorar-se no convento. Tomou o manto de Atanásio, e com ele pôs-se a caminho para a gruta. Antes de chegar, viu a alma do santo varão, rodeada de grande esplendor, subir ao céu, acompanhada de Anjos, Profetas e Apóstolos.

Impressionado com a visão, continuou a jornada até chegar à morada de Paulo. Ao entrar na gruta, deparou-se-lhe um quadro singularíssimo. Lá estava Paulo, de joelhos, com os braços abertos em cruz, a cabeça elevada ao céu — imóvel. Se Antão, ao princípio, julgou ver o santo homem em oração, logo se convenceu de que tinha um cadáver diante de si. Imediatamente dispôs o necessário para dar sepultura ao defunto. Envolveu o corpo de seu companheiro no manto de Santo Atanásio, como tinha sido a vontade do falecido. Para fazer uma cova, viu-se embaraçado, visto que não existia no lugar, instrumento nenhum, que lhe pudesse remover a terra. Deus veio em seu auxílio. Da floresta próxima vieram dois leões, os quais com grandes uivos se deitaram aos pés do cadáver, e depois de terem assim dado sinal de sua gratidão, escavaram na terra uma abertura assaz larga e funda, para nela poder-se sepultar o corpo do Santo Eremita. Antão rezou sobre o defunto e sepultou-o. A única roupa que de Paulo existia, uma túnica feita de folhas de palmeira, Antão levou-a como lembrança preciosa e dela se servia só nos grandes dias de festa.

São Paulo, segundo o cálculo de São Jerônimo, morreu no ano de 341, tendo a idade de 113 anos.

Reflexões

1. Cento e treze anos contava São Paulo quando a morte o chamou para a eternidade. São Teodósio morreu com cento e cinco anos. A biografia destes varões diz que a vida deles era de uma austeridade espantosa e quase um jejum contínuo. A idade avançada que estes Santos (como ainda outros) alcançaram, é uma apologia do jejum, que em nossos dias caiu em grande descrédito também entre aqueles que querem ser muito católicos e religiosos. O cuidado exagerado que muitos têm pela saúde corporal, deixa-os ver no jejum um grande inimigo, e tudo fazem para se ver livres da obrigação de jejuar nos dias que a Igreja marcou como de jejum. O Espírito Santo assegura-nos que o jejum não é nocivo; pelo contrário. “Quem sobriamente vive, prolonga sua vida” (Eclesiástico 37, 35). Não te deixes vencer pelo comodismo, e não dês facilmente ouvido às insinuações malévolas contra uma instituição tão salutar como é a do jejum. É mais fácil que o organismo se recinta do excesso na comida e na bebida do que da prudente e ponderada abstenção.

2. Quando São Paulo procurou o deserto, pensava passar nele só um certo tempo. Mais do que esperava, tornou-se a solidão, a sua amiga, e convenceu-se da grande utilidade de servir a Deus, longe do bulício do mundo. Contra a solidão e o afastamento das coisas do mundo há também entre católicos grandes preconceitos, achando-os insuportável uma vida mais retraída e silenciosa. Antes não julgassem o que não conhecem. Se queres a prova da doçura da vida longe do mundo, faz a experiência e verás como é deliciosa. A penitência, o arrependimento dos pecados é um consolo e traz um bem-estar tamanho, que igual não se encontra no meio dos prazeres e divertimentos do mundo. “Muitos, — diz São Bernardo — fogem da penitência, porque deixando-se unicamente fascinar pela cruz, não enxergam a doce unção”. “Se nos aplicarmos a uma vida piedosa e santa, nada haverá que nos possa entristecer” (São João Crisóstomo). “A alegria, que procuramos não na criatura, mas em Deus, é alegria verdadeira, que não tem seu semelhante entre as alegrias do mundo.” (São Bernardo).

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312