11 de julho — São Pedro Fourier, Confessor

11 de julho — São Pedro Fourier, Confessor
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

São Pedro Fourier nasceu em 1565, em uma pequena aldeia de Lorena, de pais pobres, porém virtuosos. De boa índole, era Pedro uma criança piedosa e pouco afeita aos prazeres juvenis. Nos estudos que fez em Pont-à-Mousson, teve ocasião de revelar os belos talentos e não tardou que, entre todos os condiscípulos, se distinguisse pelo saber e preparo intelectual extraordinário. Como professor e educador, revelava qualidades superiores, tanto que de preferência se lhe confiavam as crianças, às quais sabia incutir amor ao trabalho, temor de Deus e respeito à inocência e pureza da alma. Na idade de vinte anos entrou para a Ordem dos Cônegos de Santo Agostinho, onde ainda mais se dedicou à vida religiosa; fez o curso de filosofia, para um ano depois ser ordenado sacerdote.

O zelo, a virtude do jovem levita, desgostou bastante os companheiros da Ordem, os quais, para se verem livres do incômodo monitor, trataram de afastá-lo. Foram-lhe oferecidas três paróquias, entre as quais escolhesse a que mais lhe agraciasse. Tendo ouvido a opinião de um parente, Pe. João Fourier, da Companhia de Jesus, escolheu não a mais rendosa e menos trabalhosa, mas a que mais trabalho exigia e menos rendimento oferecia. De fato, a freguesia de sua escolha tinha tão boa fama, que era chamada Genebra em miniatura. (Genebra era a sede do calvinismo e cidade corrompida). Três anos trabalhou Fourier naquela paróquia. Pela dedicação, palavra e oração e, antes de tudo pelo exemplo, fez com que se verificasse uma remodelação tal entre os fiéis, que mereceu os maiores elogios dos bispos. Não satisfeito com o trabalho que a paróquia lhe dava, Fourier estendia a sua atividade a outras localidades, onde igualmente conseguiu a conversão de muitos, a reforma dos costumes e a extinção da heresia calvinista. O ducado de Salm, onde imperava o calvinismo, Fourier em menos de seis meses o reconquistou à fé católica. Mais árduo foi o trabalho da reforma nos conventos. Mas, com a graça de Deus e a persistência dos conselhos, conseguiu o restabelecimento da disciplina monástica.

Grande merecimento teve Fourier na fundação de uma Congregação religiosa feminina, dedicada a Nossa Senhora. As religiosas desta Congregação destinavam-se, além da vida religiosa, ao ensino da mocidade feminina. Fourier teve a satisfação de obter para a obra a aprovação apostólica e vê-la difundir-se com grande rapidez.

Ao trabalho da fundação e organização de uma Congregação, associou-se a responsabilidade de superior dos Cônegos Regulares. Também desse cargo Fourier se desempenhou com toda dignidade e máxima competência.

Graves perturbações obrigaram-no a sair de Lorena e domiciliar-se em Gray, na Borgonha, onde se dedicou inteiramente ao ensino da infância.

Mestre abalizado em todas as virtudes, mais se distinguia no amor de Deus e do próximo. À oração pertencia todo o tempo que lhe sobrava dos trabalhos do estado. A maior parte da noite passava-a em exercícios de piedade. Trabalho nenhum começava, sem invocar o auxílio divino. Em tudo que fazia, visava a glória de Deus e o cumprimento da vontade divina. A todos que lhe pediam conselho, recomendava que fizessem sempre o que mais agradasse a Deus. Nada o entristecia tanto, como ver Deus ofendido pelos pecadores. Ele mesmo evitava a mais leve sombra do pecado, o que, aliás, constitui a prova mais positiva do grande amor que tinha a Deus. O amor do próximo era outro característico de sua santidade. Esse amor se revelava no zelo pela conversão dos pecadores, na generosidade, que lhe fazia perdoar e esquecer as maiores injúrias, na caridade com que socorria os pobres e necessitados, no desvelo que dispensa aos pobres doentes.

Sendo eleito superior-geral da Ordem, reservou para si o serviço de enfermeiro. Tratar dos doentes era-lhe uma delícia e, com quanto carinho, com quanta dedicação se entregava a esse ofício, por todos considerado o mais penoso!

Muito maior, porém, era o zelo que tinha pela salvação das almas. Para reconduzir alguém ao caminho da fé e da virtude, para fortalecer outros na prática do bem, Fourier não media sacrifícios. À conversão dos hereges, à penitência dos pecadores, à perseverança dos justos, dedicava muita oração, muita mortificação, e aplicava muitas vezes o santo sacrifício da Missa.

A arte cristã representa São Pedro Fourier com um lírio e uma cruz na mão. O lírio interpreta-lhe a santidade, a inocência da alma; a cruz, a penitência e mortificação. Imaculada conservou Fourier a inocência batismal, fugindo de tudo que a pudesse macular. Sendo inevitável tratar com pessoas do outro sexo, sempre se havia com o maior recato e com a maior prudência. Era inimigo declarado de toda palavra menos honesta e de modinhas livres. Como vigário, envidou todos os esforços para extirpar na paróquia o que pudesse ofender a boa moral.

A vida de Fourier era a prática de penitência ininterrupta. A alimentação era-lhe a mais frugal possível, e ainda assim tomava uma só refeição por dia. Frequentes vezes entremeava dias de completo jejum. Tinha por indumentária um hábito de fazenda áspera e grossa. O leito era uma tábua. Livros faziam às vezes de travesseiro e um manto abrigava-o contra o frio. Não satisfeito com essas mortificações, sujeitava o corpo a outras rudes penitências, até correr sangue. Nestas práticas todas, era a salvação da alma sua única preocupação. “Deus, meu Senhor, julga diferentemente de nós homens”; costumava dizer: “Se São Paulo receava ser condenado por Deus, muito mais motivo tenho para receá-lo”.

Como prenúncio da morte, Deus mandou-lhe uma febre violenta. Fourier, sentindo a última hora aproximar-se, recebeu os Santos Sacramentos com uma devoção, que a todos edificou. Ora beijava ternamente o crucifixo, ora com os olhos procurava a imagem de Maria Santíssima, enquanto os lábios formulavam a piedosa prece: “Maria, mostrai que sois minha Mãe. Como Mãe sempre Vos invoquei, não rejeiteis agora Vosso filho adotivo”. Pediu que lhe repetissem muitas vezes as palavras: “Temos um Deus tão bom!” A última satisfação que teve, foi poder celebrar ainda a festa da Imaculada Conceição. No dia seguinte, em 9 de dezembro, sua alma deixou esta terra, para entrar no reino eterno do Pai celeste. Às 11 horas da noite o santo servo de Deus fez, por três vezes, o Sinal da Cruz e os olhos fecharam-se-lhe para sempre. Fourier foi canonizado em 1897, pelo Papa Leão XIII.

Reflexões

A virtude do amor de Deus é o traço característico na vida de São Pedro Fourier. O amor de Deus é, entre as virtudes, o que o domingo é entre os dias da semana, o que o sol é entre os astros, o que a rosa é entre as flores: das virtudes a rainha. O amor de Deus é virtude obrigatória, para todos que querem ser de Deus. Parece um paradoxo os homens serem obrigados a amar a Deus, quando são seus filhos, quando lhe devem tudo o que são e o que possuem. Mas tão afastados andam os homens de Deus Nosso Senhor, que é preciso fazer-lhes lembrar essa obrigação de amar a Deus sobre todas as coisas. Os Santos cultivavam o amor de Deus a tal ponto, que evitavam o menor pecado, a mais insignificante falta, receando ofender o seu maior benfeitor. Porque tinham amor a Deus, os mártires iam de bom ânimo ao cárcere, alegres subiam à fogueira, entoavam cânticos de louvor à hora em que eram levados à arena ou ao lugar da crucificação. Porque tinham amor a Deus, os missionários de todos os séculos abandonavam pátria e família, para dedicar-se ao serviço mais penoso, da evangelização dos gentios. Porque tinham amor a Deus, os santos eremitas desfaziam-se das vaidades do mundo, para enterrar-se na solidão das matas ou do deserto, para viver a pão e água, refeição frugalíssima, que repartiam com as feras das selvas. Por amor de Deus, é que milhares e milhares de donzelas deixaram o doce sossego da família, para prestar serviços de bom samaritano a pobres doentes e míseros indigentes. Vendo a nossa sociedade hodierna, constatamos um espantoso declínio do amor de Deus. Poucos há que amam a Deus. Bem aplicáveis ao nosso tempo são as palavras de São João: “O mundo é mau. O que há no mundo ou é concupiscência da carne, ou concupiscência dos olhos, ou soberba da vida”. Se não queremos perder-nos no turbilhão do mundo, devemos, como os Santos, começar a amar a Deus e servir-Lhe a Ele só. Como os Santos, devemos começar uma vida de oração, de virtude e santidade, sem nos importar com o conceito que de nós formularem os mundanos, os servidores de Belial.

Santos cuja memória é celebrada hoje:

Em Roma o martírio do Papa Pio I, que muito trabalhou pela fixação da data da Páscoa na Igreja oriental e ocidental.

Na Armênia a morte dos mártires Januário e Pelágia, no ano de 320.

Em Tonquim, o martírio do bem-aventurado Frei José Fernandes, O. P., de nacionalidade espanhola. Morto pela espada em 1838.

Em Aname, o bem-aventurado Frei José Yuen, da Ordem dos Pregadores. Morreu de fome no cárcere.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii