10 de janeiro — Santa Ângela de Foligno, Viúva

10 de janeiro — Santa Ângela de Foligno, Viúva
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Nascida em Foligno, na Itália, Ângela era filha de pais nobres, e deles recebeu aprimorada educação. De beleza não comum, de maneiras afáveis, Ângela bem nova ainda, contraiu núpcias com um cavalheiro distintíssimo da sua terra. Abençoada de prole numerosa, não lhe faltaram os cuidados múltiplos de mãe de família; mas tempo bastante lhe sobrava para que o dedicasse a caprichos de vaidade, a festas e divertimentos de toda a sorte. Esta mudança no pensar e proceder de sua filha era objeto de sérias apreensões da parte dos pais, que não perderam ocasião de mostrar a Ângela a inconveniência da sua conduta. Debalde foram estes esforços e os conselhos dos pais. Ângela contrapunha as exigências da sua posição, a que entendia dever sacrificar suas aspirações religiosas.

Não obstante, as admoestações paternais não perderam de todo o seu valor. Ângela, que a princípio tanto amor manifestava às coisas frívolas deste mundo, mais tarde confessou: “Descontente de mim mesma, comecei a pensar seriamente na minha vida. Deus fez-me conhecer os meus pecados, e minha alma encheu-se de pavor, prevendo a possibilidade da minha condenação; tamanha era minha vergonha, que não achei coragem de confessar todos os pecados, do que resultou que diversas vezes recebi os Santos Sacramentos sacrilegamente. Vi minha consciência atormentada dia e noite. Pedi a Nossa Senhora que me conduzisse a um sacerdote esclarecido, ao qual pudesse fazer minha confissão geral. Esta oração foi ouvida, porém, não senti nenhum amor a Deus, mas tanto mais arrependimento, dor e vergonha dos meus pecados.” Feita a conversão, Ângela ficou firme nas suas resoluções e fiel no cumprimento dos seus deveres.

Esta constância mereceu-lhe ainda graças preciosíssimas: a dum grande e perseverante arrependimento dos seus pecados e uma devoção terníssima à Sagrada Paixão e Morte de Jesus Cristo. Embora se lhe tornasse difícil, ajudada pelo auxílio da divina graça, Ângela modificou radicalmente sua vida. Antes tão ávida de diversões, ela procurou em seguida os doces e suaves prazeres do lar; antes vaidosa e opulenta, dispôs das suas joias, transformando-as em ricas esmolas; antes dissipada, tornou-se amante do recolhimento e da meditação. “Tudo isto — ela mesma confessou — me era extremamente difícil; faltava-me ainda o doce consolo do amor de Deus, que suaviza as coisas mais difíceis; era obrigação minha agradar a meu esposo e tomar em consideração os deveres do meu estado, por maior que fosse minha vontade de abandonar tudo e morrer a mim mesma”.

Estava determinado nos planos de Deus que, com prazo de poucos intervalos, Ângela perdesse seu marido e todos os filhos.

Indizível era o seu sofrimento. A graça de Deus, porém, preparando assim para Ângela o caminho da perfeição, fez cicatrizar também estas feridas.

Ângela, livre de todos os laços que a prendiam a esta terra, santificou sua viuvez ao pé do crucifixo, fazendo o voto da castidade e pobreza, e pedindo admissão na Ordem Terceira de São Francisco. A vaidade, a sensualidade, a febre do desejo de agradar aos homens, deram lugar à humildade, à mortificação e ao amor de Jesus Crucificado. A devoção à Sagrada Paixão e Morte de Nosso Senhor tomou posse de sua alma e de todas as suas aspirações. Na meditação dos sofrimentos do Homem-Deus achou a sua paz, o seu consolo.

Jesus distinguiu-a com suas aparições, e fê-la participar da sua Cruz. Grandes eram os seus sofrimentos corporais e espirituais; de todos o maior era uma perseguição diabólica contínua. O demônio, apresentando-lhe continuamente a sua vida pecaminosa, ocorrida em seu passado, quis lhe arrancar a fé na misericórdia divina, no valor das suas obras de penitência e, importunou-a com tentações as mais terríveis contra a santa pureza, tanto que Ângela mesma confessa: “Seria mais tolerável para mim, sofrer todas as dores, suportar as torturas mais horrorosas dos mártires, que ver-me exposta às tentações diabólicas contra a pureza”

A oração e as obras de caridade eram as armas com que venceu nesta luta tremenda. Quotidiana era sua visita aos pobres doentes no hospital, aos quais, além da esmola espiritual, levava também o socorro material, ganhando assim as almas para Jesus Cristo.

Assim correu a vida de Santa Ângela, até o dia que Deus a chamou para a eterna recompensa. No dia que precedeu a sua morte, sentiu-se livre de todas as dores e tentações e, uma felicidade celestial inundou sua alma. Nesta disposição, ela recebeu os Santos Sacramentos, e entrou no Reino da Glória no dia da oitava da Festa dos Inocentes, conforme tinha profetizado. O Papa Inocêncio XII inseriu o seu nome no catálogo dos Santos da Igreja.

Reflexões

Santa Ângela é uma daquelas Santas, de que não se pode absolutamente dizer, que nasceu santa. Apesar da grande felicidade de ter bons pais que vigiavam pela educação moral e intelectual da filha, esta deixou-se levar pelas más influências do mundo, que não é de Deus. Bastante se afastou do caminho da virtude, chegando ao ponto de não ter mais coragem de fazer boa confissão e, neste estado, comungou sacrilegamente. É possível que uma alma chegue a este ponto? Possível é, e muitos são os que, em cuja vida, se dá coisa semelhante. Não fosse a misericórdia divina, a qual, aproveitando-se de mil circunstâncias, às vezes as mais insignificantes, oferecendo à alma caída o seu auxílio, esta não mais se levantaria da sua miséria.

Em Santa Ângela foi o temor do inferno, que a fez voltar. De sua alma se apoderou um temor tal da justiça divina, que, vendo perigar sua alma, seguiu o conselho de Nosso Senhor e cortou a mão, o pé, arrancou o olho, que lhe serviam de escândalo e perdição, e fez penitência. — “Lembra-te de teu fim e não cairás em pecado”, diz o Espírito Santo. Não imites a pecadora Ângela no seu procedimento, mas se tiveste a infelicidade de cair, toma por modelo sua penitência, sua atitude enérgica de fazer penitência. Boa vontade é que Nosso Senhor quer ver também no pecador. Esta havendo, na alma infeliz, não tardará o perdão divino e, com ele, volta a paz e a tranquilidade do espírito.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312