09 de setembro — São Liberato e seus companheiros, Mártires

09 de setembro — São Liberato e seus companheiros, Mártires
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Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Sete anos ainda não haviam decorrido desde a última perseguição de Hunerico, Rei dos vândalos na África, que tinha oprimido a Igreja, quando decretou uma nova, mais terrível que a precedente. Ariano que era, deixou-se arrastar pelas instigações e maus conselhos de Cyrillo e de outros bispos da mesma seita, para exterminar o Catolicismo na África.

O monarca tirânico iniciou a perseguição, mandando exilar numerosos Bispos. Vendo, porém, que as medidas eram contraproducentes, e a resistência dos católicos ia se tornando cada vez mais firme, entregou os conventos, tanto de Ordens masculinas como femininas, às hordas indígenas, que praticaram violências as mais horrorosas. De um mosteiro de Kaspa tiraram sete monges e levaram-nos para Cartago, onde se achava o quartel-general dos perseguidores. Os nomes desses homens eram: Liberato, que era abade, Bonifácio, Servo, Rústico, Rogato, Septímio e Máximo.

Tudo se fez para, com bons modos, com promessas e valiosas propostas, ganhá-los para o Arianismo. Os religiosos, acostumados a dar desprezo às coisas do mundo, responderam unanimemente: "Desprezamos o que nos prometeis; só um Deus conhecemos, temos uma só fé, um só batismo. Nossa esperança é de ficarmos sempre na unidade da Igreja. Dispõe de nossos corpos a vosso bel-prazer. Preferimos sofrer no mundo a penar na eternidade". Após essa profissão foram metidos em ferros e levados a uma masmorra, onde, por ordem superior, passaram fome e sofreram cruéis e humilhantes castigos.

Os guardas eram venais e assim os católicos de Cartago conseguiam encontrar-se todos os dias com os encarcerados, aos quais levavam tudo que lhes era necessário para o sustento.

Hunerico, ao saber disso, apertou ainda mais a prisão, dificultando de todos os modos o acesso dos fiéis. Estes, porém, não esmoreceram e continuaram as visitas como antes. O Rei resolveu então ir ao extremo e decretou a morte dos monges. Mandou que fossem embarcados num veleiro, carregado de lenha bem seca, que ia servir de fogueira, para queimá-los vivos.

No dia marcado foram os mártires tirados da prisão e transportados para o navio. Uma enorme multidão de católicos compareceu ao local, para ser testemunha do que ia acontecer.

Os santos homens dirigiram palavras animadoras aos católicos, exortando-os a que ficassem firmes na fé e preferissem a morte a negar uma das verdades, em testemunho das quais Jesus Cristo e tantos mártires derramaram o sangue. Sem desfalecimento algum, dirigiram-se ao lugar onde haviam de oferecer o sacrifício, louvando a Jesus Cristo e dando graças pela honra de poderem unir-se-Lhe na morte. Os Arianos cobriram-nos de escárnio. Os Santos, porém, exultaram pela injustiça que sofriam, por amor de Jesus Cristo e lastimaram a cegueira dos inimigos.

O mais moço dos mártires era Máximo. Dele se acercaram os Arianos com muito carinho, para fazê-lo desistir da resistência. "Tem pena de ti, que és tão moço ainda — diziam-lhe os tentadores. Deixa de seguir teus companheiros, que são uns tolos; põe-te a seguro da morte, que te espera. O Rei terá prazer em receber-te no palácio, onde viverás feliz e cercado de honras". Máximo, porém, fortalecido pela graça de Deus, respondeu-lhes: "Não me separo do meu abade Liberato, e quero estar sempre com meus irmãos; foram eles que me educaram no convento; com eles vivi uma vida de penitência; com eles quero ir ao martírio. Deus terá pena de nós todos. Ficaremos unidos, como os irmãos Macabeus".

Não conseguindo enfraquecer-lhe o espírito, os algozes levaram Máximo junto com os outros ao navio, onde foram amarrados sobre os montões de lenha, a que puseram fogo. Embora bem seca a lenha, não foi possível fazê-la arder, o que causou estupefacção a todos. O tirano, porém, não se apiedou e deu ordem para que os mártires fossem mortos a golpes de remo. Os cadáveres foram atirados ao mar, mas as ondas trouxeram-nos para a terra. O povo católico colheu-os com muito respeito e deu-lhes honrosa sepultura.

Reflexões

Com quanta coragem, com que heroísmo os santos mártires desprezaram as promessas, as blandícias e ameaças do mundo! Com que serenidade foram ao encontro da morte! Que luta gloriosa não sustentaram! Luta não mais há para eles. Agora gozam de perfeita paz, em união íntima com Jesus, de cuja glória participam.

Também nós havemos de combater, para alcançar a coroa eterna. "Não será coroado quem não tiver combatido, conforme a lei" (II Timóteo 2, 5). Vivemos num mundo cheio de perigos e tentações. A alma acha-se constantemente envolta nas tempestades de paixões revoltadas. Maus exemplos pululam e as inclinações do coração são sempre dirigidas para o mal. Resistir a tudo isso requer força de vontade, resistência firme, combate resoluto e sem tréguas, se não queremos correr o perigo de perdermos eternamente. Deus e o mundo disputam o nosso coração. Deus promete a felicidade e o mundo igualmente a promete. A felicidade por Deus prometida não é deste mundo, mas é eterna, indelével. A felicidade do mundo é problemática, incerta e inconstante, sujeita a mil tormentos e termina com a morte. Comparando as promessas que nos são feitas, sem dúvida as de Deus merecem ser preferidas, como de fato os Santos as preferiram.

Não fujamos, pois, da luta. Sejamos perseverantes. Façamos da virtude nossa companheira inseparável. Testemunhemos a Deus o nosso amor, por palavras e por obras. Façamos caridade, onde se nos oferecer ocasião e dela não excluamos os inimigos, se os tivermos. Assim viveremos na fé e pela fé, certos de que seremos felizes aqui e na eternidade.

Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:

Em Sebaste, na Armênia, São Severiano, do exército do Imperador Licínio. Por ter visitado os quarenta mártires no cárcere, o juiz Lísias mandou que aos pés lhe fosse amarrada uma pedra pesada, e, assim, suspenso foi chibateado até que a morte o libertou dos seus algozes. Sec. 4.

Em Nicomédia, a morte dos Santos Doroteu e Gorgônio, homens de grande prestígio no governo de Diocleciano. Como, porém, se manifestassem contra a execução dos decretos da perseguição dos cristãos, o Imperador voltou seu ódio contra eles e fê-los sofrer horrivelmente, querendo em pessoa assistir, como assistiu, ao seu martírio, cuja crueldade zomba de toda a descrição.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii