14 de setembro — Festa da Exaltação da Santa Cruz
14 de setembro — Festa da Exaltação da Santa CruzExtraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
A Igreja Católica ocidental conhece a festa da Invenção da Santa Cruz, celebrada no quinto e sexto século, em memória da célebre aparição do sinal da Cruz, na batalha da ponte Mílvia, que deu a vitória ao imperador Constantino sobre seu competidor Maxêncio, e a festa da Invenção do Santo Lenho, pela Imperatriz Santa Helena. A liturgia dos nossos dias, porém, reserva o dia 3 de maio à celebração da Invenção da Santa Cruz e à Aparição maravilhosa na batalha acima referida, dando-lhe o título: Festa da Invenção da Santa Cruz. O dia 14 de setembro, dia da Festa da Exaltação da Santa Cruz, comemora o glorioso fato da reconquista da Santa Cruz das mãos dos Persas.
Cosroes II, rei da Pérsia, pegara em armas contra o Império Oriental Romano em 610, sob o pretexto de querer vingar as crueldades que o imperador Focas tinha praticado contra o imperador Maurício. Focas desapareceu e teve por sucessor Heráclio, governador da África. Este fez proposta de paz a Cosroes, o qual a rejeitou. Uma cidade após outra caiu em poder dos Persas, sem que Heráclio lhes pudesse tolher os passos. Senhor de Jerusalém, Cosroes praticou as maiores atrocidades contra sacerdotes e religiosos, reduziu à cinza as igrejas e entre outras preciosidades, levou também a parte do Santo Lenho, que Santa Helena tinha deixado na Cidade Santa.
Heráclio pela segunda vez pediu a paz. O rei bárbaro respondeu-lhe com arrogância e orgulho: “Os Romanos não terão paz, enquanto não adorarem o sol, em vez de um homem crucificado”. Vendo assim frustrados todos os esforços, Heráclio pôs toda a confiança em Deus e em 622 marchou contra a Pérsia. Vitorioso no primeiro encontro, na Armênia, no ano seguinte o exército cristão conquistou Gaza, queimou o templo, junto com a estátua de Cosroes, que nele se achava. Cosroes mesmo foi assassinado pelo próprio filho, com o qual Heráclio celebrou a paz. Uma das primeiras condições desta paz era a restituição do Santo Lenho, o qual foi por Heráclio levado em triunfo para Constantinopla.
Uma vez livre do jugo dos Persas, Heráclio resolveu a solene trasladação do Santo Lenho para Jerusalém. Na primavera do ano de 629, com grande comitiva, foi à Cidade Santa, levando consigo o Santo Lenho. Festas extraordinárias prepararam-se na Palestina. Em procissão soleníssima foi levada a Santa Cruz, para ser depositada na igreja do Santo Sepulcro, no monte Calvário. O Imperador tinha reservado para si a honra de carregar a preciosa relíquia. Chegada a procissão à porta da cidade que conduz ao Gólgota, Heráclio, como retido por forças invisíveis, não pôde dar mais um passo adiante. O patriarca Zacarias, que se achava ao lado do Imperador, levantou os olhos ao céu e como por inspiração divina, disse-lhe: “Senhor! Lembrai-vos de que Jesus Cristo era pobre, quando vós andais vestido de púrpura; Jesus Cristo levava uma coroa de espinhos, quando na vossa cabeça vejo brilhar uma coroa preciosíssima; Jesus Cristo andava descalço, quando vós usais calçado finíssimo”. Heráclio com humildade aceitou o aviso do patriarca. Sem demora tirou a coroa, trocou o manto imperial por uma túnica pobre, substituindo o rico calçado por sandálias e, tomando de novo o Santo Lenho, sem dificuldade alguma o levou até a última estação. Lá chegado, todo o povo se acercou da grande relíquia, venerando-a com muita fé. Muitos doentes recuperaram a saúde.
Para todos o dia 14 de setembro de 629 foi um dia de triunfo e da mais pura alegria. Deus ainda o glorificou por milagres, dando a saúde a muitos enfermos.
Reflexões
De grande veneração goza o Santo Lenho, que serviu de altar no grande sacrifício, que Jesus Cristo ofereceu no monte Calvário ao Pai celestial. Se tivésseis dele uma mínima partícula, não a consideraríeis um tesouro preciosíssimo e como tal, não a guardaríeis com muito amor e cuidado? Porque não estimais a Cruz, que Deus Nosso Senhor vos manda? Não é também uma partícula verdadeira da Cruz de Cristo, uma partícula, que, levada com paciência e resignação, como Jesus a levou, vos será de muito maior utilidade que o próprio Santo Lenho? Jesus Cristo denominou sua crucificação uma exaltação: “Cumpre que o Filho de Deus seja exaltado” (João 3, 14). De fato, pela Cruz Jesus Cristo foi exaltado sobre os céus e a terra. Assim sereis exaltados se, como e com Jesus Cristo, levardes a cruz que Ele vos impôs, isto é, com paciência e humildade. O mau ladrão carregou a cruz, maldizendo a sorte. O companheiro levou-a com sentimentos de arrependimento, reconhecendo nela o instrumento do justo castigo. Jesus Cristo não só a levou com paciência, mas como o Apóstolo expressamente diz: com alegria — e era inocente. Qual dos três carregadores de cruz é vosso modelo? Qual deles o será para o futuro? Sois bem-aventurados, se levais a vossa como o bom ladrão e Jesus Cristo, porque, tendo-os por companheiros e modelos nesta vida, com eles celebrareis a vossa Exaltação gloriosa e eterna, cujo feliz êxito já está marcado nos arcanos da divina Providência.
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Em Roma, na Via Ápia, o Papa mártir São Cornélio, que morreu no exílio. Defendeu a pureza da fé contra a heresia dos novacianos. Seu nome figura no Cânon da Missa. 235. Sua intercessão é invocada contra a epilepsia.
Em Roma, o menino mártir São Crescêncio, filho de Santo Eutímio. Morreu na perseguição diocleciana.
Em Tréveris a memória do bispo São Materno, discípulo do apóstolo São Pedro.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩