11 de outubro — A Maternidade da Santíssima Virgem Maria

11 de outubro — A Maternidade da Santíssima Virgem Maria
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

O cetro de Davi passara para mãos de estranhos: governava, em Israel, o idumeu Herodes, o Grande.

As 70 Semanas de Daniel eram passadas: era chegada à plenitude dos tempos.

“E foi enviado, da parte de Deus, o Anjo Gabriel a uma Virgem desposada com um varão por nome José, da Casa de Davi, e o seu nome era Maria.

E aproximando-se d’Ela o Anjo, diz: Ave, ó cheia de graça, o Senhor é contigo, bendita és tu entre as mulheres. Tu conceberás e darás à luz um filho que chamarás Jesus. Este será grande e será chamado o Filho do Altíssimo. O Espírito Santo descerá sobre ti e por isso o que nascer de ti, Santo, será chamado Filho de Deus. E Maria disse: eis a escrava do Senhor: faça-se em mim segundo a tua palavra”.

Estava consumado o mistério: o Filho de Deus, a quem o Pai gera desde toda a Eternidade, será também, doravante, o filho dos homens. A natureza divina e a humana, embora permanecendo sempre as mesmas e inconfundíveis, começarão a subsistir numa só e mesma pessoa, a pessoa preexistente no Verbo, a Sagrada Pessoa da Santíssima Trindade. Jesus Cristo, “Aquele Homem” que os judeus apontavam como o carpinteiro e filho do carpinteiro, é verdadeiramente o Filho de Deus, é Deus. Maria, a esposa de São José, Nossa Senhora, é a Mãe de Jesus, é a Mãe de Deus.

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Corria o ano 429 da era cristã. Ouvia-se ainda o eco das diabólicas afirmações de Ário e dos maniqueus.

Num dia de festa, em Constantinopla, os fiéis, ávidos de ouvir a sã doutrina, enchiam, por completo, as vastas naves da maior Basílica da Nova Roma.

O Metropolita Nestório, a quem costumavam recorrer as suas ovelhas, que tremiam diante das blasfêmias “dos novos judeus e partidários de Caifás – os Arianos, acabara a função litúrgica e subia vagarosa e solenemente a Cátedra da Verdade. A sua eloquência arrebatadora fascinava os ouvintes – o seu todo de majestade dominava a religiosa assembleia. Todos os ouvidos se preparavam para o escutar. Mas eis que, neste dia, uma desilusão amarga ia ferir todos os corações. Nestório desonra a Cátedra com uma heresia. Os fiéis entreolham-se: aquele sentimento íntimo que o Espírito Santo derrama nas almas e as faz pressentir o erro, a mentira, não chegara ainda a compreender o alcance das obscuras afirmações do seu Bispo. Só se sentia que aquilo não estava bem. Momentos depois, toda a dúvida se dissipa: Nestório blasfemava de Maria. Eusébio de Dorileu, um simples fiel, levanta-se, no meio de ovações de toda a assembleia e proclama as grandezas de Maria. Nestório, não responde: vocifera injúrias e ameaça.

Terminada a pregação, o povo saiu.

O assunto das conversas eram os acontecimentos daquele dia.

Nestório, apesar de tudo, não tinha sido bastante claro e preciso nas suas afirmações. Mas avolumava-se a fama de que não eram retas as suas ideias acerca da União Hipostática e da Maternidade Divina, de Nossa Senhora. Era necessário ouvi-lo, de novo, e ver até onde chegaria a sua audácia e impiedade. O momento não se fez esperar. Nestório, por boca de um seu representante, afirma categoricamente a heresia: "Nossa Senhora não é Mãe de Deus!"

Um grito de horror e reprovação se levantou unânime em plena Basílica: Nestório, blasfemo! E os fiéis armando-se da única arma legítima em tais circunstâncias, protestam saindo da Basílica para não mais lá entrar enquanto ali funcionasse o heresiarca.

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Passaram-se dois anos. Éfeso via entrar, pelas suas portas, cerca de 200 Bispos de todo o mundo. Lá chegaram também os enviados do Papa São Celestino: os Bispos, Arcádio e Projecto, e o presbítero Filipe.

As sessões multiplicam-se; esclarecesse a doutrina, fazem-se repetidas tentativas junto de Nestório para que se submeta e se apresente ao Concílio. Tudo inútil. O heresiarca persiste no erro: o seu orgulho não lhe permite baixar a cabeça.

Finalmente o dogma é definido e Nestório deposto.

“É com o coração a sangrar, dizem os Padres do Concílio, que nós, instrumentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem Nestório ultrajou, o declaramos deposto da dignidade episcopal e expulso do Colégio dos Bispos.

“Se alguém negar… que a Santíssima Virgem é Mãe de Deus, seja anátema”.

A carta do Papa São Celestino ao Concílio, lida por São Cirilo, seu representante, confirma as decisões tomadas. Os Padres, ao findar a leitura do precioso documento, exclamam: Esta sentença é justa. Glória ao novo Paulo, Celestino, Glória a Celestino, guarda da Fé!…

Lá fora, comprime-se a massa enorme dos fiéis que, ao ouvirem a boa nova da condenação do heresiarca Nestório, irrompem em aclamações de alegria. Os Bispos, saudados delirantemente, são levados, em triunfo, aos ombros dos fiéis, à luz de archotes. Cristo vencera a heresia, Maria, a doce Mãe de Jesus, triunfara de Nestório. De todos os corações, saía este grito unânime, em tom de saudação e de súplica: Santa Maria Mãe de Deus

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Eis, a leves traços, o acontecimento que, há mil e quinhentos anos, encheu de alegria a cristandade inteira e se repercutiu pelos séculos afora, cujo Centenário é, para todos os cristãos, um motivo de renascimento espiritual pela devoção a Nossa Senhora, sobretudo para nós, que somos o seu povo predileto.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii