13 de abril — Santo Hermenegildo, Mártir
13 de abril — Santo Hermenegildo, MártirExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
No ano de 568 era rei da Espanha Leovigildo, que professava a religião ariana. Seus filhos, Hermenegildo e Recaredo, foram educados na mesma religião. Hermenegildo recebeu a coroa de Sevilha, quando Recaredo ficou em Toledo. Pouco tempo depois de ter subido ao trono, Hermenegildo se casou com Ingonda, princesa da Austrásia, filha do rei Sigeberto I e conhecida como católica fervorosíssima. Tendo Leovigildo perdido a primeira esposa Teodósia, contraiu matrimônio com Goswinda, a qual parecia ter feito voto de empreender todos os meios para ganhar Ingonda à heresia ariana. Nada conseguiu, porém, e Ingonda teve a grande satisfação de converter seu marido ao catolicismo. A cerimônia da abjuração do erro e admissão do rei na Igreja Católica realizou-se com a máxima imponência, na presença do Bispo de Sevilha, São Leandro.
A conversão de Hermenegildo desgostou sobremodo ao pai, o qual o ameaçou com a destronização, caso Hermenegildo não voltasse imediatamente à fé ariana. Hermenegildo, com respeito, mas com franqueza, respondeu ao pai que, na perplexidade em que se achava, vendo-se entre duas obrigações, de obedecer a Deus e ao pai, preferia perder a coroa, a renegar sua fé. O pai realizou sua ameaça e com grande exército, marchou contra Sevilha, a qual, se rendeu depois de uma resistência de um ano. Hermenegildo fugiu. Não achando bom acolhimento da parte dos legionários romanos, dirigiu-se a Córdova e por último a Osseto. Osseto, cidade bem fortificada, parecia poder lhe oferecer abrigo seguro. Com trezentos homens dedicados e valentes, pensou poder resistir aos ataques das forças inimigas. Breve, porém, convenceu-se da inutilidade de se opor a forças muito mais numerosas. Vendo a cidade invadida pelos soldados de seu pai, retirou-se para dentro de uma igreja, esperando que este, respeitando o santo lugar, o tratasse com clemência paternal. Um irmão mais novo, compadecido de Hermenegildo, procurou-o, lançou-se-lhe ao pescoço e, com a voz entrecortada de soluços, pediu-lhe que fizesse as pazes com o pai, de quem podia seguramente esperar o perdão. Hermenegildo, aceitando o conselho de seu irmãozinho, esperou seu pai, que não tardou a aparecer. Para mostrar sua boa vontade, o filho ajoelhou-se diante de seu progenitor e pediu perdão. A tudo isto o pai mostrou muito agrado e convidou Hermenegildo para acompanhá-lo até o acampamento. Lá chegado, mudou sua atitude. Deu ordem para que seu filho fosse despojado de todos os seus adornos reais, mandou pôr-lhe algemas nas mãos e nos pés e metê-lo na masmorra. O tratamento que lá lhe dispensaram, foi o de um criminoso.
Hermenegildo não se entregou, entretanto, ao desânimo. Firme na sua fé, pôs toda sua confiança em Deus, a quem de boa vontade sacrificou tudo o que o prendia a este mundo. Por diversas vezes foi-lhe oferecido o perdão e prometida a liberdade, com a reabilitação completa, com a condição, porém, de abandonar a doutrina da Igreja Católica. Hermenegildo respondeu que preferiria perder o agrado do pai, a sacrificar a graça divina; que antes queria morrer, do que abandonar sua religião. "Não me custa renunciar a uma coroa terrestre, quando tenho garantida a eterna"; com estas palavras, despediu o bispo ariano, que, por ordem de Leovigildo, tinha-se oferecido ao jovem príncipe para lhe dar a comunhão pascal. O pai, sabendo de que modo Hermenegildo tinha respondido ao prelado, foi tomado de tanta ira, que resolveu a morte do filho. Algozes foram mandados ao cárcere, para que comunicassem a este a sentença. Hermenegildo, recebendo tal recado, caiu de joelhos, deu graças a Deus e recomendou sua alma ao Criador. Um dos algozes, com um golpe de espada contra a cabeça, prostrou-o sem vida.
Praticado o crime, Leovigildo sentiu-se perseguido por crudelíssimos remorsos e sinceramente se arrependeu do seu procedimento. Em sua última doença, pediu ao Bispo São Leandro, que instruísse na doutrina católica ao príncipe Recaredo, irmão de Hermenegildo. Ele mesmo, apesar de ter reconhecido a verdade da religião Católica, não se sentiu com coragem de abjurar os erros do Arianismo, não se sabendo os motivos que o retiveram na heresia.
O martírio de Santo Hermenegildo produziu belíssimos frutos. Poucos anos depois, a nação toda, abandonando o Arianismo, se converteu à religião Católica.
Reflexões
Ingonda, a piedosa mulher de Santo Hermenegildo, conseguiu que seu esposo, que era ariano, pouco a pouco se tornasse amigo do catolicismo, se convertesse e morresse na religião verdadeira. Hermenegildo deveu, pois, sua salvação à graça de Deus e à sua esposa. Quanto bem não pode fazer uma piedosa esposa! Como é bonito, se os cônjuges se animam, mutuamente, na prática do bem! Que tristeza, porém, se um afasta o outro do bom caminho, o incita a praticar o mal e o leva à perdição eterna! Católicos, casados com acatólicos, devem envidar todos os seus esforços para conduzir seu cônjuge à verdade da fé católica. É indispensável, porém, que deem bom exemplo, na prática das virtudes cristãs; que tenham uma conduta irrepreensível. Antes de tudo é necessário, que conheçam bem a doutrina católica e nela estejam bem firmes. Aos seus esforços e à prática das virtudes deve se aliar a oração, a oração contínua e fervorosa, para que Deus dê à outra parte a luz e coragem necessárias, para realizar sua conversão.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩