11 de abril — São Leão Magno, Papa, Confessor e Doutor da Igreja
11 de abril — São Leão Magno, Papa, Confessor e Doutor da IgrejaExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
São Leão, célebre na história da Igreja pelo seu profundo saber, suas grandes e extraordinárias virtudes e principalmente pelo seu brilhante governo que fez como chefe supremo da cristandade, era natural de Roma. Bem cedo, quando ainda fazia seus estudos, pôde-se nele observar um talento fora do comum, como de fato se distinguiu entre seus condiscípulos sendo entre eles sempre quem ocupava o primeiro lugar. Considerando ele nas ciências profanas o acesso para as divinas, com sua aquisição não se contentou, dedicando-se depois ao estudo da teologia e dos livros sacros.
Feito sacerdote, o Papa Celestino, conhecendo de perto o grande valor científico e moral do jovem eclesiástico, ocupou-o logo nos trabalhos administrativos. Por diversas vezes, Leão se desempenhou de cargos dificilíssimos como delegado apostólico. Foi Leão que descobriu as tramoias hipócritas que o pelagiano Juliano fazia para obter a readmissão no grêmio da Igreja. Dada a prudente e circunspecta intervenção de Leão, foi conservada a paz nas Gália, onde graves desinteligências entre Aécio e Albino poderiam ter tido gravíssimas consequências.
Quando, em 440, Xisto III morreu, por unanimidade de votos, foi Leão eleito Papa. O novo Pontífice, conhecendo bem a grande responsabilidade que um chefe da Igreja tem, em longas e fervorosas orações, se preparou para os trabalhos deste seu novo cargo. Roma foi o primeiro campo de sua ação apostólica. Pela oração, pela palavra e pelo exemplo, trabalhou na elevação dos costumes. Às outras dioceses dentro e fora da Itália dirigiu mensagens especiais, todas elas documentos de sua piedade, zelo e prudência. Não estava ele muito tempo sentado no sólio pontifício quando começou sua campanha contra as heresias que por toda a parte se levantavam. Eram os Maniqueus, os Arianos, Donatistas, Priscilianistas e Pelagianos que, quais lobos famintos, procuravam infestar o rebanho de Cristo.
Em numerosas circulares dirigidas aos bispos exortou-os a serem vigilantes, indicou-lhes o modo e os meios para combaterem as doutrinas errôneas e em diversos concílios, entre os quais no célebre concílio de Calcedônia foram discutidas e condenadas as seitas que deturpavam a doutrina sobre a Encarnação de Cristo.
Enquanto Leão, com todo empenho, procurava afastar o rebanho de Nosso Senhor, a peste do erro, a Europa sofreu uma das maiores calamidades que a história conhece: a invasão dos Hunos, chefiados por Átila, que a si próprio chamava o açoite de Deus. A devastação, o incêndio, a pilhagem e a morte marcavam a passagem das terríveis hordas asiáticas. Apavorados, fugiam os povos à aproximação delas para não serem vítimas da sua crueldade inaudita. Átila, sem achar resistência, pôde atravessar o sul da Rússia, a Áustria e a Alemanha. Tendo chegado aos campos catalânicos, na França, achou quem lhe fizesse frente e seu exército foi derrotado. Mudando seu rumo, sua intenção era tomar Roma, e com este fim invadiu a Itália. Leão convidou os fiéis à oração e penitência, implorando assim o auxílio divino. Átila tinha chegado já a Ravena, e os romanos tremiam na expectativa de sua cidade sofrer uma invasão. Leão foi ao encontro do tirano, o qual, contra o que se podia esperar, o recebeu com honras e sinais de respeito. Átila prometeu pôr termo à sua obra devastadora e contentar-se com o pagamento de um tributo. De fato, retirou-se para a Panônia, onde pouco tempo depois morreu.
A vitória que Leão alcançou sobre o pagão Átila, não lhe foi possível obter um ano depois sobre o Genserico, rei dos Vândalos e ariano, que, às instigações da imperatriz Eudóxia, invadiu a Itália e saqueou Roma. Leão apenas conseguiu salvar a cidade do incêndio e as igrejas da profanação. Genserico respeitou a vida dos cidadãos romanos, mas entregou muitos à escravidão.
Os horrores que Roma sofreu com a invasão dos Vândalos, Leão atribuiu-os à vida dissoluta e à ingratidão de muitos romanos.
Leão reinou vinte e um anos e sete meses. Seu pontificado foi um dos mais gloriosos, devido à sua sabedoria, prudência, firmeza e piedade. Deste grande Papa, possuímos 101 alocuções e 141 circulares, documentos preciosos que provam cabalmente que a doutrina católica no século quinto era idêntica à dos nossos dias. Leão, o Grande, morreu no ano de 461.
Reflexões
Com franqueza apostólica, São Leão apontou para a ingratidão e os pecados dos habitantes de Roma, como para os causadores da grande desgraça da invasão dos Vândalos. Não outros são os motivos de muitos sofrimentos e calamidades que caem sobre sua nação, uma sociedade ou família. Deus castiga o pecado e a ingratidão. “É certo — diz São Jerônimo — que fome, guerra, epidemias e outros sofrimentos são consequências dos nossos pecados”. A Sagrada Escritura confirma esta verdade com numerosíssimos exemplos. A história do povo dos judeus é a prova mais patente da reação da justiça divina, que castiga o mal e recompensa o bem. Os Judeus conheciam muito bem esta tática divina. “Não foram obedientes aos vossos mandamentos — diz o piedoso Tobias, — eis porque fomos entregues à pirataria, ao cativeiro e à morte, e para servirmos de fábula, e de escárnio a todas as nações, por entre as quais nos espalhastes” (Tobias 3, 4). Para afastar de nós os castigos de Deus, devemos recorrer à penitência; porque só a penitência é que aplaca a justa ira de Deus. A penitência deve remover o pecado, a virtude deve santificar a nossa vida, a oração deve unir-nos a Deus.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩