09 de outubro — São Dionísio, Bispo e Mártir
09 de outubro — São Dionísio, Bispo e MártirExtraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1
É com pesar que constatamos a falta de datas fidedignas, concernentes àqueles homens apostólicos, que nos primeiros séculos da era cristã divulgaram a doutrina de Jesus Cristo Nosso Senhor. Não tinham em mira aqueles mensageiros da fé, eternizar o nome com feitos gloriosos e transmitir à posteridade a memória dos seus labores. Como único meio de implantar a fé nos corações, serviram-se da palavra e as próprias perseguições aconselhavam-lhes guardar na solidão do silêncio a atividade apostólica. Acresce que escritos importantes daquela época, das prístinas eras do cristianismo, foram sacrificados às inclemências dos tempos que corriam. Sirva isto de explicação ao fato de serem tão parcos os conhecimentos que possuímos de São Dionísio, homem pela cristandade inteira reconhecido como um dos mais excelentes Apóstolos da causa de Cristo. O pouco, porém, que existe sobre este preclaro servo de Deus, é suficiente para formarmos uma ideia da sua santidade e suas excelentes virtudes.
Deparamos com o nome de Dionísio no capítulo XVII dos Atos dos Apóstolos. Corria o ano de 51. O apóstolo São Paulo chegou a Atenas e foi conduzido à presença do Areópago, supremo tribunal daquela cidade.
Com a franqueza que lhe era própria, o Apóstolo fez a exposição da doutrina cristã, e alguns dos ouvintes lhe aderiram. Um destes era Dionísio, membro do Areópago. Conforme as leis do país, eram admitidos no Areópago só os arcontes, magistrados da mais alta categoria ou cidadãos distintos pela origem ou grandes merecimentos. Elucidado isto, devemos reconhecer em Dionísio um personagem de alto valor ou porque tenha desempenhado o cargo de arconte, ou pelas excelentes qualidades cívicas, tenha granjeado a estima dos concidadãos. Não acerta Astério, quando no seu panegírico apresenta Dionísio, como presidente do Areópago, pois São Lucas afirma ter sido simples membro. Não é igualmente admissível a opinião de Cesário, segundo a qual Dionísio tenha sido natural da Trácia, porque só os atenienses podiam pertencer ao Areópago. Não erramos, pois, em dizer que Dionísio era natural de Atenas e isto afirmando, estamos de acordo com São Crisóstomo e São Máximo. São Dionísio, em seus escritos, documenta ter feito grandes viagens de estudo, para conhecer costumes e leis de outros povos. Assim aconteceu que, quando se achava em Heliópolis, no Egito, pôde observar o grande e extraordinário eclipse solar, que assombrou o mundo, na hora da morte do Salvador. Pasmado por este fenômeno de todo irregular, exclamou: “De duas uma: ou morreu um Deus ou o mundo desmorona-se”.
De longa data, assim devemos supor, o Espírito Santo preparou o coração de Dionísio para que se abrisse ao conhecimento da verdade. São Paulo, conhecendo a retidão do caráter de Dionísio, recebeu-o entre os discípulos, conferiu-lhe o sacramento da Ordem e nomeou-o Bispo da nova comunidade de Atenas.
Como Bispo, desenvolveu um zelo verdadeiramente apostólico, no intuito de propagar as doutrinas do Evangelho. Numa viagem que fez a Jerusalém, conheceu São Pedro, São Tiago, São Lucas e outros homens apostólicos. Teve a ventura de ver também a Santa Mãe de Jesus Cristo. A dignidade e santidade da Santíssima Virgem extasiaram-no de tal maneira, que teria acreditado ver uma divindade, se pela fé não soubesse que há só um Deus, que é Jesus Cristo.
Os trabalhos apostólicos de Dionísio em Atenas foram recompensados por grande messe, o que causou grande indignação aos idólatras, que cheios de ódio, chegaram ao ponto de decretar a morte do santo Bispo pelo fogo. Dionísio frustrou-lhes os planos por uma viagem que fez a Roma em visita ao Papa São Clemente. De Roma dirigiu-se à França e chegou a Paris, onde se estabeleceu e construiu uma igreja. Muitos pagãos largaram as estultas superstições e converteram-se ao cristianismo. Dionísio teve longa vida e morreu com mais de 100 anos. Essa idade avançada não impediu que os sacerdotes idólatras lhe votassem ódio mortal. Acusado de crimes contra a religião, foi Dionísio com alguns companheiros levado à presença do juiz Fescênio, que os condenou a crudelíssimas torturas. Vendo, porém, que nada conseguia e ouvindo que continuavam a pregar o nome de Jesus Cristo, ordenou que fossem todos decapitados.
Deu-se então o fato extraordinário que a lenda transmitiu: o corpo de Dionísio, já trucidado, levantou-se, tomou nas mãos a cabeça e andou com ela dois mil passos, até que chegou ao Montmartre, onde mais tarde se construiu uma igreja em sua honra. Os corpos dos mártires os pagãos atiraram-nos ao Sena; uma piedosa mulher, de nome Catulla, mandou-os retirar do rio e deu-lhes honrosa sepultura no lugar para onde São Dionísio tinha levado a própria cabeça. Santa Genoveva construiu nova igreja sobre as ruínas da primeira.
São Dionísio é um dos quatorze Santos auxiliares.
REFLEXÕES
Muita gratidão devemos aos homens apostólicos, que selaram a fé com seu sangue, para nos tirar das trevas do paganismo e da noite. Cumpre-nos orientar a nossa vida segundo os princípios por eles pregados, conservar o espírito da fé e transmiti-lo aos nossos pósteros. Inapreciável é o valor da nossa santa religião. É ela que nos garante a felicidade eterna. É ela que dá ordem e paz à sociedade humana. É ela que ensina a todos, superiores e súditos as leis da justiça, da caridade e da tolerância. A nossa religião é apologista do trabalho honesto e condena a preguiça, que tem no Evangelho um representante na pessoa daquele servo que, não querendo trabalhar, enterrou o talento. A religião santifica e abençoa o matrimônio e condena o adultério. A religião mantém os homens na disciplina, obrigando-os ao trabalho, à prática das virtudes e ao combate dos vícios e princípios maus. Estimemos a nossa religião, que tantos benefícios nos prodigaliza e afastemo-nos de pessoas e de uma imprensa que se propõem a destruir tão precioso dom, que o céu nos deu.
Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:
Em Paris, a morte de muitos mártires: do sacerdote Rufino e do diácono Eleutério. 117.
Na Palestina, a memória do Patriarca Abraão.
Em Jerusalém, Santo Andrônico e sua esposa Santa Atanásia. sec. 4.
Notas
- PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii ↩