14 de maio — São Bonifácio de Tarso, Mártir
14 de maio — São Bonifácio de Tarso, MártirExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
No princípio do século IV, vivia em Roma uma jovem cristã, formosa e rica, de nobre descendência, chamada Aglaé. De moral duvidosa e frívola, mantinha ela relações ilícitas com seu administrador Bonifácio.
Depois de muitos anos de má vida, Aglaé sentiu em sua alma o bafejo salutar da graça divina e, movida de remorsos, disse a Bonifácio: "Sabes em que abismo nós nos precipitávamos, sem que nos lembrássemos das contas, que deveremos prestar a Deus, no fim de nossa vida? Ouvi dizer que, honrando aqueles que sofreram pelo nome de Jesus, participa-se de sua glória. Tive notícias de cristãos do Oriente que, no combate contra o demônio, dão a vida pela fé. Vai e traz algumas relíquias daqueles mártires, para nós aqui as venerarmos e nos salvarmos pela sua intercessão".
Bonifácio, dispondo-se para a viagem, disse a Aglaé: "Se for possível obter relíquias daqueles mártires, eu as te darei. Mas, se em vez das relíquias de outros, te trouxessem o meu corpo, como corpo de mártir, quererias recebê-lo?" Aglaé tomou estas palavras por um gracejo e reiterou seu pedido.
Embora grande pecador, possuía Bonifácio boas qualidades. Hospitaleiro, tinha grande compaixão dos pobres, aos quais dava grandes e generosas esmolas.
Tocado pela graça divina, pôs-se a caminho para o Oriente e chegou a Tarso, na Cilícia. Passava por aquela região a fúria da perseguição contra os cristãos, decretada por Diocleciano e continuada por Galério e Maximino.
Bonifácio mal tinha chegado a Tarso quando foi testemunha dos tratos desumanos, que o governador Simplício dava aos pobres cristãos. Eram vinte vítimas que, por não quererem abandonar sua fé, eram barbaramente torturadas.
Bonifácio, vendo aquele espetáculo, resolutamente se dirigiu aos mártires, abraçou-os com muita caridade e exclamou: "Grande é o Deus dos cristãos; grande o Deus dos mártires. Peço-vos a vós, servos de Cristo, para que eu, com a mesma coragem, possa vencer o demônio e ter parte na vossa glória!" Dizendo isto, prostrou-se aos pés daquelas vítimas do furor imperial, beijou as cadeias e disse: "Combatei valorosamente, heróis e confessores de Cristo, calcai aos pés a Satanás, e sede, perseverantes mais um pouco. Grande é a luta, mas doce o descanso; tremenda é a dor, mas alegria indizível vos espera".
O juiz, tendo notícia do procedimento estranho de Bonifácio, mandou chamá-lo à sua presença e disse-lhe: "Quem és tu, que te atreves a desprezar minha sentença?" Bonifácio respondeu: "Eu sou cristão e tendo a meu Senhor Jesus Cristo por padroeiro, pela graça divina desprezo a ti, como à tua sentença". O juiz: "Como te chamas?" — Bonifácio: "Já te disse que sou cristão; meu nome é Bonifácio". — O juiz: "Antes de pronunciar sentença contra ti, és intimado a queimar incenso aos deuses". — Bonifácio: "Já sabes que sou cristão e aos demônios e ídolos não presto homenagem; faze o que entenderes; aqui está meu corpo".
Estas declarações irritaram o governador de tal maneira, que ditou a Bonifácio um martírio horroroso. Primeiro mandou suspender seu corpo e bater com varas e ferros com tanta crueldade, que os ossos do mártir em muitos lugares ficaram expostos.
Depois de uma hora de tortura, disse à vítima: "Miserável, sacrifica aos deuses e tenha pena de ti". Bonifácio retorquiu: "Não te envergonhas, infame, de exigir de mim, quando sabes que não quero saber dos teus caducos deuses?" O juiz, cada vez mais furioso, ouvindo mais estas palavras de Bonifácio, ordenou que lhe metessem ferros pontudos entre a carne e as unhas. Sofrendo este tormento, o mártir levantou seus olhos ao céu, pedindo a Deus força e coragem. Logo em seguida, os algozes fizeram os preparativos para deitar chumbo derretido na boca da vítima.
Prevendo este novo martírio, Bonifácio exclamou: "Graças vos dou, Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus! Vinde em auxílio do vosso servo e dai-lhe a vitória nestes tormentos. Não permitais que eu sucumba na luta contra este juiz desumano. Sabeis que sofro por vosso nome".
Dirigindo-se aos outros mártires, disse-lhes: "Peço-vos, servos de Jesus Cristo, que rogueis por mim!" Os mártires responderam-lhe: "Nosso Senhor Jesus Cristo mande o seu Anjo e livre-te das mãos deste ímpio juiz, termine a tua peregrinação, e escreva teu nome entre os seus primogênitos". Entre a grande multidão dos espectadores levantou-se um grande tumulto e muitos exclamaram: "Grande é o Deus dos cristãos e grande o Deus dos mártires. Cristo, Filho de Deus, salvai-nos! Nós cremos em Vós e a Vós nos refugiamos! Morram os deuses dos pagãos!" O povo destruiu o altar e atirou pedras contra o juiz e seus algozes, que, espavoridos, deitaram a fugir.
No dia seguinte, Simplício tornou a citar Bonifácio: "Miserável, que tolice é esta, pôr tua confiança num homem que, como malfeitor, terminou sua vida na cruz?" — Bonifácio: "Cala-te, infame, e não te atrevas a abrir tua boca contra meu Senhor Jesus Cristo. Maldição sobre ti, serpente das trevas, velho endiabrado! Meu Senhor Jesus Cristo sofreu só para salvar o gênero humano".
Simplício mandou preparar um novo tormento, condenando o mártir à morte em azeite fervente. Bonifácio, porém, persignou-se com o Sinal da Cruz. No mesmo momento desceu um Anjo do céu, que frustrou a obra do ímpio juiz. Tomado de susto e medo, Simplício deu ordem para que Bonifácio fosse executado pela espada. Assim aconteceu.
Muito admirados ficaram os companheiros de Bonifácio, que com ele tinham vindo de Roma, quando souberam da morte de seu patrão. Só deram crédito, quando viram a cabeça decepada do mártir. Por uma soma bem avultada compraram o cadáver, embalsamaram-no e levaram-no consigo.
Aglaé teve a aparição de um Anjo que lhe disse: "Aquele que foi teu empregado, agora é nosso irmão. Recebe-o como a Nosso Senhor Jesus Cristo e dá-lhe sepultura. Por sua intercessão te serão perdoados os teus pecados". Cheia de alegria, foi ao encontro do santo mártir e sepultou-o uns cinco estádios fora de Roma.
O túmulo de Bonifácio foi glorificado por muitos milagres. Aglaé separou-se do mundo e de suas vaidades e distribuiu entre os pobres a sua grande fortuna. Deu a liberdade aos seus escravos e retirou-se com algumas donzelas, para servir a Nosso Senhor, numa vida de penitência. Ainda em vida fez grandes milagres. O seu trânsito deu-se em 320, isto é, vinte anos depois da morte de Bonifácio e o seu corpo foi sepultado ao lado do glorioso mártir.
Reflexões
1. Bonifácio e Aglaé, ambos grandes pecadores e profanadores do que o cristão tem de mais santo: o corpo e a alma, tiveram a graça da conversão. Bonifácio morreu até mártir pela religião. A conversão de um escravo do vício da impureza é considerada geralmente um grande milagre, que não se realiza muitas vezes. A conversão de Bonifácio e Aglaé é um grande fato, que Deus estabeleceu, para mostrar aos pecadores, que motivo nenhum existe para se entregarem ao desânimo ou ao desespero. "Deus não despreza um verdadeiro penitente. Enquanto tivermos vida, o perdão dos nossos pecados é coisa possível, desde que nos resolvamos a fazer penitência." (Santo Agostinho). O mesmo Santo escreve: "Deus franqueou-nos o porto da penitência, para nos preservar do perigo que há no desespero. O dia da nossa morte está determinado nos planos de Deus, sem que dele tenhamos conhecimento; assim nos acautelemos e não nos embalemos numa esperança presunçosa".
2. Embora vivesse em pecados, Bonifácio grandes esmolas dava aos pobres, condoendo-se da triste sorte dos menos afortunados. É provável que sua caridade lhe tenha merecido a graça da conversão. A esmola abre-nos o caminho da misericórdia divina, disse o Arcanjo São Rafael. É neste sentido que acreditamos no valor expiatório da esmola. Quem vive pecando, não despreze as obras de misericórdia e de caridade, porque fazer caridade é fazer penitência; e a penitência é uma cooperação ativa com a graça da assistência, que Deus não nega a ninguém. "Se não fizerdes penitência — diz Nosso Senhor — perecereis todos igualmente." (Lucas 13, 3).
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩