10 de dezembro — Santo Eusébio de Vercelli, Bispo e Mártir

10 de dezembro — Santo Eusébio de Vercelli, Bispo e Mártir
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Santo Eusébio era filho de pais piedosos e ricos e nasceu na ilha de Sardenha. Instruído nas ciências sacras e profanas em Roma, foi incluído no clero romano, quando São Silvestre governava a Igreja. Mais tarde foi destacado para Vercelli, no Piemonte, para ser governador da Diocese. Segundo o testemunho de Santo Ambrósio, foi o primeiro sacerdote secular do Ocidente, que com este estado ligava o de sacerdote regular, e que obrigava o clero da cidade a levar uma vida quase de monges. Eusébio vivia com o clero em comunidade. Pela oração e penitência, pediam-se as bênçãos de Deus para o trabalho da cura de almas. Além disso, estudavam os santos livros, trabalhavam nas paróquias e ocupavam-se de ofícios manuais. Referindo-se a este estado de vida, Santo Ambrósio disse: “Pode haver coisa mais maravilhosa? Tudo ali é digno de imitação. O rigor do jejum é compensado pela paz da consciência e pelo sossego da alma. O poder do bom exemplo sustenta a todos. O que mais custa à natureza, torna-se fácil pelo costume.” Desta santa comunidade saiu uma série de excelentes bispos. Esta vida em comum preparou Eusébio para as lutas que o esperavam e deu-lhe força para sair vencedor de todas. Já em 355 apareceu a primeira dificuldade, quando o Imperador Constâncio convocou o Concílio de Milão, ao qual Eusébio se negou a comparecer, prevendo a preponderância dos elementos arianos. Só quando recebeu o convite escrito do Imperador, dos bispos arianos e católicos, prontificou-se a ir, mas com a declaração de que agiria segundo a sua consciência e os ditames da justiça. Esta declaração determinou os membros do Concílio a dar-lhe acesso as sessões, bem como ao Legado do Papa, e só no décimo dia, quando não havia mais nada a recear de sua presença. Ainda assim exigiram que assinasse uma bula, que continha a excomunhão de Santo Atanásio, a que se opôs enérgica e resolutamente, apelando para a assembleia que devia respeitar as resoluções do Concílio de Niceia. As sessões do Concílio foram então transferidas para os salões do palácio imperial, e foi ali que o Imperador, com a espada em punho, exigiu peremptoriamente que assinasse aquele documento. Eusébio negou ainda a assinatura, o que lhe determinou a prisão e o exílio para Scythopolis, na Palestina.

Os católicos viram no gesto do Imperador o triunfo da fé católica, e deram a Eusébio as provas mais claras e comoventes de solidariedade e dedicação. Em Scythopolis teve de sofrer muitas contrariedades, por causa do bispo ariano daquela cidade. O fanatismo dos arianos chegou a ponto de maltratar fisicamente o santo Prelado, e pô-lo em incomunicabilidade com os católicos. Eusébio passou por um verdadeiro martírio. O consolo do santo Prelado era o amor dos católicos, que o cumulavam de atenções, sempre que podiam, e a visita de Santo Epifânio. Os arianos, porém, não o deixavam em paz. Se por algum tempo conseguia livrar-se da prisão, outra mais apertada se lhe abria. Assim aconteceu que, arrebatado dos católicos, ficasse preso, incomunicável, durante seis dias, sem se alimentar. O alimento que os arianos lhe ofereciam, rejeitava-o, e aos católicos era impossível chegar onde estava. No sexto dia, os católicos apareceram em grande número, e com veementes protestos e grandes ameaças, exigiram a libertação do bispo.

De Scythopolis, Eusébio foi transportado para Capadócia e de lá para a Tebaida, onde permaneceu até a morte do Imperador Constâncio, em 361. Sob o governo de Juliano, o Apóstata, os bispos católicos exilados tiveram liberdade de voltar para as dioceses. Depois de uma expatriação de seis anos, Eusébio foi a Alexandria, onde Santo Atanásio realizava um Concílio, a que assistiu, para depois se dirigir a Antioquia, onde reinavam graves dissenções entre os católicos. Deixando Antioquia, visitou quase todas as Igrejas do Oriente, confortando os católicos, animando os fracos e chamando os separados ao seio da Igreja. Igual apostolado desempenhou na Ilíria, onde o arianismo tinha produzido lamentáveis estragos.

Por fim chegou a Itália, onde teve uma recepção estrondosa, em que tomaram parte os colegas do episcopado e o povo. Em companhia de Santo Hilário, bispo de Poitiers, começou o apostolado da unificação das Igrejas. Eusébio e Hilário contestaram a legitimidade do bispo ariano Auxêncio em Milão; nada, porém, conseguiram, porque Auxêncio soube habilmente enganar o Imperador Valentiniano e alguns bispos.

Depois de tantos trabalhos e lutas, Eusébio retirou-se para sua diocese de Vercelli, onde encontrou tudo em boa ordem, graças ao zelo do clero, principalmente a boa vigilância de Gaudêncio. Não tardou muito que Deus chamasse seu fiel servo ao bem-merecido repouso, em 370. Por causa dos grandes sofrimentos por que passou Santo Eusébio, em defesa da fé, deu-se lhe o título de mártir.

REFLEXÕES

Como é admirável a firmeza de Santo Eusébio nas lutas, nas dificuldades, nas perseguições! Desta firmeza o católico deve procurar ter uma boa parcela. Muitas vezes se vê o contrário. Se vem uma contrariedade, é fácil ouvirem-se palavras de desânimo, de queixas contra Deus e até ameaças de abandonar a religião. Quando vai tudo bem, não é preciso muita virtude, para achar fácil a conformidade com a vontade de Deus.

Sofrer pelo amor de Deus é uma honra, uma segurança. Muitos pensam contrariamente, julgando ser uma graça especial de Deus quando não se sofre nada. O pecador, que assim raciocina, engana-se. São Bernardo escreve: “Quem pecou, não experimentando o castigo de Deus, pode estar certo que é objeto da ira de Deus. Deus condena no outro mundo a quem nesta vida não conseguiu corrigir pela adversidade.” De Santo Agostinho são as seguintes palavras: “Se vives em pecado, e Deus não te castiga, mau sinal é.” A isenção de sofrimento, portanto, longe de ser sinal da amizade de Deus, deve causar sérias apreensões ao pecador. Aos amigos Jesus Cristo oferece o cálice da dor. Disso tens a prova nos apóstolos, mártires e confessores. Queres ser exceção desonrosa desta regra?

Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:

Em Lentini, na Sicília, São Mercúrio e seus companheiros, soldados todos, que no tempo do imperador Licínio tiveram a glória de morrer pela fé.

Em Angora, no tempo de Juliano Apóstata, o martírio de Gemello, que morreu crucificado.

Em Mérida, o martírio de Santa Eulália, virgem. Contava apenas doze anos e sofreu horrivelmente os tormentos que o iníquo juiz Daciano lhe ditara. 303.

No mesmo dia e lugar, a amiga inseparável de Santa Eulália, Santa Júlia. Santa Eulália é invocada em grandes calamidades.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii