12 de outubro — Santa Pelágia, a Penitente († 457)
12 de outubro — Santa Pelágia, a Penitente († 457)Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
“Eu vim trazer fogo à terra e não quero outra coisa senão que arda” (Lucas 12, 49). — Estas palavras do divino Salvador tiveram fiel cumprimento em Santa Pelágia, a grande penitente de Antioquia.
De beleza raríssima, Pelágia — apelidada a “Pérola” — era atriz e dançarina, o ídolo dos mundanos de Antioquia. Inebriada pelas adulações dos homens, estonteada por um luxo desmedido, levou o culto de si própria a ponto de deificação. O coração de Pelágia, susceptível às vaidades e loucuras do mundo, conduziu-a, passo a passo, a uma vida que justificava exuberantemente a voz pública, que a taxava de pecadora.
Em 453 houve em Antioquia um concílio episcopal, ao qual, a convite do Patriarca Máximo, compareceram oito prelados, entre estes Nono, Bispo de Edessa, célebre pela ciência e santidade.
Um dia, quando o concílio realizava uma sessão no vestíbulo da igreja de São Juliano, e Nono, ocupando o púlpito, extasiava a assembleia pelos arroubos de eloquência, um fato inesperado despertou a atenção de todos: estava passando diante da igreja um préstito esplendoroso, guiado por uma mulher; era Pelágia, que, montada num jumento ricamente enfeitado, passava com o séquito de pajens e cortesãos. Qual rainha do Oriente, ostentava-se em todo o luxo e pompa. Cingia-lhe a cabeça uma coroa cravejada de pedras preciosíssimas; os cabelos soltos escorregavam-lhe em ondas áureas sobre as espáduas; os braços e o pescoço traziam ricos braceletes e colares de opalas e rubis, e do vestido desprendia-se-lhe um perfume balsâmico.
Chegando bem perto da igreja, parou um instante e, lançando um olhar sobre a assembleia, com um sorriso que era difícil dizer-se se de desprezo ou de mofa, continuou o passeio.
Escandalizados e ao mesmo tempo entristecidos pela aparição irreverente da mulher, os Bispos abaixaram os olhos. Nono, porém, olhou firmemente para a pecadora, seguindo-a por muito tempo com o olhar e finalmente disse aos assistentes: “Vistes aquela mulher? Não vos agradou a sua beleza?” Como ninguém respondesse, repetiu a mesma pergunta e acrescentou: “Nada me respondeis? Pois a mim muito agradou. Embora pecadora, foi mandada por Deus para nos humilhar e nos abrir os olhos. Que responderemos nós, Bispos, ao eterno Juiz, se no nosso juízo comparar os nossos trabalhos, o nosso zelo, com os trabalhos e cuidados dessa mulher? Quantas horas não teria despendido para se enfeitar, perfumar e vestir; quanto tempo não se preocupou com mil futilidades; quanto dinheiro não gastou com estas mil coisas, só para agradar aos homens, que hoje são e amanhã não existirão!? Nós, porém, temos um Pai, que nos promete recompensa e glória eternas, se o quisermos amar e servir. No entanto, nenhum cuidado temos com nossa alma; não a adornamos de virtudes, deixando-a antes num estado lastimável de pecado”.
Com os olhos marejados de lágrimas, terminou a oração e, acompanhado pelo diácono Tiago, retirou-se para casa. Ali chegando, se ajoelhou e permaneceu em longa oração. “Ó Jesus — assim orava, — ó Jesus, perdoai a mim, pobre pecador! Perdoai minha negligência de até hoje não ter cuidado de minha alma, como devia ter feito. Como me atreverei a levantar os olhos para Vós? Que proferirei em minha justificação? Pelágia prometeu agradar aos homens e, com a maior diligência, cumpre a promessa. Eu prometi pertencer-Vos e agradar-Vos no vosso santo serviço, mas tenho sido muito negligente no cumprimento dessa promessa solene. Perdoai-me, ó Jesus!”
No domingo seguinte, à estação da Missa solene, o Patriarca pediu a Nono que fizesse uma alocução. Nono obedeceu e tomou por assunto do sermão o juízo final. Falou com tanta convicção, que suas palavras calaram fundo nos corações dos ouvintes. Entre estes se achava Pelágia, que tinha vindo mais por motivo de vaidade e curiosidade, do que para servir a Deus. Quando menina, Pelágia tinha pedido para ser admitida entre as catecúmenas. Depois correram anos, sem que tivesse manifestado o desejo de receber o Batismo. As palavras do pregador, quais marteladas desapiedadas, desmantelaram-lhe por completo a couraça férrea do coração, e aquela, que pouco antes se gabava do pecado, saiu da igreja com a resolução de mudar de vida.
Chegando em casa, pôs-se a escrever a Nono as seguintes palavras: “Ao discípulo de Jesus, uma pecadora. Ouvi dizer que acreditais em um Deus, que desceu do céu para salvar os pecadores. Disseram-me que esse mesmo Deus vosso, feito homem, procurou de preferência os pecadores e até se revelou a uma mulher cananeia. Informaram-me mais que sois discípulo desse Deus. Se assim é, tende compaixão de mim; não me rejeiteis e fazei-me achar o Salvador!”
Nono respondeu-lhe: “Não vos conheço, mas seja quem fordes, a Deus não são ocultos vossos pensamentos e obras; se desejais conhecer a fé divina, podeis vir, e pronto estou para vos receber, suposto que estejam presentes os meus irmãos”.
Satisfeitíssima com esta resposta, Pelágia, pressurosa, dirigiu-se à igreja de São Januário e na presença de muitas pessoas, prostrou-se aos pés de Nono e, com voz entrecortada de soluços, disse:
— Senhor, imitai a vosso divino Mestre; compadecei-vos de mim e fazei-me cristã; lavai-me dos meus pecados com a água do santo Batismo!
O Bispo fê-la levantar-se e disse-lhe:
— As leis da Igreja não permitem a administração do Batismo indistintamente a quem quer que seja. É preciso que apresenteis quem se responsabilize pela vossa perseverança e responda pela seriedade da vossa conversão.
Pelágia, não tendo como fiador senão seu grande arrependimento e desejo de salvar-se, novamente se prostrou diante do Bispo, beijou-lhe o pó das sandálias e disse:
— Senhor, se negardes a misericórdia divina e, alegando exigências de leis humanas, vos recusardes a batizar-me e encaminhar-me para uma vida agradável a Deus, sereis vós o responsável por minha alma e sua eterna condenação.
Os bispos enterneceram-se, ao ouvir estas palavras, e Nono não só a batizou, mas também lhe administrou os sacramentos da Confirmação e da Sagrada Eucaristia.
À presença de Nono, Pelágia trouxe todas as joias e disse-lhe:
— Eis aqui as riquezas de Satanás; peço-vos que as aceiteis e delas façais o que vos aprouver. Doravante, procurarei minha riqueza só em Jesus.
Nono não lançou mão de nenhum ceitil, do que Pelágia lhe entregara, mas distribuiu tudo entre os pobres. A penitente deu a liberdade e o resto da fortuna aos escravos e escravas, e retirou-se de Antioquia.
Os peregrinos que visitavam os Santos Lugares, em Jerusalém, falavam de uma eremita, que ocupava uma pobre choupana no Monte das Oliveiras. De uma formosura não comum, era por todos admirada pelas obras de penitência e grande fervor nos exercícios de piedade. Raras vezes saía da cela, apenas para buscar água e ervas para o seu sustento. Ninguém a conhecia e todos lhe ignoravam a procedência.
Passados três anos, chegou a Jerusalém o diácono Tiago e, por ordem do Bispo, visitou a choupana no Monte das Oliveiras. Batendo à janela, esta se abriu e apareceu uma mulher de semblante de cor macilento e cadavérico e perguntou:
— Irmão, que desejais?
Tiago respondeu:
— O Bispo Nono envia-vos sua saudação no Senhor.
Pelágia replicou:
— Recomende-me às suas santas orações.
Dizendo isto, fechou a janelinha e desapareceu.
Antes de partir de Jerusalém, Tiago bateu de novo na janelinha da mesma choupana, mas não teve resposta. Verificando a causa do silêncio, viu estendido no chão um corpo de mulher. Tiago deu parte à autoridade do ocorrido e tomou as providências para o enterro da falecida. Foi então que reconheceu, nos traços rejuvenescidos da eremita, a “Pérola de Antioquia”.
Virgens consagradas a Deus, de Jerusalém, de Jericó e do Vale do Jordão, afluíram ao Monte das Oliveiras e, com muitas honras, sepultaram sua Irmã penitente.
REFLEXÕES
Há pessoas cujo corpo lhes merece mais atenções e cuidados que a alma. Como Santa Pelágia, antes da conversão, têm os pensamentos presos à vaidade e tornam-se-lhe escravos. O fim é — senão semelhante — a queda desastrosa, pelo menos o afastamento de Deus e da virtude. É justo que o corpo mortal tenha trato, mas em proporção ao valor e à importância que possui ao lado da alma imortal, de que é companheiro. Seria, porém, inverter a ordem das coisas, se os cuidados com o corpo absorvessem a nossa atenção de tal maneira, que os interesses vitais de nossa alma ficassem por completo esquecidos. A palavra de Deus e os santos Sacramentos são o alimento indispensável da alma. A audição de uma única prática ocasionou em Pelágia a mais radical e sincera conversão. Como que iluminada pelo céu, reconheceu o perigo em que se achava, fez penitência e salvou-se. Quem abre a alma à meditação das verdades eternas, não pode perseverar na indiferença. “Lembra-te, ó homem, dos teus novíssimos, e não pecarás eternamente”.
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Em Roma, o martírio de Santo Evágrio, Prisciano e companheiros.
Em Ravena, a morte do mártir Edístio. 303.
Na África, durante a perseguição dos Vândalos, os santos Confessores e mártires, em número de quatro mil novecentos e sessenta e seis, dirigidos pelos sacerdotes Félix e Cipriano. 485.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩