10 de novembro — Santo André Avelino († 1608)
10 de novembro — Santo André Avelino († 1608)Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Santo André Avelino, chamado também Lancelotto, nasceu no ano de 1521 em Castronuovo, no reino de Nápoles. Os pais eram muito religiosos e implantaram no coração do filho os sãos princípios da religião, do temor de Deus e de evitar o pecado.
Foram estes princípios que, como fiéis guias, depois dirigiram a vida de André. Quando jovem estudante, se achava em Senisio, uma mulher, que tomada de paixão por ele, começou a obsequiá-lo, procurando assim com meios ardilosos levá-lo ao caminho do pecado. Avelino não a atendeu e rejeitou-lhe os presentes. Vendo em outra ocasião sua virtude grandemente periclitando, salvou-se pela fuga.
Para de vez se ver livre destes perigos, recebeu as ordens sacerdotais. Por algum tempo praticou a advocacia, mas em causas concernentes ao direito canônico. Em um dos processos, em defesa do constituinte, lhe escapou uma mentira. Quando logo depois leu na Bíblia as palavras (Sabedoria 1, 11): "uma boca mentirosa mata a alma", foi tomado de grande arrependimento e daí em diante não mais advogou.
A vida de André pertenceu então exclusivamente ao serviço de Deus. O arcebispo de Nápoles incumbiu-o do governo de um convento de freiras. O zelo que desenvolveu em abolir certos abusos, que se tinham aninhado naquela comunidade, causou-lhe muitas perseguições. Uma vez, por um milagre, escapou da morte; em outra ocasião foi horrivelmente espancado. Tudo sofreu com paciência, conseguindo, graças à constância, restabelecer a ordem no convento. Em 1550 entrou na Ordem dos Teatinos e recebeu o nome de André.
A virtude sólida que nele se manifestava, grangeou-lhe a confiança dos superiores, que o encarregaram da formação dos noviços e da administração de diversas casas. Além dos votos da Ordem, fez ainda dois outros, que se impõem mais à nossa admiração que à imitação: o voto de agir sempre contra a vontade própria, e outro de progredir sempre na perfeição cristã. O amor a Deus e ao próximo inspiraram-lhe a máxima escrupulosidade em aproveitar o tempo.
Se no mundo dedicava por dia seis horas à oração, na Ordem, não sendo mais isto possível, fazia a oração de noite. Grande lhe era a atividade no púlpito e no confessionário. Muitos pecadores se converteram a Deus, outros abandonaram os vícios e muitos que viviam em inimizade, encontraram a paz da alma. Apesar dos grandes merecimentos, tinha-se o Santo em conta de grande pecador, e mais de uma vez externou sérios receios acerca da própria salvação. "Se aquele — costumava dizer — que fez tudo o que devia fazer, deve considerar-se um servo inútil, que farei eu, que das obrigações cumpro só uma pequena parte?" Elevando o olhar ao céu, dizia: "Aquelas habitações magníficas dos espíritos celestiais estariam abertas para uma criatura mísera, desprezível e má como sou?"
Nos últimos dezoito anos de vida, não comia nem carne nem ovos. O único alimento que tomava era feijão cozido em água. "É verdade, — dizia — pela idade que tenho, estou dispensado da lei do jejum e da abstinência; mas quando me lembro dos meus pecados e da negligência com que servi a Deus, acho muita razão em castigar o meu corpo pela mortificação, para assim aplacar a ira divina." Assim falava André Avelino, o qual, segundo o testemunho dos seus confessores, não tinha perdido a inocência batismal.
O leito de André era um duro colchão. Todos os dias disciplinava duramente o corpo. Não satisfeito com isto, pedia todas as manhãs a Deus que lhe mandasse um sofrimento. Nas contrariedades manifestava uma grande paciência, nas perseguições uma mansidão sem igual e aos inimigos e perseguidores retribuía com verdadeira caridade, como mostra o seguinte exemplo:
O filho do irmão de André foi assassinado, sem que pessoa alguma soubesse quem era o criminoso. André sabia-o, mas não fez declaração alguma. Quando afinal o assassino foi descoberto, André implorou a clemência dos juízes em favor do mesmo.
Terníssima era a devoção que André Avelino tinha à sagrada Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. "Que é tudo que faço e sofro, — assim se exprimia o Santo, — em comparação com o que Jesus fez e sofreu por mim? Quem me dera que em sua honra fosse flagelado, pregado na cruz e nela pudesse exalar o meu espírito!"
Extraordinária devoção tinha também ao Santíssimo Sacramento. No último dia de vida quis ainda celebrar o santo sacrifício. Quando, porém, tinha começado a recitar as primeiras orações, no degrau do altar, sofreu um insulto apoplético, que lhe paralisou a língua e o lado esquerdo. Levado ao quarto, recebeu os santos Sacramentos. Em seguida deu a bênção às pessoas presentes, tendo no semblante a expressão de grande contentamento. O dia da sua morte foi 10 de novembro de 1608. André Avelino alcançou a idade de 87 anos. O Papa Clemente XI inseriu-lhe o nome no catálogo dos Santos.
REFLEXÕES
Santo André Avelino chorou amargamente uma mentira, que deliberadamente pregara e abandonou uma profissão, que ao seu ver o expunha muitas vezes ao perigo de faltar à verdade. Que conceito fazes da mentira? Nem todas as mentiras são pecado grave; mas nenhuma há que não represente uma ofensa a Deus. Quem mente em coisas pequenas, perderá a delicadeza de consciência, e pouco a pouco chegará a cometer faltas graves. Dizer conscientemente uma inverdade é sempre pecado, seja qual for o motivo. Grave é o pecado da mentira, quando resulta grande prejuízo ao próximo. Peca gravemente aquele que em confissão faz declarações falsas, em matéria grave ou quem pretende enganar ao confessor, quando a gravidade da matéria exige toda a franqueza. A mentira, em si pecado leve, torna-se grave, quando afirmada com juramento. Examina tua consciência, se possuis o mau hábito de mentir e se assim for, cuida de emendar-te.
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Em Icônio, as santas Trifena e Trifosa, discípulas de São Paulo e de Santa Tecla.
Na ilha de Paros, a santa virgem Teoctista, que fugiu dos Sarracenos e viveu 35 anos na solidão. Sec. 10.
Na Inglaterra, a memória de São Justo, bispo. 632.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩