14 de abril — Santa Lidvina

14 de abril — Santa Lidvina
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Santa Lidvina foi uma das poucas almas privilegiadas por Deus, chamada e destinada pela divina Providência a seguir seu divino Esposo, no doloroso caminho do sofrimento. Natural de Schiedam, cidade dos Países Baixos, era Lidvina filha de pais pobres, porém religiosos e honestíssimos.

Sua infância trouxe já o cunho de profunda religiosidade, manifestando-se esta numa admirável devoção à Santíssima Virgem. A imagem de Nossa Senhora exercia uma atração tal sobre o coração da menina, que esta, cada vez que seu caminho a conduzia defronte da igreja, nela entrava para saudar, com uma Ave Maria, sua santa e divina Mãe. Quando, em certa ocasião, se demorou mais do que era de costume, e esta demora tivesse causado embaraço em casa, a mãe a repreendeu. Lidvina desculpou-se com toda simplicidade, dizendo que Nossa Senhora a tinha olhado com tanta ternura, que se deixou ficar ao pé do altar.

Tendo apenas 12 anos de idade, era Lidvina uma menina lindíssima, e por este motivo não lhe faltaram admiradores, entre os jovens do lugar. Seus pais nutriam o desejo e a esperança de sua filha tratar casamento com um dos mais ricos pretendentes. Lidvina, porém, rejeitou todas as propostas, por mais lisonjeiras que fossem, declarando-se esposa de Cristo, a quem desejava guardar fidelidade até a morte. Para se ver livre dos pedidos de casamento, rogou a Deus que lhe tirasse a beleza do rosto e toda a formosura. Deus ouviu os rogos de sua serva de um modo singular. Apreciadíssimo é na Holanda o divertimento da patinação. Era no dia 2 de fevereiro de 1395, festa de Nossa Senhora das Candeias, quando Lidvina, acedendo ao convite de suas companheiras, com elas se dirigiu ao lugar da patinação. Lidvina contava 15 anos. Aconteceu que, estando a apreciar as evoluções daquele esporte, de repente recebeu um fortíssimo empurrão por uma companheira, que não a tinha visto. O golpe, de todo inesperado, fê-la cair com tanta infelicidade, que se fraturou uma das costelas. Foi esta a primeira estação do caminho da cruz, que terminou com a morte, 38 anos depois. Lidvina teve de sujeitar-se aos mais dolorosos tratamentos, durante aquele tempo todo, sem que a ciência médica tivesse conseguido aliviar a sua triste sorte. As dores generalizaram-se sobre o corpo todo. Não havia órgão que estivesse funcionando normalmente. Os pulmões, rins, estômago, fígado, apresentaram sucessivamente sintomas, os mais alarmantes de moléstia gravíssima. A insônia era sua companheira inseparável, passando-a enferma e quase sem se alimentar. Muitas pessoas julgavam extraordinário seu estado e não faltava quem o atribuísse a influências diabólicas.

Não foi coisa fácil para a pobre doente, principalmente nos primeiros anos de sua enfermidade, se conformar com a vontade de Deus, e sofrer tudo com paciência. Sua situação tornava-se ainda mais aflitiva, faltando quem a animasse e consolasse, confortando seu espírito com palavras estimulantes e dando-lhe uma direção firme, prudente e santa. Além disto, a grande pobreza, em que viviam seus pais, fez com que sofresse, às vezes, dolorosas privações das coisas mais necessárias.

Deus se compadeceu de sua serva, enviando-lhe um confessor e diretor espiritual exemplaríssimo, que conseguiu dirigir a atenção de sua penitente à Sagrada Paixão e Morte de Nosso Senhor, mistério este em que seu espírito achou conforto, consolo e orientação segura. A meditação frequente da Sagrada Paixão e Morte de Nosso Senhor, bem como a comunhão frequente, causaram uma grande mudança nas ideias de Lidvina. Não mais teve o desejo de ficar boa, não mais se afligia, faltando o recurso material em seus padecimentos; não mais se ouvia uma palavra de impaciência, não mais se via um gesto de desânimo. Entregue à vontade de Deus, outra coisa não desejava, senão sofrer e crescer no amor de Jesus.

Sua paciência heroica foi a causadora da conversão de não poucos pecadores, os quais, impressionados pelos sofrimentos de Lidvina e sua admirável conformidade, abandonaram a senda do vício e se restabeleceram na graça de Deus. Sem cessar oferecia suas dores a Deus, para alcançar a conversão dos pecadores e pelo alívio das almas do purgatório. Paupérrima, distribuía entre os pobres as esmolas que se lhe davam. Em compensação, Deus cumulou sua serva de graças extraordinárias; assim ficou Lidvina muitas vezes consolada pela aparição do seu Anjo da Guarda, que a consolava e confortava nos seus sofrimentos, mostrando-lhe as delícias do céu e os horrores do inferno e do purgatório. Jesus Cristo e sua Mãe Santíssima dignaram-se de aparecer à santa doente.

Pelo fim da vida, Lidvina foi acometida de hidropisia, e quando a peste fez sua marcha desoladora pelos Países Baixos, não parou diante da porta da pobre padecente. Cálculos renais causavam-lhe sofrimentos atrozes. Já não podia suportar a maciez da cama. Seu corpo parecia uma chaga. Para achar alívio e ter um jeito de ficar deitada, tomou por leito duras tábuas.

A estes sofrimentos juntaram-se outros, causados pela invasão do exército de Philippe de Borgonha na Holanda. A rude soldadesca foi de um procedimento indigno para com a pobre doente. Quando os malfeitores, acusados dos seus crimes, deviam responder à justiça humana, Lidvina protestou, pedindo que a Deus se entregasse a vingança. Assim aconteceu e os miseráveis tiveram um fim desgraçado.

Lidvina teve o grande consolo de receber o aviso da sua morte dos lábios de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nos últimos dias os sofrimentos redobraram. Num dos acessos de vômito, Lidvina desfaleceu e entregou sua alma puríssima ao seu divino Esposo. Era no dia 14 de abril de 1433.

O corpo da Santa, tão maltratado e desfigurado pelas moléstias, cada qual mais grave, depois de morto, retomou toda a sua formosura. Muitos milagres testemunharam sua santidade. As relíquias de Santa Lidvina se acham em Bruxelas.

Reflexões

Durante trinta e oito anos, Santa Lidvina sofreu as dores de doenças cruciantes. Que são trinta e oito anos? Um pequeno lapso de tempo, mas uma eternidade para uma pobre doente, que os passa no fundo de uma cama. Que são trinta e oito anos, em comparação à eternidade? Os trinta e oito anos de sofrimento atroz para Santa Lidvina tiveram seu fim. Quando será o fim dos tormentos dos condenados ao inferno? Nunca. As penas do inferno não têm fim. O inferno é eterno. Agora uma pergunta: Se tivesses certeza que pelo teu primeiro pecado mortal, Deus, por castigo, te mandasse uma doença dolorosa de trinta e oito anos, terias coragem de cometer tal pecado? Porque então pecas tão fria e sossegadamente, quando sabes que cada pecado grave terá por consequência, não uma doença, de trinta e oito anos, mas dores eternas no inferno? — Talvez respondas que esperas poder dar plena satisfação a Deus, pela prática de longas penitências. Os milhares e milhares de pecadores, que agora estão no inferno, não tiveram eles a mesma esperança, o mesmo desejo? O que a eles aconteceu, a ti poderá acontecer. Não é grande imprudência, leviandade imperdoável, expor-se ao perigo de perder a alma eternamente? Lembra-te do inferno e foge do pecado!

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312