10 de julho — Santa Felicidade e seus sete filhos, Mártires

10 de julho — Santa Felicidade e seus sete filhos, Mártires
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Estes santos mártires, tão festejados nos escritos dos Santos Padres, pelejaram a boa peleja, quando Antonino Pio era imperador romano. Santa Felicidade, natural de Roma, era distinta pela origem e virtude igualmente. Sete filhos, que Deus lhe dera, educou-os nos princípios da religião cristã. Morto o marido, santificou a viuvez pelas práticas da oração, penitência e obras de caridade. Cristãos, como pagãos, sentiam-se atraídos pelo seu bom exemplo, e muitos destes se converteram ao Cristianismo. As conversões avolumaram-se de tal maneira, que uma denúncia foi feita ao imperador nestes termos: “É intolerável que esta viúva e os filhos zombem dos nossos deuses, em desabono da vossa autoridade; se este abuso não acabar, será difícil, senão impossível, aplacar a cólera dos nossos deuses”.

Antonino Pio, em extremo supersticioso, deu ouvido favorável a esta denúncia e ordenou ao Prefeito de Roma, que desse satisfação aos sacerdotes e fizesse tudo para merecer as boas graças dos deuses. Públio, em cumprimento desta ordem, citou a mãe com os filhos perante o tribunal e disse a Felicidade: “É de toda conveniência que dês satisfação às nossas divindades, se não me verei na dura contingência de aplicar as medidas as mais severas contra ti e teus filhos”. Felicidade respondeu: “Enganas-te, se pensas que me podes levar a fazer concessões. Desprezo tuas ameaças, como rejeito tuas promessas. Tenho a meu favor o divino Espírito Santo, que me fortalece no combate contra o demônio. Não receio o martírio e, morrendo pela fé, glorioso e triunfante será o meu fim”.

Públio: “Miserável, se achas tanto prazer na morte, tem ao menos dó de teus filhos!”— Felicidade: “Meus filhos terão a vida, negando-se a sacrificar aos deuses; se, porém, se mancharem com o crime da idolatria, eles mesmos se precipitarão na morte eterna”.

Públio chamou-os para uma nova audiência, no dia seguinte. Tendo comparecido Felicidade e todos os filhos, o Prefeito disse à mãe: “Compadece-te de teus filhos, desses belos rapazes, tem pena desta mocidade em flor!”

Felicidade respondeu: “Tua compaixão é impiedade, e crueldade são tuas insinuações”. Dizendo isto, olhou para os filhos e disse-lhes: “Levantai aos céus os vossos olhos, meus filhos! Vede a Jesus Cristo, com os Santos, à vossa espera! Combatei corajosamente pela salvação das vossas almas e permanecei fiéis ao amor de Jesus Cristo”. Públio mandou esbofetear a mãe e disse-lhe: “Ainda te atreves na minha presença a exortar teus filhos a que neguem a obediência às autoridades?”

Chamou então entre os moços o mais velho, de nome Januário, procurando, por meio de promessas e ameaças, fazê-lo abandonar a religião. Januário, porão, respondeu-lhe: “São tolices que me aconselhas; a sabedoria do Senhor conserva-me e faz-me vencer tudo”. Como resposta, Públio mandou que Januário fosse vergastado e conduzido ao cárcere.

Embora com alguma trepidação, dirigiu-se ao segundo filho, Félix, fazendo-lhe as mesmas propostas e recebeu esta resposta: “Há um só Deus, a quem adoramos e prestamos homenagens. Desiste de querer demover-nos do amor de Jesus Cristo. Não há martírio, nem sentença alguma, que nos possa determinar a abandonar a nossa fé”. Félix seguiu o irmão ao cárcere. Foi apresentado o terceiro filho, Filipe. “Nosso Senhor, o Imperador Antonino Pio, — disse-lhe Públio — ordenou que sacrificasses aos deuses onipotentes”. Filipe: “Nem são deuses, nem onipotentes: são imagens vãs, miseráveis e sem vida; quem as adora, corre perigo de perder a alma; não as adoro”.

Veio o quarto filho, Silvano. A este Públio disse: “Como estou vendo, estais todos de acordo com vossa ímpia mãe, em desatender às ordens dos príncipes e provocar a vossa perdição”. De Silvano teve esta resposta: “Se temêssemos a perdição temporal, causaríamos a perdição eterna. Como sabemos quais são as penas reservadas aos pecadores e as recompensas prometidas aos justos, desprezamos as leis humanas, para não transgredir os mandamentos divinos. Aqueles que desprezam os ídolos, terão a vida eterna, ao passo que perecerão no fogo eterno aqueles que lhes rendem homenagem”. Quando o quinto filho, Alexandre, lhe foi apresentado, Públio disse-lhe: “Tem pena da tua mocidade, meu filho; não sejas teimoso e rebelde contra teu Imperador; faze o que te ordenou. Sacrifica aos deuses, para que possas contar com a amizade e a proteção do teu Soberano”. Alexandre replicou: “Sou discípulo de Jesus Cristo; confesso-o com a boca e tenho-o no meu coração. A Ele pertence meu amor. A minha mocidade, como está vendo, possui a sabedoria da velhice, quando presta louvor a Deus. Teus deuses, porém, junto com seus adoradores, serão infelizes eternamente”.

Alexandre foi levado à prisão e seguiu-se o inquérito do irmão Vital. A este Públio falou: “Decerto preferirás viver, a cair na desgraça!” Vital retorquiu imediatamente: “Quem poderá ter vida melhor? Aquele que adora a Deus verdadeiro ou quem tem o demônio por amigo?” — “Demônio o que é?” perguntou Públio. — “Demônios são os ídolos dos pagãos e todos aqueles que os adoram”, respondeu Vital.

Finalmente veio o último dos moços, Marcial. “Sois cruéis contra vós mesmos” — disse-lhe Públio —, “porque a vossa desobediência e pertinácia obriga-nos a medidas tão duras”. — “Ah! Se soubesses quantos e quão terríveis castigos esperam os idólatras! Mas Deus retém a sua ira contra vós e vossos ídolos. Todos aqueles que não adoram a Jesus Cristo como Deus verdadeiro, serão lançados ao fogo eterno”.

Públio relatou ao Imperador o processo todo contra a mãe e os sete filhos. Antonino Pio condenou-os todos à morte. Januário foi flagelado com bolas de chumbo. Félix e Filipe morreram a cacetadas. Silvano foi precipitado de grande altura e morreu em consequência da queda que levou. Alexandre, Vital e Marcial foram decapitados. Felicidade morreu quatro meses depois, vítima da crueldade tirânica do Imperador.

Mãe e filhos tiveram a morte gloriosa do martírio e entraram triunfantes no reino de Cristo, no ano de 150.

Reflexões

Os Santos Padres chamam bem-aventurada Santa Felicidade, por ter sido mãe de sete filhos mártires. Mártir séptupla chama-a São Gregório. São Crisólogo escreve a seu respeito: “Maior lhe foi a satisfação de ver os corpos inanimados dos filhos, do que se ver no meio dos berços dos mesmos; porque em cada ferida viu um prêmio de vitória, em cada martírio uma palma, em cada vítima uma coroa. Se suas conversações tivessem sido idênticas às de muitas mães dos nossos dias, os filhos não teriam sofrido as dores do martírio, mas os tormentos do inferno”. Pais cristãos! Da vossa conduta, dos vossos ensinamentos, das vossas conversações, depende em grande parte a salvação ou a perdição de vossos filhos. Se observarem em vós uma conduta que discorda dos mandamentos da lei de Deus e da Igreja; se de vossos lábios não ouvem senão mentiras, maledicências, obscenidades, blasfêmias, increpações, injúrias e insultos; se os assuntos invariáveis da vossa conversa são a moda, a vaidade, o baile, o jogo, o teatro, o cinema e dela ficam sistematicamente excluídos Deus, a prática das virtudes, a frequência dos sacramentos, a oração, etc., como poderão vossos filhos aprender praticamente o cristianismo? Como se salvarão? Educai vossos filhos para o céu, como é vosso dever, e dai-lhes o bom exemplo de vossa conduta cristã e de vossa palavra edificante.

Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:

Em Roma o martírio das Santas Virgens, Rufina e Segunda, sob o governo de Valeriano.

Na Bélgica a memória de Santa Amalberga, da família real dos Francos. Sec. 8°. Padroeira dos marinheiros e dos náufragos.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii