12 de setembro — São Guido, Peregrino

12 de setembro — São Guido, Peregrino
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

São Guido, cognominado "o pobre", nasceu em Brabante, filho de pais pobres, porém piedosos. Não havendo outra fortuna para deixar ao filho, esmeraram-se em dar-lhe uma boa educação. Desde que começam a incutir-lhe os princípios cristãos, convenceram-no da necessidade de temer a Deus e fugir do pecado. Tão boa semente lançada em terreno ótimo, não podia deixar de produzir ótimo resultado. Tão piedoso era Guido, que por todos era chamado o Anjo da aldeia. Satisfeito e contente sempre, nunca se lhe ouviu sair da boca uma palavra de queixa da pobreza. Humilde e respeitoso para com todos, tinha prazer em estar na igreja, em adoração ao Santíssimo Sacramento. Por ser pobre, compreendia a triste sorte dos pobres e de boa vontade repartia com eles as esmolas que se lhe davam.

Certa ocasião devia ir a uma aldeia, distante duas léguas de Bruxelas. Antes de tratar dos negócios, foi à igreja, onde permaneceu uma hora, rezando nos degraus do altar de Nossa Senhora. O vigário do lugar, admirado por ver tão raro espetáculo, interessou-se pelo piedoso jovem e indagou de onde vinha, de que idade era, etc. Pelas respostas o sacerdote conheceu que tinha diante de si um jovem extraordinário, e convidou-o para ser seu sacristão. Guido aceitou a proposta, pois ser sacristão era seu desejo íntimo havia muito tempo. Apesar dos seus quatorze anos, era um servidor do altar tão consciencioso, pontual e em tudo tão exemplar, que todos se edificavam e lhe queriam bem. Inexcedível zelo tinha pela limpeza da igreja, que realmente é a casa de Deus. Guido como tal a amava e reverenciava.

O tempo que lhe sobrava, era empregado em oração. Muitas horas durante a noite passava em presença do Santíssimo Sacramento, adorando o mistério do amor de Deus aos homens. Se o sono o vencia, estendia-se sobre o pavimento da Igreja. Mínimo era o ordenado que recebia. E o pouco que ganhava, repartia ainda com os pobres.

Um negociante de Bruxelas, observando a grande caridade de Guido, convidou-o a ir com ele para Bruxelas, onde, com um ordenado maior que lhe prometia, com mais facilidade poderia socorrer os necessitados. Tão vantajosa lhe parecia a proposta que, sem comunicar a ninguém, abandonou o emprego e entrou a serviço do negociante. Bem depressa, porém, teve de convencer-se da improficuidade da resolução precipitada. Num naufrágio de que foi vítima, perdeu tudo o que possuía, e além disto não lhe podia ficar desapercebido o perigo que corria, de cair em pecados maiores. Resolveu então procurar a solidão, onde viveu mui santamente. Sete anos passou em completa separação do mundo, vivendo das esmolas que almas caridosas lhe davam. Neste tempo fez duas romarias: a Roma e a Jerusalém. De volta para Roma, lá se encontrou com Wonedulfo, decano da Igreja de Anderlecht, que com outros piedosos sacerdotes, se preparava para fazer uma romaria a Terra Santa. Embora fatigado da viagem e bastante enfraquecido, Guido acedeu ao pedido dos peregrinos de fazer-lhes companhia na travessia para Palestina. Apenas tinham chegado à Terra Santa e visitado os Santos Lugares, os peregrinos foram acometidos de uma febre traiçoeira, que os vitimou. Guido tratou-os com grande caridade e assistiu-lhes na hora da morte. Terminada esta missão, voltou para Brabante, como Wonedulfo tinha pedido e transmitiu a notícia da morte dos piedosos peregrinos.

Pouco tempo depois adoeceu também e teve a comunicação de sua morte. Uma noite, estando absorto em profunda oração, a cela encheu-se-lhe de uma luz maravilhosa e ouviu-se esta voz: "Vem, servo meu, bom e fiel, e entra no gozo do teu Senhor, que será tua recompensa". No mesmo dia em que teve esta visão, isto é, em 12 de setembro de 1012, o santo homem morreu.

Os fiéis fizeram-lhe um enterro honrosíssimo. Muitos milagres lhe foram observados no túmulo. Poucos anos depois foi construída uma igreja magnífica em sua honra, e as relíquias foram para lá transportadas com grande solenidade.

Reflexões

1. Tão edificante era o procedimento de São Guido na igreja, que o apelidavam de "Anjo da igreja". Os Anjos fazem guarda de honra na igreja. A sua presença, a presença de Deus no Santíssimo Sacramento deve também a nós incutir o máximo respeito. Oxalá nos convençamos cada vez mais da presença real de Jesus no Santíssimo Sacramento; oxalá a nossa fé neste Santo Sacramento se torne cada vez mais viva! Pois as faltas de respeito na igreja, que se verificam em inúteis conversas, em ostentações de vaidade, têm explicação na falta de fé. Lembremo-nos sempre de que o mesmo Jesus, que agora sofre as nossas irreverências, um dia será o nosso juiz.

2. São Guido não se queixava da pobreza. "É Deus que faz o rico e o pobre", diz a Sagrada Escritura (1. Reg. 2). O rico não tem motivo para elevar-se acima dos outros e desprezar o próximo. "A riqueza é um benefício de Deus, uma esmola que o Senhor do céu e da terra dá. Quem é pobre, não deve murmurar contra Deus, nem invejar o rico, porque direito nenhum lhe assiste de possuir os bens da terra, como Deus nenhum dever tem de lhos dar. O rico cuide de não apegar o coração às riquezas, "porque o amor ao dinheiro é a perdição da alma". O pobre console-se com a palavra do velho Tobias, que dizia: "Meu filho, somos pobres, mas ricos seremos se tivermos temor de Deus, se fugirmos do pecado e praticarmos o bem" (Tobias 4). Quem é rico, faça uso dos bens como a Deus é agradável. O pobre confie em Deus, que se compadece de toda a criatura. Pense que é melhor sofrer por algum tempo com Lázaro e como ele ser levado ao seio de Abraão, do que viver na abundância, como o mau rico e como este ser sepultado no inferno.

Santos cuja memória é celebrada hoje:

A festa do Santíssimo Nome de Maria introduzida por Inocêncio XI no ano de 1683 em memória da vitória sobre os turcos, que ameaçavam a cidade de Viena e a Europa cristã.

O bem-aventurado Gabriel Dufresse, da Companhia das Missões de Paris. Vigário Apostólico de Sichuan, na China, morreu mártir depois de uma vida apostólica de 39 anos naquele país. 1814.

No Japão, o martírio de São Leão Satzuna, catequista. Foi queimado vivo em 1622.

No mesmo país o martírio da bem-aventurada Maria Vaz, esposa do bem-aventurado Gaspar Vaz. Decapitada em 1627 na cidade de Nagasaki.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii