12 de março — São Gregório Magno, Papa, Confessor e Doutor da Igreja
12 de março — São Gregório Magno, Papa, Confessor e Doutor da IgrejaExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
São Gregório Magno, Papa e Doutor da Igreja, nasceu em Roma em 540. Seu pai, Gordiano, era Senador e, como a mãe, Sílvia, pessoa muito religiosa. De mútuo acordo, Gordiano e Sílvia se dedicaram ao serviço de Deus, ele abraçando o estado eclesiástico, e ela retirando-se à solidão, para servir unicamente a Deus. Gordiano recebeu o diaconato e prestou grandes serviços como Cardeal-diácono.
Gregório recebeu uma educação esmerada e distinguia-se entre seus companheiros pelo saber e pela virtude. Tendo 34 anos de idade, o imperador Justino II nomeou-o pretor, primeiro-ministro de Roma. Nesta elevada posição deu altas provas de amor à justiça, de humildade e piedade. Depois da morte de seu pai, renunciou o cargo e fundou sete conventos; seis na Sicília e um em Roma e tomou o hábito de São Bento. Como religioso foi modelo para todos nas virtudes da vida monástica. Em certa ocasião Gregório viu escravos, que tinham vindo da Inglaterra. Sua triste sorte comoveu-o profundamente, e, sabendo que a Inglaterra estava ainda mergulhada nas trevas do paganismo, pediu e obteve licença de se dedicar à obra da missão na Inglaterra. Não chegou ao termo da viagem, quando uma ordem do Papa Pelágio II, o chamou para Roma, onde foi incorporado ao Colégio dos sete diáconos da Igreja. Pouco tempo depois, em missão extraordinária, foi mandado a Constantinopla, de onde voltou para atender à vontade dos seus companheiros de Ordem, que o tinham eleito abade. Deus, porém, tinha-lhe reservado dignidade maior, Pelágio II, morreu em 590. A voz unânime do povo e do clero, na eleição dum sucessor, indicou Gregório, eleição que foi confirmada pelo imperador Maurício e os Bispos do Império. Se bem que tudo fizesse para fugir da grande responsabilidade de Supremo Pastor, Gregório, vendo a inutilidade dos seus esforços, afinal aceitou a nova dignidade, curvando-se perante a evidência da vontade divina.
O pontificado de Gregório traz o estigma da caridade. Caridoso para com todos, era amado como um pai. Católicos, hereges e judeus, a ele se dirigiam cheios de confiança, certos de serem atendidos em suas necessidades.
O nome de Gregório está intimamente ligado à reforma do cantochão, a música litúrgica da Igreja, que é conhecida também sob o nome de canto gregoriano.
Ao lado de uma caridade sem par, vemos no caráter deste grande Papa uma firmeza admirável na defesa da fé e dos bons costumes cristãos. Assim se opôs energicamente às indevidas imposições do Patriarca de Constantinopla; conseguiu do imperador a revogação de um decreto, que excluía funcionários públicos do estado eclesiástico e proibia aos soldados a entrada em uma Ordem religiosa.
Embora de atividade pouco comum, no meio dos negócios da Igreja, não perdia de vista a santificação de sua alma. “Eu estou pronto — assim se exprimia numa carta — para ouvir todos aqueles, que me quiserem fazer a caridade de uma repreensão salutar; considero como amigos só aqueles que possuírem a generosidade de indicar-me os meios de purificar minha alma das manchas que tem”.
Amigo das ciências, procurou despertar, principalmente entre o clero, interesse pelo estudo das mesmas. Na ignorância ele reconhecia a fonte de muitas desordens.
A situação geral da Igreja não era lisonjeira, e requeria um Papa da têmpera de Gregório. Quando ele tomou as rédeas do governo, a Igreja Oriental estava dividida pelos erros de Nestório e Êutiques. Gregório os reconduziu à Igreja-Mãe. A Inglaterra estava nas trevas do paganismo; Gregório para lá mandou os primeiros missionários. Na Espanha o arianismo conseguiu implantar-se na alma da nação, graças ao governo dos Visigodos; mas, Gregório, pôde restabelecer a fé católica em toda sua pureza. A Igreja da África foi liberta do mal dos donatistas, e a França deve a Gregório Magno a extirpação de um grande mal — da simonia. De uma atividade admirável, Gregório Magno achou tempo ainda para compor numerosos livros cheios de sabedoria e santidade. Após um pontificado abençoado de 13 anos, Gregório morreu em 604, na idade de 64 anos.
O diácono Pedro, que possuía toda a confiança de São Gregório, afirma ter visto muitas vezes o Divino Espírito Santo em forma de uma pomba branca descer sobre o Santo Papa. É por este motivo, que a arte cristã apresenta São Gregório Magno com uma pomba branca, pairando-lhe sobre a cabeça.
Reflexões
1. De todos os cargos, os mais penosos são os de superior. O superior, que possui, como São Gregório, humildade e caridade, se considera o último de todos. Não tem o orgulho, que se impõe imperiosamente, extorquindo o tributo da obediência. Um bom superior prefere pedir a mandar; se o dever lhe impõe usar de sua autoridade, é com prudência que a ela recorre. Dos seus direitos só faz uso quando o requer a glória de Deus e o bem das almas. Se for necessário infligir castigo a um súdito, o superior humilha-se em espírito, tomando o último lugar entre os seus semelhantes, imitando o exemplo dos Apóstolos, na direção daqueles que lhe são confiados. Se lhe dão o direito de mandar, como São Paulo prefere dizer: “Pela amizade que me tens, pelo coração e a mansidão de Jesus Cristo, eu te peço e conjuro, se me tens amor, que faças isso”. Se as circunstâncias exigirem uma repreensão ou um castigo, o superior nada fará sem meditar as palavras do Apóstolo: “Se alguém cair em erro, vós, que estais iluminados, procurai instruí-lo e corrigi-lo no espírito de mansidão; leva antes de tudo em consideração tua própria fraqueza, para que não te venham tentações”. Superiores, pais e mães de família, que procederem sempre assim, deixando-se guiar pelo espírito de humildade e caridade, conquistarão os corações, destruirão o pecado e confirmarão a virtude. Os superiores, pais e mães de família, que se queixam de desobediência, de falta de respeito e desregramentos dos seus súditos, devem, antes, levantar acusações contra si mesmos e examinar-se. Quem não aprendeu a ganhar os corações, como Jesus Cristo os ganhava, pela bondade e caridade, e pelo contrário, os repele pelo modo áspero com que os trata, não deve acusar senão a si próprio. A caridade concilia, agrada, cativa; o rigor, a aspereza e a arrogância vexa e irrita, indispõe. “É este o meu mandamento, — diz Nosso Senhor — que vos ameis uns aos outros como eu vos amei”. A caridade de Cristo tinha três qualidades preciosíssimas: era meiga, benevolente e universal.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩