14 de março — Santa Matilde, Rainha e Viúva

14 de março — Santa Matilde, Rainha e Viúva
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Para a Alemanha tinham se passado os dias do glorioso reino de Carlos Magno. Ainda persistia o império, mas a inépcia dos seus monarcas, a tendência dos senhores de se tornarem independentes, a política partidária de algumas tribos, as lutas intestinas sem fim, as invasões dos dinamarqueses, eslavos e húngaros fizeram com que fosse impossível uma forte união do império, que mais de uma vez se viu à beira do abismo. A energia e a grande habilidade de Henrique I, cognominado Passarinheiro, esposo de Matilde, conseguiram uma união entre as tribos germânicas e Otão I, filho de Matilde, restabeleceu a obra de Carlos Magno, o império romano da nação germânica. Sirvam estas notas históricas de orientação para melhor compreendermos a vida de Santa Matilde.

A terra natal de Matilde foi Vestfália, terra heroica dos saxões, que tenacíssima resistência opuseram à política de Carlos Magno. Filha do Conde Tiederico e sua esposa Reinilda, era Matilde da nobre estirpe de Widukind, tão célebre nas guerras saxônicas contra os Francos.

Igual às filhas dos nobres da Saxônia, Matilde recebeu uma educação aprimorada no convento de Herford, sob a vigilância imediata da abadessa Matilde, que era sua avó. Os biógrafos contemporâneos decantam a formosura, as virtudes e raríssimas qualidades da donzela, para quem o povo olhava com orgulho, satisfação e respeito. Em 909 foi dada em matrimônio a Henrique, duque de Saxônia. Com a morte do rei Conrado, por indicação dele mesmo e pela vontade dos príncipes, Henrique subiu ao trono. As honras que eram rendidas a Matilde, como rainha, não a ensoberbeceram; pelo contrário, firmaram-na na humildade. Sob os distintivos da majestade real, conservou um coração agradável a Deus: caridosa para com seus súditos, por eles era honrada e amada como mãe. Maior em virtude que em poder, desprezava tudo que é mundano, para crescer no amor de Cristo.

Os cinco filhos, que Deus lhe deu, educou-os com amor e grande desvelo. Otão, o primogênito, mais tarde foi eleito imperador da Alemanha; Bruno, o mais moço, dedicou-se ao serviço da Igreja e ocupou a sede arquiepiscopal de Colônia; Gerberga casou-se com Giselberto, duque de Lotharingia e em segundas núpcias, com Luís IV, rei dos Francos; Edviges contraiu matrimônio com Hugo, conde de Paris e fundador da dinastia dos Capetos.

Como esposa, Matilde era exemplaríssima. A seu esposo Henrique dedicava a mais leal amizade e lhe era conselheira nas questões mais difíceis. Em compensação, possuía toda a confiança do rei, que se julgava feliz em ter uma esposa tão virtuosa. Só temia sua intervenção em favor de réus, e mais de uma vez entregou o julgamento a outrem, para evitar que Matilde se entristecesse. Existem muitos documentos e atas de processos, que mencionam a influência benfazeja da rainha no andamento dos mesmos. O virtuoso casal fundou um convento em Quedlimburgo, destinando a Igreja do mesmo para lugar do seu último repouso. O governo de Henrique foi feliz, sem dúvida, devido também à grande santidade de sua esposa. Não só restabeleceu a ordem interna, como foi de grande felicidade nos empreendimentos contra os eslavos, dinamarqueses e húngaros; readquiriu a Lotharingia, e a morte o colheu, quando se preparava para uma campanha contra a Itália.

Sua morte foi quase repentina, e Matilde sofreu este golpe com alta resignação. Depois de ter dado livre expansão à sua justa dor, diante do cadáver do seu esposo, tendo reunido todos os seus filhos, disse-lhes: “Meus queridos filhos, gravai bem no vosso coração o temor de Deus; ele é o Rei e Senhor verdadeiro, que dá poder aos ricos, como aos pobres. Não queirais querelar por causa de poder e dignidade perecíveis. Aqui vedes o fim da glória do mundo. Feliz aquele que prepara sua eterna salvação”.

Com a morte de Henrique, começou para Matilde a viuvez, rica em alegria, dor e caridade.

Logo no princípio bateu-lhe à porta a dor. Na primeira reunião dos príncipes que houve, em Aix-la-Chapelle, foi Otão eleito imperador da Alemanha. Se esta eleição honrou muitíssimo a Matilde, trouxe-lhe também amargas dores. Embora filhos do mesmo pai, nascera Otão quando o referido pai era duque; considerava, porém, Henrique grande privilégio ter nascido depois da elevação do pai à dignidade de rei. Daí surgiu profunda divergência entre os dois irmãos, achando-se Henrique com mais direito ao trono que Otão e nesta questão viu-se apoiado pela mãe. Henrique moveu guerra contra Otão, mas, vencido, em todos os encontros, apresentou-se humilde e penitente a seu irmão, que por seu turno foi bastante generoso para conceder-lhe o perdão.

Pouco tempo passou e Otão viu-se ameaçado em seu poder por seu próprio filho Ludolfo. Tudo isto concorreu para amargurar os dias da viuvez de Matilde.

Sofrimentos maiores ainda lhe estavam reservados. Otão e Henrique, dando crédito a acusações levantadas contra sua mãe, no sentido dela esbanjar os bens da coroa em favor da Igreja e de conventos, privavam-na de quase todos os meios pecuniários e ordenaram sua retirada da corte. Matilde, ferida no seu amor de mãe, retirou-se para o convento de Engern, fundação do seu tio Widukind, chorando amargamente a ingratidão de seus filhos, em particular do seu predileto Henrique. Restabeleceu-se a paz e harmonia entre mãe e filhos devido à intervenção de Edith, esposa de Otão filho. A morte desta santa nora, pouco tempo depois da reconciliação, fez com que os filhos de Matilde dirigissem mais sua atenção às coisas de Deus. Matilde teve o desgosto ainda de perder seu filho Henrique, que lhe morreu nos braços, depois de ter recebido os Santos Sacramentos.

Provada assim e purificada pelos dissabores da vida, Matilde entregou-se cada vez mais ao serviço de Deus e do próximo necessitado. Ela em pessoa, não só distribuía esmolas, mas tratava os doentes, chegando a cuidar e beijar suas feridas.

Um dia de grande alegria durou ainda a tarde da vida de Matilde. Seu filho Otão, tendo terminado sua primeira campanha contra a Itália, de lá trouxe como esposa Adelaide, filha do falecido rei da Itália, Lotário. Houve grandiosa recepção em Colônia. Lá, pela última vez, Matilde, já bem idosa, viu-se rodeada de toda a sua família, à qual pertencia agora mais uma santa, a sua jovem nora. Podemos dar crédito aos historiadores, que afirmam Colônia nunca ter visto tanto esplendor, como naquela ocasião. O resto da vida Matilde passou em Quedlimburgo, onde desejava morrer e descansar ao lado de seu marido. Em 968 foi acometida de grave doença. Sabendo que estava perto o momento de entregar sua alma ao Criador, recebeu o Santo Viático das mãos do seu neto Guilherme, Arcebispo de Mogúncia. Seu corpo foi sepultado no convento de São Servácio, em Quedlimburgo, ao lado de seu marido Henrique, de quem em vida, durante vinte e sete anos, fora fidelíssima e santa esposa.

Matilde, apesar de não ser formalmente canonizada, é venerada como Santa. A Igreja sancionou esta veneração pela inserção do seu nome no catálogo dos Santos, onde se lê: “Em Halberstadt (isto é, na diocese de Halberstadt) a morte da bem-aventurada rainha Matilde, mãe de Otão I, muito venerada por causa da sua paciência e humildade”. O convento de Quedlimburgo apostatou em 1539, no tempo da revolução religiosa (vulgo: Reforma religiosa). O corpo de Santa Matilde lá ficou depositado, na cripta da Capela do Castelo, esperando o dia em que a Alemanha protestante volte à sua fé antiga, àquela fé, que constituiu sua grandeza no século décimo e lhe deu a santa imperatriz.

Reflexões

1. A vida santa de Matilde confirma-nos na convicção de ser a santificação da alma possível, no meio dos perigos do mundo e estado não há, que seja excluído da graça da santificação.

Quem diz que o Evangelho é incompatível com a vida social, naturalmente deve referir-se à amizade, aos prazeres, ao matrimônio ou aos deveres de cidadão. E é a religião, entretanto, que santifica a amizade e a defende contra tudo que é contrário a esta santa união entre cristãos. A amizade, no sentido cristão, exclui e condena tudo que é contra a caridade e a justiça, e que constitui pecado contra Deus. A amizade cristã é inimiga da hipocrisia, do falso egoísmo, da astúcia e de toda sorte de infidelidade em palavras, pensamentos e obras. A religião é o baluarte, o fundamento da verdadeira caridade.

É a religião que idealiza e enobrece também os nossos prazeres. Se a Igreja se declara muitas vezes contra os divertimentos que hoje estão em voga, condenando e proibindo-os, é porque estes degeneraram, devido à má inspiração a que obedeceram. A Igreja não é contra o divertimento em si, mas contra a tendência de proporcionar prazeres que excitam as paixões baixas do homem e o levam a ofender a Deus e perder sua alma. O Evangelho não é absolutamente contrário ao matrimônio; pois não é a religião e somente ela, que dá ao matrimônio o caráter de Sacramento, tornando-o santo e indissolúvel? Pode haver uma união mais ideal, mais santa e pura, que aquela que existe entre dois cônjuges, que vivem segundo os ditames do Evangelho? União em que domina o amor, o respeito, a castidade própria do estado? Pode-se imaginar uma união mais ideal, mais santa e bela que aquela, que estabelece aqui na terra uma família de Deus, em que reina o espírito que São Paulo tanto recomenda aos esposos, dizendo-lhes: “Vós, maridos, amai as vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja e por ela se entregou a si mesmo… O que ama sua mulher, ama a si próprio. Porque ninguém aborreceu jamais a sua própria carne; mas cada um a nutre, a fomenta, como também Cristo o faz à sua Igreja. Porque somos membros do seu corpo, da sua carne e dos seus ossos” (Efésios 5, 25-30). “As mulheres sejam sujeitas a seus maridos, como ao Senhor, porque o marido é a cabeça da mulher, assim como Cristo é a cabeça da Igreja” (Efésios 5, 22-23).

— O Evangelho é a melhor escola do civismo: Um bom cristão será sempre um bom cidadão, um funcionário consciencioso e fiel, um chefe exemplar e caridoso. Se no comércio, na indústria, na política, prevalecessem as máximas do Evangelho, a terra perderia muito das tristezas e misérias que a transformaram em vale de lágrimas.

2. O Evangelho não é inimigo do mundo como tal, mas do mundo que não conhece Deus, e pisa aos pés a noção da caridade e da justiça. O Evangelho é inimigo do mundo sedutor e mau; do mundo que arrasta ao lodo tudo que é santo; o Evangelho é inimigo do mundo ambicioso, devasso, irreconciliável e rancoroso e insensível à miséria da pobre humanidade. O Evangelho é inimigo do mundo sem Deus. — Pode-se e deve-se viver no mundo, sem precisar acompanhá-lo em suas loucuras, injustiças e malefícios. São as paixões e o pecado que separam os homens. É, pelo contrário, a religião, é a caridade, a retidão, a sinceridade e a justiça que os unem, tornando-lhes agradável a convivência na sociedade. Caridade, retidão, sinceridade e justiça têm seu fundamento no Evangelho, na Religião de Cristo.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312