13 de julho — Santo Eugênio, Bispo de Cartago
13 de julho — Santo Eugênio, Bispo de CartagoExtraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
O século V foi, para a Igreja africana, um século de dura provação. Chefiados pelo rei Genserico, os vândalos invadiram o norte da África, onde estabeleceram, não só o seu reino, como também o domínio ariano. Devido a esta invasão e à implacável perseguição, que os vândalos faziam aos católicos, a diocese de Cartago ficou acéfala, durante vinte anos. O primeiro Bispo, que depois desse interregno assumiu a direção da Diocese, foi Eugênio, homem de grande saber e santidade. Como Bispo, possuía todas as qualidades, que as condições dificilíssimas da época exigiam dum Pastor do rebanho de Cristo. Aos católicos inspirava amor e impunha respeito aos inimigos. Vivia em pobreza, para poder socorrer os pobres.
Vendo-lhe a grande influência sobre ricos e pobres, os arianos denunciaram-no, pelo que o rei Hunerico (filho e sucessor do rei Genserico) lhe proibiu a pregação da doutrina. Eugênio desprezou essa ordem do rei, dizendo, com o Apóstolo São Pedro: “Cumpre obedecer mais a Deus, que aos homens”. Hunerico começou então a perseguir abertamente os católicos, particularmente os vândalos que se tinham convertido ao catolicismo. Mandou pôr sentinelas às portas das Igrejas, para vedar a entrada a todos que se apresentassem em traje de vândalo. Muitos foram brutalmente espancados e para intimidar o povo, os soldados de Hunerico cortaram o cabelo às mulheres que teimavam conseguir entrada na Igreja. O Bispo Eugênio teve a satisfação de poder observar, que nenhum católico abandonou a fé.
A perseguição tornou-se mais cruel ainda e entre as vítimas, de preferência escolheu os sacerdotes e as pessoas consagradas a Deus. 5.000 bispos, sacerdotes, diáconos e cidadãos católicos dos mais influentes, foram expatriados. As virgens consagradas a Deus foram sujeitas a vexames os mais cruéis e vergonhosos e muitas delas morreram, no meio dos tormentos. Extremamente comovedoras eram as cenas que se davam, na despedida dos bispos e sacerdotes do rebanho. As mães vinham com os filhinhos nos braços e com palavras entrecortadas de soluços, assim se expressavam: “A quem nos entregais, indo vós ao martírio! Quem batizará os nossos filhinhos? Quem nos dará a absolvição dos nossos pecados? Quem benzerá os nossos túmulos? Por que não nos permitem partir convosco?”
Entre os desterrados, não se achava ainda Eugênio. O Bispo, por ordem do rei, havia de ficar para a realização de uma disputa solene, entre ele e os bispos arianos. Eugênio, para não ser julgado por inimigos da fé, exigiu que à conferência fossem admitidos também bispos católicos da Espanha. Ainda não se havia realizado a conferência, quando a Eugênio, em prova da verdade da fé católica, foi dado fazer um grande milagre. Apresentou-se-lhe um pobre cego, de nome Félix, pedindo-lhe que desse a vista. Eugênio fez o Sinal da Cruz sobre o infeliz, que imediatamente recuperou o uso do órgão visual. Esse milagre, em vez de concorrer para a conversão do rei e dos arianos, mais ainda os excitou contra os católicos, que ficaram sendo perseguidos e maltratados com crueldade desumana. Na Mauritânia, os soldados arianos prenderam os católicos que tinham assistido à Missa, celebrada numa casa particular, arrancaram-lhes a língua e cortaram-lhes a mão direita. Esses mártires, embora tão horrivelmente mutilados e sem língua, continuaram a falar. Alguns deles, mais tarde, foram objeto de grande admiração em Constantinopla. Dois dos mesmos — assim conta um historiador daquele tempo — perderam o uso da língua, porque se mancharam com o pecado da impureza. As ruas de Cartago apresentavam, por toda a parte, sinais de crueldade do rei herege.
Era coisa a mais comum, verem-se pessoas mutiladas, com os olhos vazados, o nariz, as mãos e orelhas cortadas.
Finalmente soou também a hora para Eugênio. O Bispo foi desterrado para uma região inóspita da província de Trípoli, onde ficou debaixo da vigilância dum bispo ariano. Este o sujeitou às maiores humilhações e Eugênio, nada mais podendo fazer pela diocese, dedicou-se à vida contemplativa, dividindo o tempo entre a oração, o estudo e a penitência. Do desterro dirigiu ao rebanho uma pastoral, na qual se leem as seguintes frases: “Entre lágrimas vos peço, vos exorto e pelo dia terrível do juízo final, como pela vinda de Jesus Cristo no fim dos séculos, vos conjuro, que permaneçais firmes na profissão da fé católica. Conservai a graça do Batismo e a da Confirmação, e ninguém de vós se aproxime a ser batizado segunda vez. Rezai por nós e fazei jejuns, porque o jejum e a esmola aplacam a ira de Deus. Lembrai-vos sempre do que está escrito: “Não temais àqueles, que têm poder de matar só o corpo”.
Passados anos, Eugênio foi posto em liberdade e de volta à diocese, foi condenado à morte. A sentença, porém, foi comutada em novo desterro. O Santo Bispo teve de ir à França, onde fundou o convento de Albi. Lá morreu em 13 de julho de 505.
Reflexões
Lendo a vida de Santo Eugênio, deparamos com duas coisas, que causam a nossa admiração:
1) A firmeza e constância dos cristãos daqueles tempos na profissão da fé. 2) A sua dedicação aos bispos e sacerdotes.
Os primeiros cristãos punham a fé acima da vida. Preferiam sofrer e morrer, a negar e abandonar a fé. Porque é que a fé, em nossos dias, está tão frouxa? 1) Muitas famílias já não sabem mais ensinar a religião aos filhos e daí resulta uma ignorância cada vez maior, em matéria de religião; 2) Em muitas famílias está completamente extinto o espírito da oração; 3) Os cristãos dos nossos dias já não procuram tanto o que é de Deus, mas o que é do mundo, isto é, honras, riquezas, bem-estar, divertimentos, prazeres da carne; 4) Em vez de conformar a vida com as regras da fé, muitos procuram amoldar a fé ao seu modo de pensar, aceitando só aqueles artigos de fé que pouca influência têm na vida prática, e rejeitando os que se lhe incompatibilizam com o modo de viver.
Quem nega um artigo da fé, nega todos; por exemplo, quem nega o Sacramento da Confissão, nega fé à palavra de Cristo, que instituiu não só este, mas todos os Sacramentos. A fé é uma planta delicadíssima, que deve ser tratada com todo o amor, se não quisermos que murche e morra. Feliz aquele, que, com São Paulo, possa dizer: Pelejei uma boa peleja, acabei a minha carreira, guardei a fé, pelo que me está reservada a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia (II Timóteo 4, 8).
2. Onde há fé, necessariamente haverá respeito ao sacerdócio. O sacerdote é outro Cristo. Ao sacerdote é confiada a administração dos meios da salvação. Ele é o maior benfeitor da criança, porque é quem a recebe na família de Deus. É o sacerdote quem ensina a religião e, com ela, implanta nos corações dos homens os princípios de caridade, de justiça, de amor à ordem, de humildade e inocência. É o sacerdote que dá ao pecador contrito a paz da alma, no perdão divino. É o sacerdote que prepara a alma cristã para a viagem à eternidade. O sacerdote, como representante de Jesus Cristo, é o benfeitor da humanidade. Tem por missão a missão de Cristo: a glória de Deus e a salvação das almas. Quem é inimigo do sacerdote, é inimigo da fé, inimigo de Cristo.
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Na Palestina os Profetas Joel e Esdras. Joel fala do juízo de Deus, do Espírito de Deus derramado sobre toda a carne, e o juízo final no vale de Josafá. Esdras era sacerdote e escriba judeu. Reconduziu do exílio de Babilônia os judeus para Jerusalém e reconstruiu o templo. Sua missão principal era restabelecer o culto mosaico, a instrução do povo na lei judaica, a renovação das festas obrigatórias e a abolição do abuso dos matrimônios mistos. Não se sabe ao certo se morreu na Palestina ou na Pérsia.
Na Macedônia São Silas, escolhido pelos apóstolos São Paulo e São Barnabé para pregar entre os pagãos. É provável que tenha pertencido ao número dos 72 discípulos de Nosso Senhor. Os Atos dos Apóstolos dão-lhe o título de profeta. Foi companheiro de São Paulo em algumas viagens apostólicas e visitou São Pedro em Roma. Nada se sabe sobre as circunstâncias de sua morte.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩