12 de abril — São Sabas, Mártir
12 de abril — São Sabas, MártirExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Da nação dos Godos, Sabas era filho de pais católicos, que se esmeraram em lhe proporcionar uma educação rigorosamente católica. Vivendo no meio de arianos, com o máximo cuidado afastaram do menino todas as influências da heresia. Tiveram, pois, a satisfação de verem seu filho desenvolver-se física e moralmente, sendo ele desde pequeno amigo da oração e das coisas divinas. Não descuidando o estudo das ciências e artes, era ele mestre na ciência dos Santos. Jovem ainda, muito trabalhou pela conversão de idólatras e hereges. Mortos seus pais, destinou grande parte de sua fortuna aos católicos pobres, que sofriam cruel perseguição da parte dos Godos. Corajosamente os defendia, sempre que as circunstâncias o aconselhavam, e seu desejo era um dia alcançar a coroa do martírio.
As autoridades e pessoas de influência, entre os Godos, eram pagãos e tudo faziam para prejudicar a religião cristã. A perseguição começou com a ordem dada aos católicos, de comerem a carne dos animais mortos no culto dos deuses. Pagãos havia que, para salvar a vida de seus parentes católicos, fizeram clandestinamente substituir a carne sagrada por outra comum, enganando habilmente a vigilância dos guardas. Sabas declarou-se francamente contrário a esta praxe e disse não poder reconhecer como cristãos aqueles, que desta maneira pretendiam iludir pagãos e católicos. Este seu enérgico protesto salvou a muitos da queda. Outros, porém, achando que era excessivo seu rigor, fizeram-lhe guerra e obrigaram-no a sair daquela localidade; mas para chamá-lo novamente pouco tempo depois, quando irrompeu uma perseguição mais rude ainda contra o catolicismo. Um emissário do governo apareceu no lugar onde estava Sabas, para descobrir os cristãos. Fora então combinado entre os habitantes de declarar, sob juramento, que ali não existia católico nenhum. Sabas se opôs a esta iniquidade e declarou àqueles que estavam prontos para prestar o juramento: "Quanto a mim, ninguém jure, pois sou cristão". O emissário, sabendo do incidente, citou a Sabas perante a sua presença e intimou-o a fazer declarações sobre sua fortuna. Sabendo então, que Sabas era pobre, que nada possuía além da roupa do corpo, o magistrado tratou-o com desprezo e demitiu-o.
Pela Páscoa de 372, a perseguição recrudesceu. Sabas cuidava de festejar do melhor modo possível a Páscoa. Para este fim, pretendia procurar o sacerdote Gutthica, que residia em lugar distante. No meio do caminho, porém, devido a um aviso do céu, resolveu voltar e celebrar a Páscoa com o sacerdote Sansala. Três dias depois da festa, um bando, chefiado por Athanaric, filho de um príncipe daquela região, assaltou a casa do sacerdote, apoderou-se da pessoa deste e de Sabas, e levaram a ambos, maltratando-os de maneira bárbara. Os ferimentos, porém, infligidos a Sabas não deixaram o menor vestígio, o que grande admiração causou aos perseguidores. Athanaric, porém, em vez de reconhecer a proteção divina, que Sabas visivelmente experimentava, redobrou sua crueldade. Mandou que a este e a Sansala fosse servida carne dos altares pagãos. Ambos se negaram a tomá-la, e Sabas disse: "Esta carne é impura e profana; como impuro e profano é aquele, que no-la mandou". Sabas estava ainda falando, quando um dos soldados, com toda força, arremessou a lança contra seu peito. Os circunstantes julgavam já morto o santo homem, quando este, sem o menor sinal de perturbação, continuou: "Pensas, talvez, que assim me podes matar? O golpe de lança, que contra meu peito dirigiste, não me fez maior mal, que se me tivesses atirado um floco de lã". Athanaric, ainda mais excitado, deu ordem de entregar Sabas à morte.
Sansala recuperou a liberdade. Sabas, porém, foi conduzido à margem do rio para ser afogado. Longe de sentir tristeza, manifestou a maior satisfação, por ter sido achado digno de morrer pela fé. Os soldados, movidos por sentimentos humanos, ofereceram-lhe ocasião de se evadir. Sabas, porém, disse-lhes: "Fazei o que vos foi ordenado. Eu vejo na outra banda o que vós não vedes. Eu vejo ali os mensageiros de Deus, que vieram buscar minha alma e conduzi-la à glória eterna". Os soldados então o amarraram e atiraram-no à água. Este acontecimento teve lugar aos 12 de abril de 372, quando eram imperadores Valentiniano e Valente.
Os soldados tiraram da água o corpo do mártir, deixando-o insepulto na areia. Júnio Sorano, duque da Scythia, e grande servidor de Deus, mandou buscá-lo e decentemente enterrar na Capadócia.
Reflexões
Foi uma grande felicidade para São Sabas, Deus ter-lhe dado bons pais, que solidamente o instruíram nas verdades da santa religião, preservando-o assim do perigo de cair nos erros da heresia. Grave é o pecado dos pais que se descuidarem no cumprimento do dever de ensinar a seus filhos as verdades da religião, principalmente quando existe o perigo da heresia. Peca o católico, quando voluntária e desnecessariamente se expõe ao perigo de perder sua fé, o que acontece com a leitura de livros heréticos, com a convivência com pessoas acatólicas. A leitura de livros heréticos é proibida sob pena de excomunhão.
Sabas era um santo homem e bem firmado na fé. Não obstante, ele fugia do veneno da heresia, como de uma cobra. Muito mais razão temos nós para evitar todo o contato com os hereges, suas obras e sua literatura. "Dado que nos livros dos hereges se encontrem coisas bonitas sobre a piedade e a sabedoria divina, certo é que neles não falta o veneno mortífero", escreve São Leão. Este santo Papa queimou publicamente os livros dos Maniqueus e convidou aos bispos para que fizessem o mesmo. O fato de não mais existirem obras escritas daqueles hereges, prova com que exatidão foi executada a ordem do Santo Padre. Que os hereges protestem contra esta justa repulsa nossa. A nossa intolerância é mais que justificada. A mesma e maior intolerância praticam eles a tudo quanto é católico. Os próprios gentios de Roma proibiam a publicação e divulgação de obras ímpias e irreligiosas. A própria Bíblia conta que em Éfeso os cristãos, animados pela pregação de São Paulo, trouxeram os maus livros e os queimaram publicamente (Atos 19, 19).
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩