10 de junho — Santa Margarida, Rainha da Escócia e Viúva
10 de junho — Santa Margarida, Rainha da Escócia e ViúvaExtraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
Margarida nasceu no ano de 1046, na Hungria, onde seus pais, Eduardo e Ágata, se achavam como hóspedes na corte do rei Santo Estêvão. Eduardo era pretendente ao trono da Inglaterra, mas não chegou a reinar devido à grande resistência que encontrou da parte dos seus inimigos. Seu filho Edgar encontrou em Guilherme de Normandia um adversário fortíssimo, das perseguições do qual teve de salvar-se pela fuga. Nesta sua fuga foi acompanhado por sua irmã Margarida. Através de muitas peripécias chegaram Escócia, a cujas costas uma tempestade os atirou. O rei Malcolm III recebeu-os com muita cordialidade, lembrando-se dos infortúnios de que ele mesmo, anos antes, tinha sido vítima. Descobrindo as preciosas virtudes de que Margarida era possuidora, pediu-a em casamento.
Trinta anos viveram na mais perfeita harmonia e Margarida era querida pelos súditos por causa de sua piedade, sabedoria e caridade. No lugar onde se tinha realizado a cerimônia da coroação, mandou ela construir uma igreja em honra da Santíssima Trindade, para alcançar a graça da salvação eterna para si, seu marido e os filhos que Deus lhes quisesse dar. Além desta igreja construiu ainda outras e fundou diversos conventos, dotando-os de todo o necessário para sua subsistência. Considerando-se primeira zeladora das casas de Deus, ela mesma fazia as alfaias para o culto divino e repartia-as entre as diversas igrejas.
Ao rei era ela esposa dedicadíssima. Não só o conduziu à prática da vida cristã, mas fez com que por seus súditos fosse tratado com o maior respeito. Devido à sua benéfica influência, o rei se aplicou a reinar com justiça, a ser um pai para os pobres e um zelador pela religião. Muitos abusos que existiam foram abolidos, porque Margarida, com suave insistência e seu exemplo, soube ganhar influência sobre o coração de seu marido como também sobre os bispos do seu reino.
No meio dos divertimentos e festas da corte, vivia Margarida entregue às práticas da oração e da penitência. Não achando tempo durante o dia para fazer suas orações, fazia-as nas horas silenciosas da noite; ler livros sacros era seu maior prazer e pelo exemplo e sua palavra animava a outros à mesma prática. Com verdadeira avidez espiritual acolhia a palavra de Deus. Os santos Sacramentos, a piedosa rainha recebia-os com grande assiduidade e fervor. A lei do jejum era por ela observada com todo o rigor. Além do jejum da Quaresma, observava outra de quarenta dias em preparação para a festa de Natal. Desta mortificação não se dispensava, embora se sentisse doente.
Admirável foi sua caridade aos pobres. A piedosa rainha mostrava-se incansável em aliviar a triste sorte dos desprotegidos pela fortuna. Diariamente distribuía dinheiro, roupa e mantimentos, e não raras vezes dispôs das suas joias, para não lhe faltar com que socorrer aos pobres.
A nove crianças órfãs deu agasalho, tratando-as com amor de mãe. Diariamente dava comida a trezentos pobres, que eram servidos pela própria rainha e seu esposo.
A caridade desinteressada e verdadeira é sempre largamente recompensada. Deus abençoou o piedoso casal, dando-lhe filhos que receberam uma educação primorosa. Não satisfeita em dar bons mestres e instrutores a seus filhinhos, a rainha mesma tomou em suas mãos a educação dos mesmos. De sua mãe receberam eles os primeiros ensinamentos. Se não lhes deixava faltar o carinho materno, certo era também que os repreendia e castigava quando achava necessário.
Das máximas que incutia no coração de seus filhos, era esta a mais importante: “Meus filhos — dizia-lhes a boa mãe — tende sempre temor e amor de Deus; àqueles que temem a Deus nada faltará, e aqueles que o amam serão felizes aqui e na outra vida”. Era com muito empenho que recomendava aos filhos que se houvessem com muito respeito na igreja, e também neste ponto dava-lhes ótimo exemplo. “A igreja — dizia ela — é um lugar destinado à oração e onde se chora os pecados”.
Depois de uma vida cheia de trabalhos e riquíssima de merecimentos, teve Margarida a graça de conhecer o dia do seu feliz trânsito. Seis meses antes da sua morte sobreveio-lhe uma grave doença. Como em dias de saúde, também na hora da provação a santa rainha deu o exemplo mais perfeito de conformidade com a vontade de Deus. Com uma paciência comovedora suportou as dores que acompanharam a doença e que a deviam preparar para o dia das núpcias eternas. Com grande dor de alma fez sua última confissão geral. Enquanto acusava os seus pecados, muitas vezes as lágrimas lhe embargavam a voz. Feita a confissão, disse que seus dias estavam contados, mas ao confessor predisse uma longa vida. Pediu a este, dois favores, de nunca se esquecer de sua penitente no momento da santa Missa e de interessar-se pela instrução religiosa de seus filhos.
Quatro dias antes da sua morte, por ocasião de um empreendimento bélico, foi assassinado o rei. Um dos príncipes que ia comunicar à mãe o triste acontecimento, foi por ela recebido com estas palavras: “Sei, meu filho, como estão as coisas. Ainda assim, peço-te que me contes tudo como se deu”. Margarida ouviu a narração do fato com toda a calma e disse depois: “Ó meu Deus, eu vos louvo e bendigo por me terdes mandado esta provação ainda nas vésperas da minha morte. Aceito-a para que me perdoeis os meus pecados.” Suas últimas palavras foram: “Senhor Jesus Cristo, que pela vossa morte destes a vida ao mundo, livrai-me dos laços da carne, recebei-me na vossa glória”.
Margarida morreu em 16 de novembro de 1093, na idade de 47 anos. Seu semblante, macerado pelas penitências e pela dor, readquiriu sua frescura primitiva. Deus se dignou de glorificar o túmulo de sua fiel serva por muitos milagres.
Inocêncio IV canonizou-a em 1251 e sua festa foi por Inocêncio XII fixada para o dia 10 de junho.
Reflexões
Da vida e do exemplo desta santa rainha todos podem tirar proveito para sua vida cristã. Aos ricos e altamente colocados Margarida ensina como devem passar santamente seu tempo e de que maneira devem tratar os pobres. Os cônjuges podem aprender a arte de se santificar mutuamente e conservar a paz e união no lar. Aos pais Santa Margarida dá um exemplo prático como se deve educar os filhos. Todos veem em Santa Margarida uma sublime mestra que lhes ensina o devido respeito à igreja, o zelo necessário ao ouvir a palavra de Deus, ler livros espirituais, praticar as virtudes da paciência, de perfeita conformidade na vontade de Deus, observar as leis do jejum e da abstinência.
Atenção especial merecia-lhe a educação de seus filhos. Embora rainha, Santa Margarida tomou a si esta difícil e grata tarefa, ensinando a seus filhos a doutrina cristã e fazendo-os observar os mandamentos da lei de Deus e da Igreja. Que responderão a Deus os pais que se descuidam do dever de educar cristãmente seus filhos? Como se justificarão aqueles que permitem a seus filhos a frequência de bailes, do cinema e não os acompanham para a Missa e para a doutrina cristã? Que será no juízo divino daqueles pais, que falam a seus filhos de muitas coisas, mas tempo não têm para com eles rezar. Sem os princípios da religião de Cristo, não é possível uma educação boa. Sobre a educação, no temor de Deus, lê-se na Bíblia Sagrada o seguinte: “Não queiras subtrair a correção ao menino; porque se tu o castigares com a vara ele não morrerá e tu livrarás sua alma do inferno.” (Provérbios 23, 13). Aquele que ama a seu filho, castiga-o com frequência para que ele se alegre com isso quando for grande e não vá mendigar às portas dos outros. Aquele que ensina seu filho nele será louvado… Um cavalo indômito faz-se intratável, e um filho deixado à sua vontade sairá precipitado. Anima a teu filho e te fará andar assustado; brinca com ele e ele te entristecerá. Não te ponhas a rir com ele para que lhe não sintas as dores e não te desbotem no fim os dentes. Não lhe dês largas na sua mocidade e não desprezeis as suas intenções (isto é, observa-o bem). Encurva-lhe a cerviz na mocidade, e zurze-lhe as suas ilhargas enquanto é menino, para que não suceda, talvez, endurecer-se, e não te obedeça e venha a ser pelo tempo adiante a dor de tua alma. Ensina a teu filho e trabalha para formá-lo para que não tropeces na sua afronta, isto é, para que te não sirva de descrédito e desonra o seu mau procedimento.” (Eclesiástico 30).
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312 ↩