09 de março — Santa Francisca Romana, Viúva

09 de março — Santa Francisca Romana, Viúva
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Extraído de uma edição de 1928 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Santa Francisca Romana nasceu em 1384. Seu nascimento coincidiu com uma época tristíssima que a Igreja atravessava. Foi tempo do Grande Cisma, que tanta confusão causou no rebanho de Cristo. No meio das tempestades, que ameaçavam meter a fundo a barca de São Pedro, Deus velou sobre sua obra e deu à Igreja o consolo de sua assistência, de que uma prova é a aparição de grandes Santos naqueles séculos turbulentos. Uma destes foi Santa Francisca Romana, filha de Paolo Bussa e de Iacobella dei Roffredeschi, ambos descendentes da aristocracia romana. A seu desejo ardente de pôr a vida no serviço de Deus e se filiar a uma Ordem religiosa, os pais não se mostraram favoráveis. Usando o direito paternal, garantido pelo costume antiquíssimo das famílias patrícias de Roma, Paolo Bussa deu sua filha em matrimônio ao jovem e nobre Lorenzo Ponziani, cuja família se orgulhava de ter entre os seus ascendentes o Papa mártir Ponciano. Logo após o casamento, Francisca adoeceu gravemente e sua cura foi por ela atribuída a Santo Aleixo, que se dignou de lhe aparecer durante os dias da doença. Desde o seu restabelecimento, Francisca dedicou-se largamente às obras de caridade, nas casas dos pobres e doentes, nos hospitais ou onde queria que sua presença fosse reclamada. Sua caridade parecia não ter limites.

Deus abençoou seu lar, dando-lhe três filhos: João Batista, João Evangelista e Inês. Com o ano de 1378 vieram sobre a cidade de Roma dias de horror. A Igreja não tinha só um, mas três Papas ao mesmo tempo, e cada um deles se empenhava em ganhar as simpatias de Nápoles. Urbano VI, o Papa legitimamente eleito, reconheceu em Carlos de Durazzo, da casa de Aragão, o herdeiro da rainha Joana I, de Nápoles, quando esta, não tendo filhos, legou os seus direitos a Luís I de Anjou. Estavam, pois, em contínua rivalidade as casas de Anjou e Aragão, cujos representantes respectivos, no tempo de Francisca, eram: Ladislau I e Luís II. Devido a este estado de coisas, Roma tornou-se teatro e joguete dos partidos, conforme os respectivos Papas davam apoio a este ou àquele partido. A família dos Ponziani colocou-se ao lado do Papa legítimo. O filho de Carlos de Durazzo, Ladislau I de Nápoles, tornou-se o terror de Roma. Num dos seus assaltos à cidade, o marido de Francisca foi gravemente ferido. Seu cunhado, Paluzzo, caiu no poder do inimigo e foi como por um milagre que o filho mais velho, João Batista, não teve a mesma sorte. Numa segunda invasão, Ladislau obrigou a muitos cidadãos e também a Lourenço a abandonar a cidade.

Três anos depois, apareceu novamente o invasor, e desta vez devastou a cidade, duma maneira bárbara. O palácio de Francisca foi invadido e roubado; a criadagem sofreu os maiores vexames e João Batista foi feito prisioneiro. Para completar a desgraça, apareceram os flagelos da fome e da peste, da qual foram vítimas João Evangelista e Inês. Com a morte do tirano, em 1414, vieram tempos mais sossegados e voltaram os prisioneiros e fugitivos. O Papa Martinho V fez sua entrada em Roma sobre cadáveres e escombros. Dois anos depois, morreu o marido de Francisca. Em todas estas provações, no meio de tantas tribulações, teve Francisca ocasião de praticar as virtudes da paciência e conformidade com a vontade de Deus. Quando a miséria chegou ao auge, foi Francisca o anjo da caridade para os pobres e necessitados. Aos inimigos perdoou de coração e obteve de Lourenço que ele também estendesse a mão aos seus desafetos. Mergulhada num mar de desgostos, a Francisca não faltaram as consolações, sem as quais ninguém vive, e que costumam descer copiosamente, à medida que dispensamos o consolo do mundo. Longe de, à maneira de maus e tíbios cristãos, entregar-se ao desespero e desânimo, Francisca procurou e achou conforto na oração, na recepção da Santa Comunhão e, na prática da caridade. Além disto, Deus a consolou com revelações e comunicações místicas sobre a vida de Nosso Senhor Jesus Cristo e Maria Santíssima. Houve tempos, em que teve a honra de trazer no corpo as impressões das chagas de Nosso Senhor e sentir as dores de sua santa Mãe. Característico na vida de Santa Francisca é a convivência constante que teve com seu Anjo da Guarda. Bem jovem ainda, nos primeiros anos de casada, sentia a presença de seu Anjo, que a castigava sensivelmente quando cometia pequenas faltas. Quando perdeu seu filhinho Evangelista, este lhe apareceu com grande glória, comunicando-lhe sua felicidade na visão de Deus. Disse-lhe também que trouxera do Céu um Anjo, que a acompanharia e que seria seu protetor e guia em todas as ocorrências da vida. Este Anjo acompanhou Francisca durante 24 anos, tornando-se visível só quando falava com seu confessor e quando o inimigo a molestava com fortes tentações. Cometendo ela uma inadvertência no serviço de Deus, o Anjo não a castigava, mas velava o rosto.

Mais íntima foi sua convivência com o Anjo que Deus lhe dera, no último período da vida, depois da sua entrada na Ordem por ela fundada. Este Anjo lhe era visível e no seu olhar ela lia a resposta a cada pergunta e o aviso das coisas futuras.

Desde a sua infância, era a vida monástica o sonho de ouro de Francisca, sonho que se realizou só no fim da sua vida. Durante as grandes lutas em Roma, a virtude e o heroico exemplo de Francisca fizeram com que muitas senhoras da melhor sociedade a ela se ligassem, com o fim de se animarem na prática da piedade e virtude cristã. Já no ano de 1425, formou-se uma organização de senhoras, que se agregaram ao ramo da Ordem Beneditina das Olivetanas, de Santa Maria Nuova. Em 1431 a mesma associação recebeu a primeira regra e tomou posse de uma residência perto da Igreja de Santa Maria in Campitelli. A comunidade se compunha de dez senhoras e o pequeno convento tinha o nome de Tor de’ Spechi. Enquanto seu marido era vivo, Francisca não tomou parte na vida da comunidade. Sendo viúva, nada mais a pôde reter. Em 1433 a nova Associação recebeu a aprovação do Papa Eugênio IV.

Mais uma vez voltou Francisca para a casa dos seus, para tratar do seu filho Batista, que enfermara gravemente. Batista restabeleceu-se e a mãe morreu em 9 de março de 1440. Seu corpo foi depositado na Igreja de Santa Maria Nuova.

Reflexões

1. Criança ainda, Santa Francisca Romana não tolerava que alguém a visse insuficientemente coberta, e menos ainda, que lhe pusesse a mão irreverentemente.

— Quanto não pecam os pais, quando não têm o cuidado de vestir decentemente seus filhos pequenos, expondo-os às vistas curiosas, libidinosas e sensuais. A moda atual, que prescreve vestidinho curto, é injustificável perante a lei divina, que manda respeitar a decência e o pudor também nas crianças pequenas. Que juízo será o daqueles pais que, deixando-se levar e guiar pelo espírito da vaidade e da sensualidade, extinguem na alma de seus filhos pequenos o sentimento do pudor, preparam a queda inevitável da inocência dos mesmos, não lhes cobrindo o corpo, segundo as prescrições da decência cristã!

2. Francisca Romana, criança ainda, tinha seu prazer em rezar. A criança, não sendo educada para a piedade, nunca se lembrará de fazer oração. Que conceito se deve fazer de pais, que não acham tempo para ensinar os seus filhinhos a rezar, mas os educam para todas as vaidades e futilidades, dando-lhes a liberdade que querem dentro de casa e na rua!

3. Francisca Romana, tomando estado, seguiu o conselho de seus pais e foi feliz. — Bons filhos não tratam casamento sem antes tomar o conselho e a bênção dos pais. A bênção dos pais é a bênção de Deus. Só motivos extraordinários e muito graves podem dispensar desta obrigação de piedade filial. Grave pode ser o pecado dos pais, quando fazem imposição aos filhos em matéria de casamento: ou impelindo-os para que se casem contra sua inclinação com pessoa que não tem sua simpatia, ou proibindo-lhes a entrada numa Ordem religiosa, se sua vocação for esta.

4. Francisca Romana viveu 40 anos na maior harmonia com seu marido. Que dizem a isso cônjuges que não passam nem 15 dias, sem que haja sérias desavenças entre eles? Que dizem a isso cônjuges que, em vez de se amarem e respeitarem, se amaldiçoam e se guerreiam? Poderão eles ter a bênção de Deus, que é o Deus da paz e da concórdia?

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-i_202312