15 de fevereiro — Santos Cirilo e Metódio, Monge e Bispo

15 de fevereiro — Santos Cirilo e Metódio, Monge e Bispo
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Ao ler os nomes destes santos irmãos, o nosso espírito se transporta aos povos da Boêmia, Bulgária e Polônia, que veneram em Cirilo e Metódio seus Apóstolos da fé cristã. Cirilo e Metódio eram naturais de Tessalônica e fizeram seus estudos em Constantinopla. Cirilo principalmente distinguiu-se pelo seu talento, e era geralmente chamado “o filósofo”. Grande em ciência, era maior ainda, na prática das virtudes cristãs. À Igreja prestou os mais relevantes serviços, principalmente, na luta contra Fócio, que tinha usurpado a sede patriarcal de Constantinopla, expulsando o legítimo Patriarca Inácio, e com isto causando o cisma entre a Igreja grega e a latina.

Foi naquela época que os cazares, povo que morava na bacia do Danúbio, na região que se estende entre a Bulgária e Morávia, mandaram uma comissão ao Imperador Miguel III e a sua santa mãe, Teodora, com o pedido de lhe mandar missionários, que os instruíssem na religião católica. Seguiu uma turma de missionários, com Cirilo como Superior. Cirilo em pouco tempo aprendeu a língua do país e teve a satisfação de ver o povo, com seu príncipe, se converter à religião de Cristo.

Ricos presentes, que a gratidão dos convertidos pretendeu lhe oferecer, Cirilo não os aceitou, o que fê-lo subir ainda mais na estima de todos.

De volta a Constantinopla, começou para Cirilo uma nova vida. Acompanhado por seu irmão, Metódio, sacerdote e exímio pintor, dirigiu-se à Bulgária. Metódio embelezou o palácio do rei Bóris I de ricas pinturas. Entre outras pintou o Juízo Final, em que causou tanta impressão, que o rei pediu para ser instruído na religião cristã. Metódio mesmo se incumbiu da instrução, e Bóris I recebeu no Batismo o nome de Miguel.

Os búlgaros, porém, sabendo da conversão do seu rei, não quiseram conformar-se com este fato e certo dia, depois do Batismo de Bóris I, assaltaram o palácio real. O rei, confiando em Deus, colocou-se à frente de um grupo de dedicados amigos e dispersou facilmente os revoltosos. A excitação não durou muito tempo. Pouco a pouco desapareceram os preconceitos que havia entre o povo, contra a religião de Cristo. Os missionários, antes recebidos com sinais inequívocos de hostilidade, eram ouvidos com respeito e boa disposição, e não tardou que o povo todo se aproximasse do Santíssimo Sacramento do Batismo. O Papa Nicolau I, tendo recebido tão consoladora notícia, enviou alguns Bispos que administraram o Santo Crisma aos recém-batizados e estabeleceram dioceses. Alguns dos convertidos, achando-se in extremis, tinham sido batizados por leigos. Na dúvida sobre a validade do sacramento, os Bispos se dirigiram ao Papa, o qual declarou válido o Batismo administrado nas determinadas circunstâncias, não devendo, portanto, ser repetido.

Tendo conduzido os búlgaros ao aprisco do Senhor, os dois homens apostólicos dirigiram-se à Morávia, onde batizaram o rei Rastislau, com grande número dos seus súditos. A conversão deste povo tornou-se menos trabalhosa que a dos búlgaros, por causa dos bávaros, seus vizinhos, que tinham já abraçado o cristianismo, devido aos esforços e orações de São Ruperto, Bispo missionário de Worms.

No meio dos seus trabalhos apostólicos aconteceu que Cirilo e Metódio foram chamados a Roma, para responder à acusação de terem introduzido na Liturgia a língua eslava. De fato, tendo inventado uma escrita eslava, os dois irmãos traduziram a Bíblia para esta língua, a qual em seguida foi por eles empregada na Santa Missa. Ouvidos e examinados os motivos para tal praxe, o Papa João VIII aprovou o uso da língua eslava na Liturgia e Metódio foi sagrado Bispo de Morávia. Cirilo, porém, ficou em Roma, onde viveu num convento até a morte.

Metódio dedicou-se com toda a energia à direção da sua nova diocese e à conversão do seu povo. Grande e tenaz oposição veio-lhe neste tentâmen, da parte dos Arcebispos de Salzburgo e Mogúncia, que consideravam a Morávia parte das suas arquidioceses. A luta só terminou com a intervenção do Papa, que separou o país das outras dioceses e confirmou Metódio como Arcebispo de Morávia.

Se foram grandes as lutas e desgostos na administração da arquidiocese de Morávia, grande também foi o consolo que São Metódio experimentou pela conversão de Borzivógio I, duque da Boêmia, que com toda a sua família recebeu o Santo Batismo. O exemplo do duque arrastou o povo que, aos milhares, se aproximaram da pia batismal. São Metódio erigiu duas Igrejas em Praga: a de Nossa Senhora e a dos Apóstolos São Pedro e São Paulo, além de muitas outras que fizeram na Boêmia. A Polônia foi o terceiro país, para onde São Metódio se dirigiu. Trabalhando sempre com o mesmo zelo, em poucos anos ganhou os poloneses à religião de Cristo. Indo mais além, penetrou no país dos moscovitas e fundou o Arcebispado de Kiev. Não é, portanto, para se admirar de que quase todos os povos eslavos, como sejam os morávios, boêmios, silesianos, poloneses, croatas, dácios, cárnios, panônios e russos venerem Cirilo e Metódio seus Apóstolos.

São Metódio alcançou idade muito avançada. Exausto das fadigas da vida apostólica, voltou para a Morávia, onde Deus lhe concedeu uma santa morte. Seu túmulo foi glorificado por muitos milagres. Os poloneses celebram a festa dos dois santos irmãos no dia 14 de fevereiro. O Papa Leão XIII elevou a festa à categoria de “Duplex”, prescrevendo-a para toda a Igreja. As relíquias de São Metódio, mais tarde, foram transportadas para Roma, onde descansam ao lado dos restos mortais de seu irmão Cirilo.

Reflexões

A Igreja Oriental separou-se da Ocidental por não querer ficar em dependência do Papa Romano. Livres de Roma, Deus quis que o império oriental perdesse sua autonomia e os povos do Oriente fossem obrigados a aceitar o duro jugo dos maometanos. As belas Igrejas Orientais, fundações dos Apóstolos, como Antioquia, Jerusalém e Alexandria, sofreram muito sob a dominação turca e, embora sentissem a mão de Deus, que as castigava, não se convenceram e não se arrependeram dos seus erros. Castigo mais doloroso, não é possível imaginar-se mais que este, de Deus se retirar de um povo e entregá-lo à sua cegueira e suas paixões. Assim foram castigados os judeus, que se negaram a aceitar as bênçãos da Redenção. A fé é uma graça inestimável, e tudo devemos fazer para conservá-la e dela nos tornar cada vez mais dignos. Sirvamos a Deus em humildade, com sentimentos de gratidão, amor, e não nos esqueçamos de pedir por aqueles lastimáveis povos, que se acham ainda nas trevas do paganismo e do pecado, para que Deus, deles se compadecendo, os faça chegar ao conhecimento da luz, que é Cristo, Nosso Senhor. Especial menção devemos fazer hoje em nossas orações, para que Deus se amerceie dos povos cismáticos do Oriente e lhes dê reta compreensão e os conduza à unidade da Igreja que, em tempos de paixões agitadas, lastimavelmente deixaram.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312