13 de março — Santa Eufrásia, Virgem
13 de março — Santa Eufrásia, VirgemExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
A vida de Santa Eufrásia coincidiu com o governo do imperador Teodósio. Antígono, seu pai e Eufrásia, sua mãe, eram parentes do imperador e gozavam de grande simpatia na corte imperial.
Dotados de grande fortuna, além disto, eram bons e fervorosos cristãos. A única filha que possuíam chama-se Eufrásia e, diariamente, agradeciam a Deus esta dádiva preciosa. Ligaram-se, por um voto, de passarem o resto da vida em completa continência, para assim, vivendo como irmãos, poderem dedicar-se mais ao serviço de Deus.
Antígono morreu um ano depois. Eufrásia retirou-se com a filha para o Egito, onde possuía grandes bens. Lá vivia, fazendo muita caridade aos pobres. Entre os muitos conventos que no Egito existiam, havia um que mais lhe agradava por causa do espírito de pobreza que reinava entre os religiosos. Aconteceu que uma vez se demorasse no convento até a tarde. Quando se dispunha para sair, a pequena Eufrásia manifestou grande desejo de ficar. A superiora objetava: “Aqui ninguém pode ficar, a não ser quem prometeu a Deus viver em eterna castidade e pureza virginal”. Eufrásia, ouvindo estas palavras, correu para o Crucifixo, prostrou-se de joelhos e exclamou: “Pois eu me consagro e entrego a meu divino Salvador, e, o meu desejo é viver e morrer aqui no convento como vítima de Seu amor”. A superiora, embora elogiando seu zelo, fez vê-la que a vida conventual era uma vida austera, de sacrifícios, acima das suas forças. Eufrásia, porém, ficou persistente na sua resolução, até que a mãe, vendo em tudo isto o dedo do Espírito Santo, deu seu consentimento e despediu-se da filha, fazendo com isto o maior sacrifício de sua vida.
Embora tivesse só sete anos, Eufrásia acompanhava as religiosas em todos os atos piedosos, com tanta pontualidade, que todas se admiraram. Com os anos crescia em santidade, que era extraordinária. Não havia dúvida que fora por Deus eleita e, entre mil, privilegiada. Pela morte de sua mãe, Eufrásia recebeu uma carta do imperador Teodósio, em que a convidava para realizar o casamento com um nobre senador, a quem tinha sido prometida quando contava apenas um ano de idade.
Na mesma carta, o imperador lhe prometia sua proteção e amizade. Eufrásia, em resposta à missiva, sem hesitação pôs-se a escrever: “Já escolhi o meu Esposo, a quem pertenço para sempre. Não posso dar preferência a nenhum outro que de hoje para amanhã morrerá, enquanto que o meu Esposo é eterno e imortal. Tenho só um pedido a apresentar. Peço a Vossa Majestade que distribua os meus bens entre os pobres, órfãos e as Igrejas; dê a liberdade aos nossos escravos; recompense bem os nossos empregados; perdoe as dívidas aos nossos devedores, para que eu possa mais sossegadamente servir a meu Deus”.
Teodósio, admirado da generosidade de Eufrásia, cumpriu suas ordens e a santa serva de Deus permaneceu no convento.
Se bem que fosse de origem nobre, não havia trabalho na comunidade, por mais humilde e repugnante que fosse, que Eufrásia não fizesse de boa vontade e até de preferência. Ela arrumava as celas, rachava lenha, buscava água para a cozinha e fazia todo o serviço duma criada, como se tivesse nascida para isto. Apesar de tudo, não permitia ao corpo nenhum regalo. Continuamente trazia o cilício e seu leito era o chão duro.
À oração dedicava todo o tempo que a obediência lhe concedia. O espírito mau perseguiu-a com tentações, as mais atrozes, não conseguindo, porém, que Eufrásia declinasse do caminho da virtude.
Tanta dedicação foi por Deus recompensada por graças e dons extraordinários. Um dia apareceu uma pobre mulher com o filhinho paralítico, surdo e mudo, pedindo com muito empenho às religiosas que fizessem uma oração sobre ele. A superiora entregou o doentinho à Irmã Eufrásia e esta o tomou em seus braços, fez o Sinal da Cruz sobre o menino, dizendo: “Quem te criou, te dê a saúde”. A criança foi imediatamente curada. — Havia no convento uma pessoa possessa do demônio. Apesar de manietada de mãos e pés, era o horror de todos que dela se aproximavam. A superiora incumbiu Eufrásia do tratamento da infeliz. A religiosa obedeceu sem réplica. A princípio era recebida com impropérios e maus tratos. Pouco a pouco, porém, acalmou-se a doente e deixou-se guiar como um cordeirinho. Para expulsar o demônio, Eufrásia armou-se de oração e jejum. Confiada em Deus, deu ordem ao demônio de sair do corpo da infeliz mulher. Se bem que muito contrariado e com protestos violentíssimos, largou a sua presa. Antes disto, porém, deu-se o seguinte fato: Uma das religiosas, Irmã Germana, cedendo a ímpetos de inveja por ouvir os elogios que teciam a Eufrásia, por causa do tratamento feliz da possessa, pediu e alcançou a licença, de uma vez levar a comida à escrava de Satanás.
Corajosa, ela aproximou-se da mesma. No mesmo instante, porém, esta lançou-se contra a Irmã, subjugou-a, maltratando-a de tal maneira que até poderia morrer, se Eufrásia não tivesse chegado a tempo, para livrá-la das garras da possessa.
Eufrásia contava trinta anos apenas, quando a superiora do Convento teve uma revelação sobrenatural da morte da Santa e de sua glória no Céu. Esta visão entristeceu-a profundamente. Só a muito custo, e às instâncias repetidas das religiosas comunicou às mesmas o que tinha visto. Eufrásia estava ocupada com a fabricação de pão, quando as Irmãs lhe contaram a visão da superiora. Tomou-se de grande susto, julgando-se muito mal preparada, para comparecer perante Deus. Acalmando-se, porém, entregou-se à vontade de Deus e recebeu com muita humildade os Santos Sacramentos. Vinte e quatro horas depois sobreveio-lhe uma febre muito alta, que pôs termo à sua existência. Júlia, sua mestra de noviciado, assistindo-lhe na hora da morte, pediu-lhe que, uma vez na eterna glória, não se esquecesse dela e da superiora. Eufrásia prometeu-o. Ambas faleceram logo depois e foram sepultadas perto de sua santa Irmã.
Reflexões
1. Se bem que não tivesse ainda a idade que obrigava à lei do jejum; embora tivesse uma vida sem mácula, Santa Eufrásia jejuava, e ao jejum associava a oração e a esmola. Se tua consciência te acusa de faltas graves, motivo bastante tens para observar a lei da penitência, que é o jejum. Para que teu jejum seja agradável a Deus, santifica-o pela oração e pela esmola. “Rezar e jejuar é melhor que amontoar riquezas de ouro”, disse o arcanjo Rafael a Tobias. Conforme a doutrina dos Santos Padres, são estas as três obras que mais agradam a Deus: a oração, o jejum e a esmola. A quaresma é o tempo em que devemos praticá-las com mais afinco.
2. Santa Eufrásia fez a experiência de que as tentações desapareciam logo que as declarava a sua superiora. A mesma observação se faz na vida espiritual, a respeito da luta contra as tentações, às vezes basta dizê-las ao confessor para cessarem. Santo Inácio, referindo-se a este fato, diz que o demônio procede como o malvado que quer seduzir uma jovem honesta. A primeira coisa que este aconselha a sua vítima é ocultar tudo à mãe. Se consegue isto, a vitória é segura. Se, porém, suas intenções forem descobertas e declaradas, não mais ousará se aproximar. Embora não haja nada que nos obrigue a declarar ao confessor as nossas tentações, sempre é de grande utilidade que o façamos. “A doença que o médico não conhece, não pode por ele ser curada”, diz São Jerônimo. O confessor que não conhece o nosso interior, as fraquezas e lutas da nossa alma, pouco serviço pode lhe prestar.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩