09 de julho — Os Mártires de Gorkum

09 de julho — Os Mártires de Gorkum
, ,

Extraído de uma edição de 1935 do livro “Na Luz Perpétua — Leituras religiosas da Vida dos Santos de Deus, para todos os dias do ano, apresentadas ao povo cristão” 1

Quando, no século XVI, as heresias de Lutero e Calvino conseguiram entrada na Holanda, lá, como na Alemanha e na Suíça, foram causadoras de graves distúrbios. Os Calvinistas rebelaram-se contra o governo do rei Filipe II e, chefiados pelo príncipe de Orange, tomaram à força armada algumas cidades, entre estas a cidade de Gorkum.

O governador retirou-se para o castelo, em companhia de alguns católicos, dois párocos, onze frades franciscanos e mais sacerdotes seculares. Os calvinistas tomaram posse da cidade e forçaram o castelo à rendição. Esta se efetuou, sob a condição de garantir a todos livre egresso. Os Calvinistas, porém, desprezaram esta combinação e aprisionaram o comandante, todos os clérigos e dois cidadãos, dos quais um foi enforcado imediatamente.

Os sacerdotes eram de preferência alvo do furor calvinista. Maus-tratos revezavam com ameaças de morte, e finalmente foram todos metidos num calabouço subterrâneo. No dia de sexta-feira, lhes deram carne a comer. Querendo eles, porém, observar a abstinência, tiveram de suportar toda a sorte de injúrias e sofrimentos. Empurravam-nos, puxavam-lhes as orelhas, davam-lhes pontadas com a lança, ultrajavam-nos e lançavam-lhes em rosto as maiores infâmias. Ergueram em sua presença uma forca, ameaçando-os com a morte, se não quisessem negar a fé no Santíssimo Sacramento. Ao Vigário Pe. Nicolau van Poppel um dos bandidos pôs a arma na testa e berrou aos ouvidos: “Anda, Padre! Como é? Tantas vezes declaraste no púlpito, que estavas pronto a dar a vida pela fé. Pois então, dize! Estás mesmo disposto?” O Padre respondeu: “Dou a minha vida com muito prazer, se é em testemunho da minha fé e principalmente do artigo por vós rejeitado, o da presença real de Jesus no Santíssimo Sacramento”. Perguntado pelos tesouros, que supunham estarem escondidos no castelo, Padre Nicolau não soube dar informações a respeito. O calvinista lançou-lhe então uma corda ao pescoço, puxou-o de um lado para o outro, até que caiu como morto.

Chegara a vez dos franciscanos. Ao frei Nicásio Janssen puseram o próprio cordão ao pescoço, arrastaram-no à porta do cárcere. Lá chegado, meteram a corda por cima da porta e puxando com força, suspenderam a vítima a altura considerável, para imediatamente a deixarem cair. Isto praticaram com um prazer infame. Afinal a corda rebentou e o pobre padre caiu pesadamente ao chão, sem dar sinal de vida. Para verificar se estava vivo ou morto, os soldados trouxeram velas, queimaram-lhe a testa, o nariz, as pálpebras, as orelhas, a boca e finalmente a língua.

Como o Padre não desse mais sinal de vida, deram-lhe pontapés e disseram com ar de desprezo: “É um frade, que importa?” Mas o Padre não estava morto, tanto que no dia seguinte os bandidos tiveram a satisfação de poder continuar as crueldades.

Durante toda a noite os Padres estiveram entregues à sanha daqueles demônios em figura humana. Não havia nada, que abrandasse o furor dos endiabrados hereges. Davam bofetadas nos religiosos, com tanta força e brutalidade, que lhes corria o sangue do nariz e da boca. O Padre Willehad, um venerável ancião de noventa anos, repetia a cada bofetada que recebia, a jaculatória: “Deus seja louvado!” Os algozes, sentindo-se fatigados de tanto bater, ajoelhavam-se diante dos Padres e entre risos de escárnio, arremedavam a confissão, proferindo nesta ocasião obscenidades e blasfêmias horríveis e asquerosíssimas.

Em outra ocasião, amarraram os religiosos dois a dois e obrigaram-nos a andarem em fila, imitando procissão e a cantar o “Te Deum” e tudo isto sob a algazarra satânica da soldadesca desenfreada. Depois puseram dados nas mãos das vítimas para assim, à guisa de jogo, tirar a sorte quem deles primeiro havia de subir à forca. O Padre Guardião exclamou: “Não se faz mister de jogo, estou pronto, porque já passei por esta delícia”.

Os católicos de Gorkum envidaram todos os esforços para libertar os prisioneiros. Para este fim, dirigiram uma petição ao príncipe de Orange. Os calvinistas, suspeitando qualquer reação, tiraram aos franciscanos o hábito e despacharam-nos, com os outros sacerdotes, na noite de 5 a 6 de julho, para Brielle, à residência do clerófobo conde Guilherme II de la Marck.

A pena nega-se a fazer a descrição de tudo que aqueles religiosos tiveram de sofrer, dos verdugos e do populacho fanático. Em Dordrecht estava à espera o navio, que devia levá-los até Brielle. Antes do embarque, um bando de calvinistas arrastou os mártires a um lugar perto do rio, onde estava aparelhada uma forca. Como cães raivosos, atiraram-se sobre as pobres vítimas e o ar encheu-se de insultos e vitupérios como estes: “Eis aí vossa Igreja! Ide, rezai a vossa Missa”. Em seguida obrigaram-nos a passarem três vezes em volta da forca, sendo a última vez com os joelhos no chão, sob o canto da “Salve Regina”. Enquanto os religiosos se puseram a obedecer a esta ordem ridícula e estapafúrdia, choviam-lhes bengaladas e pedradas às costas. O Padre Vigário Jerônimo van Weert, vendo estas indignidades, não mais se conteve e disse: “Que estou presenciando? Estive entre turcos e infiéis, mas coisa igual a esta nunca vi!”

Finalmente o triste cortejo chegou a Brielle. Lá o esperava o conde de Lummen, com dois pregadores da seita e alguns magistrados. Todos se empenharam para conseguir dos prisioneiros a renúncia à fé, em particular ao dogma da real presença de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento. Foram baldados os esforços. Os mártires unanimemente rejeitaram as propostas feitas e preferiram continuar na prisão. O cárcere que os recebeu, era uma pocilga imundíssima.

Uma ordem do príncipe de Orange, de pôr em liberdade os prisioneiros, não foi cumprida. O conde de Lummen, embriagado de ódio e vinho, mandou-os levar, alta noite, às ruínas do convento Rugem, que pouco antes tinha sido incendiado pelos calvinistas.

Restara ainda o celeiro. O Padre Guardião foi lá mesmo enforcado, depois de ter animado os irmãos à constância. Depois dele, foram estrangulados todos os companheiros. O fanatismo dos calvinistas nem respeitou os cadáveres dos mártires. Cortaram-lhes o nariz, as orelhas e levaram-nos como troféus de vitória nos capacetes e chapéus. Os católicos resgataram por muito dinheiro os corpos dos santos irmãos e transportaram-nos para Bruxelas.

Clemente X beatificou-os em 1674 e Pio IX elevou-os à categoria de Santos, no ano de 1867. A memória dos mártires é celebrada na Igreja no dia 9 de julho.

Eis os nomes dos gloriosos mártires de Gorkum:

Leonardo van Vecchel, Nicolau van Poppel, vigário de Gorkum; Godofredo van Duynen e João van Oosterwyck (agostiniano); João de Colônia, (O. P.), vigário de Hoornaer; Adriano van Hilvarenbeek e Jacobo Lacops (O. Praem.); André Wouters, vigário de Heinenoord; Frei Jerônimo van Weert; Frei Teodoro van Emden; Frei Willehad; Frei Nicásio; Frei Godofredo de Melveren; Frei Antônio de Weer; Frei Antônio de Hornar; Frei Francisco Rodes; Frei Pedro de Asca.

Reflexões

Os santos mártires preferem morrer a negar um artigo sequer da fé. Não podia ser outra sua atitude. Quem nega só um artigo da fé e voluntariamente se entrega a dúvidas a respeito, já perdeu a fé e em consequência deixa de ser católico. Católico é aquele que é batizado e crê em tudo que Deus revelou e ensina a crer através Santa Igreja. Devemos crer tudo, que a Igreja nos propõe como artigo de fé. Cristo chama incrédulo a Tomé, que se negava a crer o artigo da ressurreição do divino Mestre. Incrédulo é, pois, todo aquele que rejeita ou põe em dúvida um artigo da fé. Perante Deus, não é católico quem nega a confissão e deste sacramento não se aproxima, alegando ser o mesmo invenção dos Padres. Católico não é, em consciência, quem nega a infalibilidade do Papa ou a existência de fogo eterno, etc. Sujeitemos o nosso intelecto aos ditames da fé e renovemos muitas vezes as nossas promessas do Batismo, que são a declaração formal da nossa santa fé.

Santos do Martirológio Romano, cuja memória é celebrada hoje:

Em Città di Castello a memória de Santa Verônica Giuliani, Abadessa das Capuchinhas na mesma cidade. Já em sua infância foram observados sinais de futura santidade, como, por ex., seu grande amor a Nossa Senhora, à mortificação, à penitência e uma caridade extraordinária. Ao lado destes indícios havia outros também de teimosia, que às vezes se desabafava em violentas explosões de ira. Com a graça divina, porém, e sua energia individual, conseguiu vencer estes seus defeitos e veio a ser a religiosa mística, que hoje é uma glória de sua Ordem e da Igreja Católica toda. Na Sexta-feira Santa de 1697 recebeu os santos estigmas de Nosso Senhor, distinção esta, que lhe trouxe dolorosas provações.

Mortos pelos maometanos em Damasco, Manuel Ruiz e seus companheiros franciscanos. 1860.

Notas
  1. PDF desse livro disponível em: https://archive.org/details/pe-joao-baptista-lehmann-na-luz-perpetua-vol-ii
09 de julho — Os Mártires de Gorkum — Padre João Batista Lehmann